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- Mesopotâmia dos deuses humilhados

Fonte: Edição 90 - 13 de Abril/2003
Publicada em: 13 de abril de 2003
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Por: Arimatea Coelho

Mesopotâmia, terra dos deuses, de Nergal - senhor do "reino de onde não se volta", berço de Hamurabi, criador de um dos primeiros Códigos da Humanidade, dos soberanos, dos matemáticos, da escrita cunhada em placas de argila, dos estudiosos de estrelas e planetas. Mesopotâmia dos signos de zodíaco, do calendário lunar de dose meses, da semana de sete dias, das crenças nos horóscopos, da divisão do dia em horas, minutos em segundo, do círculo em 360 graus e do processo da multiplicação. Mesopotâmia de tantos avanços e conquistas, quem diria que o rancor pudesse florir na tua culta região sob a batuta da tirania. Mesopotâmia das sangrentas lutas, ocasionadas pelo ódio triunfante.

Certamente, não soubeste multiplicar a tua glória ao longo dos tempos, não soubeste escolher quem te governasse na paz ou na guerra para que tivesse paz, nem te conduzir com serenidade quando do teu ventre explodiu o primeiro fluxo negro do teu tesouro cobiçado.

Um ditador insensível se levantou sobre as hordas famintas e desagregadas do teu povo e, com armas químicas, polvilhou a morte cruel pela ogiva dos seus mísseis assassinos.

Quem diria que ele, para se perpetuar, pudesse fazer florir cogumelos de fogo e fumaça envenenada, promovendo a destruição e o terror entre os teus filhos humilhados.

Tanta riqueza brotando do teu solo miserável. Mas, o que jorrou das tuas entranhas, não foi simplesmente petróleo pegajoso, rico, denso, vital: foi o ódio mais nefando, embrutecido, inominável.

Foi sangue humano que escorreu pelas areias escaldantes do deserto, para manchar definitivamente de vergonha as brancas páginas da história.

A insensatez do teu tirano despertou a ira de um deus malvado, para quem não importa que teus filhos morram sangrando, que tuas mulheres chorem anos de triste viuvez, que as tuas crianças lamentem a perda dos pais, que o terror se espalhe como o cheiro de pão quente pelos ares, que se destruam sítios arqueológico, templos sagrados, que se poluam rios, que se cubra de luto o sol das manhãs. Para este deus inconseqüente, ocupar teu território, teus poços de petróleo, para depois se dizer senhor da paz, é obsessão, meta a atingir com sua artilharia infalível e pesada. Que ambigüidade!

No teu território, a virulência humana agora dita as regras, rege a orquestração da morte com a chegada intempestiva dos teleguiados mísseis, com os passos dos soldados que, em muitos casos, sequer tiveram o prazer de provar a cálida sensação do amor, e já caminham, incertos, pelos terrenos minados do deserto árido, o por entre escombros de cidades aviltadas, onde a morte baila seu pavor medonho e corpos secam ao sol, sem vida.

Na região da Mesopotâmia antiga, onde a nação iraquiana se fez, a guerra tudo desfaz. Tudo vira calcinado pó. Toda e qualquer possibilidade de entendimento sobe pelos ares, nas chamas infernais da ignorância.

Ganância e poder, ou estratégica ocupação, sabemos, é o nome dessa ensandecida "guerra virtual".

Pobre Mesopotâmia de ontem, Iraque de hoje, quem sabe o que amanhã.


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Inclusão: 21/07/2005