Por: Arimatea Coelho
O comércio é uma atividade humana que requer prática e sensibilidade por parte de quem vende. É como administrar uma cidade, que exige do prefeito muitas virtudes, a exemplo de seriedade, desprendimento, sensibilidade e amor para com o povo. Com a atividade comercial, muitos ganharam fama, tornaram-se senhores de grandes fortunas, passaram a exercer influências importantes em todos os ramos da vida, inclusive na cultura, com o surgimento do mecenas que promovia a arte, por diletantismo pessoal ou por simples vaidade. Mas isso aconteceu no passado, não é coisa do presente.
Agora, quem quiser enriquecer, tornar-se importante com esta atividade, terá que ralar bastante, derramar gota por gota o suor do rosto, verter muito sangue (ser desonesto) e, em muitos casos, ser fulminado por derrames e ataques do coração, tamanha a pressão que no dia-a-dia vai-se acumulando no corpo e na alma do comerciante.
No passado, as coisas não eram tão difíceis. Conheci um comerciante que estocava mercadoria e não fazia questão de vende-la, pelo simples prazer de ver as prateleiras sempre cheias e coloridas. Não se podia perguntar o preço do metro de tecido, pois o comerciante ficava zangado, respondia grosseiramente ao comprador. Era uma forma que ele dispunha para proteger o seu produto. Vendia quando queria, e pronto. Mas, nessa época não existia concorrência nem inflação na cidade.
A concorrência exagerada tornou-se brutal. A desvalorização da moeda obriga o comerciante a remarcar todos os dias a sua mercadoria e o congelamento dos salários afasta os compradores das lojas, que obviamente, pedem concordata, entram em falência, fecham as portas para sempre, fazendo aumentar a legião de desempregados de outros setores.
Os problemas causados pelo desemprego se fazem refletir de forma brutal na sociedade, mudando hábitos e costumes de uma população que até pouco tempo atrás comia bem, se vestia com dignidade, tinha dinheiro para o medicamento, vivia, na verdadeira acepção da palavra, e não era importunada pela violência desenfreada que grassa assustadoramente sem que as autoridades tenham forças para coibi-la.
O consumo de álcool chega a índices insuportáveis, a maconha e outras drogas mais pesadas fazem a cabeça dos jovens, que aos poucos perdem a dignidade e a perspectiva de vida, passando a praticar assaltos, roubos, estupros, assassinatos e suicídios, numa constância tão grande que assombra e entristece.
Esta amarga situação poderia ser resolvida pelas Prefeituras Municipais, caso os Prefeitos fossem sensíveis ao problema do desemprego e da violência urbana, e quisessem promover atividades culturais, esportivas e de lazer e criar oportunidades de trabalho para retirar a população do estado de miséria em que vive. Acontece que uma parcela dos municípios brasileiros é administrada a duras penas, em muitos casos por simples inabilidade ou, às vezes, por calculada e perversa indiferença dos prefeitos, sobre quem pesa o ônus e a responsabilidade de gerenciar os destinos da sua cidade, possibilitando melhores condições de vida para a população.
As práticas do esporte, do lazer e da cultura, seriam medidas iniciais imprescindíveis para a transformação de uma sociedade que se degrada pelos caminhos tortuosos da violência, das drogas e do crime, e da outra sociedade que, impotente, passou a viver enclausurada por estes motivos, e que se ressente e se recolhe por trás de muros e de grades com medo da própria sombra, num silêncio denunciador da indignação e da revolta que todos sentem. Mas outras medidas poderiam ser tomadas, que certamente poriam um fim à degradação e ao sofrimento do brasileiro. Citando algumas: maior preocupação com o setor da saúde, da educação, com o salário dos trabalhadores, com o homem do campo, - atualmente tratado com desprezo intolerante - identificação verdadeira com a população que vive em situação de extrema pobreza, esperando que as coisas, por um milagre qualquer, possam mudar para melhor.
Desta forma, todos seríamos felizes, estaríamos estabelecendo a verdadeira cidadania no país, e o comércio, setor tão importante para a economia, e que também sofre a carga de todos os "desajustes" conjunturais não se encontraria agonizando tristemente com suas prateleiras cheias, sem ter para quem vender.