A LINGÍSTICA LUSITANA HOJE NO BERÇO DO IDIOMA
Por:
*Antonio Martins de Araujo (A.B.F. / A.M.L / ANPOLL)
Especial para o Correio dos Municípios
A atualidade do assunto Por mais que o articulista procure acompanhar tudo o que se vem fazendo de importante nas terras de Portugal em torno da Lingística e da Filologia lusitanas, é claro que, deste lado do Atlântico nem sempre chegam com a rapidez da era da Informática as notícias sobre o que se vem publicando nessa área das Ciências Humanas por lá. Fique de logo esclarecido que me valho, pois, dos muitos amigos que venho fazendo ali através dos anos, e me têm distinguido com suas publicações, para escrever a matéria que hoje se publica neste periódico. Por isso, não tenho a veleidade de esgotar o assunto. Os nomes dos autores, e de suas obras, que por desventura minha tenham sido omitidos neste lugar, certamente fornecerão subsídios para outra página futura neste espaço da mídia maranhense. Tome-se por termo de referência inicial o ano de 1900 para este breve painel da Lingística lusitana hoje no berço do idioma comum aos brasileiros.
Lingística Geral e Portuguesa Para uma visão panorâmica de nosso tema, será muito enriquecedora a leitura da obra Introdução … Lingística Geral e Portuguesa, organizada por Isabel Hub, Emília Ribeiro Pedro, Inês Duarte e Carlos A. M. Gouveia. Com 630 p. e o selo da edit. Caminho, de Lisboa, a obra saiu em 1996. Praticamente aí se contemplam todos os campos de nosso assunto, a saber: os modos de representação da linguagem verbal, e seus aspectos biológicos e cognitivos; Fonética e Fonologia; Morfologia e Sintaxe; Semântica e Pragmática; interação verbal; línguas em contacto; variação e mudança Lingísticas .
Embora se subintitule simplesmente de Catálogo de uma Exposição na Biblioteca Nacional em Lisboa, a obra Caminhos do Português, com que o Ministério da Cultura daquele país comemorou do Ano Europeu das Línguas em 2001, é um formoso retrospecto, satisfatoriamente ilustrado, da fortuna que o nosso idioma tem experimentado ali através dos tempos. A presente súmula dos ensaios publicados nesse Catálogo dão uma pálida idéia disso. Ana Maria Martins escreve sobre o tema Emergência e generalização do português escrito: de dom Afonso Henriques a dom Dinis; Telmo Verdelho, sobre Um remoto convívio interlingístico; tradição teórica e herança metaLingística latino-portuguesa; Rita Marquilhas, Em torno do Vocabulário [português e latino] de Bluteau: o reformismo e o prestígio no séc. XVIII; Rui Tavares, sobre a Real Mesa Censória e a demanda da uniformidade; Maria Lucília Gonçalves Pires, sobre Verney e a língua portuguesa; Luís Prista, fala De filólogos a lingítas; Luísa Segura e João Saramago, sobre Variedades dialectais portuguesas; e Manuela Barros Ferreira, sobre Variação lexical. Em conjunto, um belo e rico painel de nossa história Lingística do outro lado do Atlântico.
História Externa e Dialectologia. Pela estrutura da obra, e bem diversa das gramáticas históricas que gozaram de grande prestígio nos meados do século passado, interessantíssimo o Curso de história da língua portuguesa, da autoria de Ivo Castro, com a colaboração de Rita Marquilhas e J. Léon Acosta. A obra saiu em Lisboa, pela Universidade Aberta, em 1991, e recobre cerca de seis séculos de língua portuguesa. Com 278 p., divide- se em cinco blocos, a saber: Lingística Histórica e História da Língua; Geografia da Língua Portuguesa; do Latim ao Português antigo; o Português antigo; e o Português clássico. Ó a melhor e mais atualizada síntese de que dispomos até o momento sobre o apaixonante assunto. Já com vista ao entendimento da expansão e das modalidades do português nos quatro cantos do planeta, impõe-se o Atlas da língua portuguesa na História e no mundo, coordenado por António Luís Ferronha. Os textos, além do escrito pelo coordenador da obra, vêm assinados por alguns dos mais considerados especialistas portugueses nas ciências lingíticas e afins, como Eduardo Lourenço, José Mattoso, Carlos Alberto Medeiros, Rita Marquilhas, Manuela Barros Ferreira, Mariana Betencourt, Rui Manuel Loureiro e Dulce Pereira. Com 134 p. fartamente ilustradas a cores, a obra saiu em 1992 com o selo da Impr. Nac. e Casa da Moeda em Lisboa, com textos distribuídos em seis blocos, a saber: Limites [geográficos] da língua, µfrica, Brasil, µsia, Crioulos de base portuguesa, e O mundo da lusofonia [nos EUA e a quantificação dos falantes do português no mundo]
Especificamente sobre Dialectologia portuguesa, será bastante proveitosa a leitura da obra coletiva Variação Lingística no espaço, no tempo e na sociedade, organizada também por Isabel Hub Faria. Com 316 p. e reunindo dezoito comunicações pronunciados no Encontro Regional da Associação Portuguesa de Lingística, realizada em Miranda do Douro em setembro de 1993, a obra foi editada pela Colibri, de Lisboa, no ano seguinte. Eis algumas delas, com seus autores: Rui Vieira de Castro (Variações escolares sobre a variação Lingística), Michel Contini (Quel avenir pour les langues minoritaires? L'exemple du sarde.), Maria Antónia Coutinho (Variação Lingística e sinonímia), Manuela Barros Ferreira (A limitrofia do sendinês), José Enrique Gargallo Gil, (San Martin de Trevejo, Eljas (As Elhas) y Valverde Del Fresno: una encrucijada Lingística em tierras de Extremadura, Espa¤a), Maria João Marçalo (A dinâmica da língua - implicações num estudo sincrônico), Cristina Martins (O desaparecimento do mirandês na cidade de Miranda do Douro [...]), Maria Antónia Coelho da Mota (Línguas em contacto e variação), José Bettencourt Gonçalves e Maria Fernanda Bacelar do Nascimento (Variação lexical no tempo e no espaço: [...]), Antón Santamarina (Bilingísmo e fronteiras. O caso galego), Gaston Tuaillon Frontires linguistiques: realité ou comodité pour le confort de l'esprit), Luísa Segura da Cruz, João Saramago e Gabriela Vitorino (Os dialectos leoneses em território português: coesão e diversidade) e Brian F. Head (O "dialecto brasileiro" segundo Leite de Vasconcellos). Essas Atas se constituem um prestimoso e atualizado painel da situação do português há cerca de dez anos.
Gramaticologia
Duas obras panorâmicas sobre o item acima se vêm impondo como as mais completas que se escreveram. São elas As origens da Gramaticologia Latino-portuguesa (Aveiro, INIC, 1995, 594 p.), de Telmo Verdelho, que se constituiu sua tese de doutoramento na Sorbonne- Paris IV, 1982, sob a sábia orientação do saudoso Paul Teyssier; e Para uma Gramaticologia Portuguesa - dos primórdios do Gramaticalismo em Portugal a Reis Lobato (Vila Real, Univ. de Trásos-montes e Alto Douro [UTAD], 1957, 348 p.), de Carlos Assunção.
A obra de Verdelho apresenta e comenta o mais completo e pormenorizado elenco da gramaticografia, da lexicografia e da lingisticografia latino-portuguesas dos períodos medieval e renascentista. Essa obra foi o resultado de um simples projeto de introdução aos léxicos bilínges de Jerônimo Cardoso. A extensividade, a pormenorização, a alta qualidade, bem como o rigor científico e metodológico que presidiu … elaboração da obra de pronto levaram o orientador da tese a considerá-la, não uma simples introdução …queles dicionários, mas já a tese de doutorat d'état perfeita e acabada. As informações históricas, o embasamento teórico e as observações críticas de Verdelho … bibliografia editada (e manuscrita) que analisa - daqui por diante, fazem dessa obra fonte de consulta obrigatória para as pesquisas a serem desenvolvidas sobre aquelas três vertentes da ciência Lingística naqueles dois períodos em Portugal.
A obra de Assunção dedica o 1.§ cap. Aos primórdios do Gramaticalismo em Portugal, dando especial atenção aos predecessores e ao contributo da Gramática latina de Manuel µlvares, e aos antecedentes medievais da gramática renascentista; bem como examina as gramáticas 'quinhentistas e seiscentistas portuguesas. No 2.§, estuda a contribuição de Bluteau e Verney, devidamente contextualizados, e a reforma pombalina. E, finalmente concede a metade da obra … análise crítica da Arte da Grammatica de Antônio José dos Reis Lobato (1770), tornando-a principal finalidade de toda a obra.
Tendo cada qual a seu modo focalizado em profundidade aspectos relevantes dos períodos examinados, deixam ambos aos brasileiros um tácito e discreto convite a que os historiadores de nossa Lingística façam o mesmo em relação … variada produção gramatical brasileira dos dois últimos séculos de nossa autonomia político-administrativa.
Gramáticas do período clássico
Tem sido muito louvável o interesse que se vem dedicando em Portugal ao estudo das gramáticas portuguesas editadas nos três primeiros séculos da idade moderna. Após dez anos das edições facsimiladas que a Impr. Nacional de Lisboa publicou, a partir dos anos noventa têm sido editadas ali as mais importantes gramáticas do período clássico. Senão vejamos:
O filólogo Amadeu Torres e sua equipa têm-se dedicado ultimamente … editoração (crítica e/diplomática) de gramáticas portuguesas antigas, fundamentais para a compreensão dos critérios que presidiram 'a descrição Lingística através dos anos em terra de Camões. A Gramática da linguagem portuguesa (1536), de Fernão de Oliveira, foi editada critica-mente por Amadeu Torres e Carlos Assunção (Lisboa, Acad. das Ciências, 2000, 340 p.). A Gramática Filosófica da Língua Portuguesa (1783), de Bernardo de Lima e Melo Bacelar, foi editada facsimilarmente por Amadeu Torres, que lhe preparou muito úteis introdução e notas (Lisboa, Acad. Portuguesa de História, 2000, 246 p.). Pela Acad. das Ciências, em Lisboa, saiu no mesmo ano da anterior, com 678p. a edição crítica da Grammatica da Língua Portugueza, de António José dos Reis Lobato, preparada por Carlos Assunção. Tal importância teve essa gramática sob a época pombalina, que, entre 1770 e 1869, dela se tiraram cerca de quarenta edições, e suas lições tiveram importante repercussão no Brasil. (O Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa, do padre Antônio da Costa Duarte " São Luís, 1829 " , primeira gramática publicada no Brasil, a ela se refere a propósito dos valores semântico-sintáticos do v. haver.) Finalmente, a Gramática Filosófica da Língua Portuguesa (1822), de Jerônimo Soares Barbosa, mereceu uma edição facsimilada, comentada e enriquecida com notas preparadas de Amadeu Torres (Lisboa, Acad. das Ciências, 2004, 518 p.), que por certo será muito útil para o rastreamento de sua fortuna crítica em terras brasílicas.
Ortografia
No tocante … ortografia, Maria Filomena Candeias Gonçalves, da Univ. de Óvora, publicou, refundida, sua dissertação de mestrado - Madureira Feijó: ortografista do séc. XVIII; para uma história da ortografia portuguesa (Lisboa, ICALP / Min. Educ., 1992); e sistematicamente vem editando estudos pontuais sobre ortografia (como D. Luís Caetano de Lima, o Dicionário da Academia de 1793, entre outros) e sobre gramáticas portuguesas do séc. XIX. Em janeiro de 1999, a ilustre filóloga defendeu sua tese de doutoramento junto … Univ. de Óvora " As idéias ortográficas em Portugal: da etimologia … reforma. Pôde assim publicar, em março de 2003, com o apoio da Fund. Calouste Gulbenkian e Fund. para a Ciência e Tecnologia, com um elogioso prefácio do lingísta Jorge Morais Barbosa, seu orientador, a erudita obra As idéias ortográficas em Portugal / De Madureira Feijó a Gonçalves Viana (1734-1911), com 1050 p.
Crítica textual
Como a matéria é vasta e o espaço limitado, além daquelas sobre as quais já nos reportamos acima, permito-me comentar ligeiramente três edições críticas portuguesas recentes para encerrar esta primeira breve informação sobre o que se vem editando em Portugal na área da Lingística e da filologia.
Em 1990, Ivo Castro reeditou em facsímile os dois volumes (de cerca de mil páginas cada um, em papel bíblia) do Cancioneiro da Ajuda, que Carolina Michaelis de Vasconcelos editou em Halle no ano de 1904. Além do elegante prefácio … obra, Castro reproduziu nessa edição o Glossário que a filóloga alemã fez editar no número XXIII da Revista Lusitana, o que de muito vem auxiliando os não especialistas na compreensão do texto editado.
Essa edição faz contraponto com o Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, com textos estabelecidos por Aída Fernanda Dias. No mesmo ano (1990), essa filóloga editou ali os dois primeiros volumes da obra. Três anos depois, foi a vez dos outros dois. Coroando sua bem cuidada edição, em 1998, a especialista dedicou um quinto volume de cerca de meio milhar de páginas …s linhas temáticas daquele Cancioneiro, contextualizando-a na sociedade de seu tempo, retratando o perfil do compilador, estudando os problemas que envolveram a edição princeps da obra (1515), e analisando suas vertentes temáticas, como a religiosa, a elegíaca, a heróica, a lírica, e a satírica de vária espécie.
Outrossim, estará fazendo agora dez anos da publicação de uma das mais eruditas e bem acabadas edições críticas de que se tem notícia no mundo lusófono. Trata-se do Livro das obras de Garcia de Resende, da Dra. Evelina Verdelho, ilustre pesquisadora da Univ. de Coimbra. O cuidado que dedicou ao estudo textológico e ao confronto das edições de Resende, bem como seu exaustivo Estudo Lingístico, que recobre não só a Fonética e a Fonologia, transparentes no texto editado, mas também a Morfologia e a Sintaxe, enriquecem sobremodo as Ciências Humanas lusitanas dos tempos modernos.
Prometendo e concluindo
Em 2001, nas páginas do periódico Lusorama - Revista de Estudos sobre os Países de Língua Portuguesa (Frankfurt am Maim, n.os 47-48, out. 2001, p. 128-319) foi editado o ensaio Para uma história da ortografia portuguesa: o texto metaortográfico e a sua periodização do séc. XVI até … reforma ortográfica de 1911, que, de certo modo, faz contraponto com o os estudos de Maria Filomena Gonçalves sobre a ortografia portuguesa. Como autor e periódicos são alemães, pretendo reportar-me a esse trabalho em meu estudo futuro A língua portuguesa nos países de fala alemã. Mutatis mutandi, nesse ensaio, pretendo também reportar- me … dicionarística, estudando criticamente o excelente trabalho de Dieter Messner - Os dicionários dos dicionários portugueses ", obra ciclópica planeada para 38 volumes, dos quais já se publicaram 21 deles, que contempla também a dicionarística espanhola, Assim caminham a Filologia e a Lingística Portuguesa nestes três últimos lustros. Isto, porém, é uma simples e breve notícia do que se vem fazendo por lá nesta pauta. Certamente há outras tantas obras importantes de que ainda não tive notícia. Ficarão, pois, para uma outra próxima Coluna de Língua Portuguesa, neste periódico.