Por: Arimatea Coelho
Conhecida popular mente por Doquinha, a anciã Raimunda Macedo de Mattos nasceu em 1907 e morreu em 1992, sem assistência médica, como consta em sua certidão de óbito.
Na mocidade, Doquinha fora uma das costureiras mais afamadas de Vitória - diziam os mais velhos.
Vestidos da moda e bordados bem traçados deveriam ser feitos por ela, que nascera prendada como bem poucas em sua época. Tão prendada que, na velhice, ainda costurava seus próprios vestidos, com rara habilidade, emendando, a mão e dedal, retalhos de todas as cores e de todos os tecidos. Diziam, também, que ela se destacava das outras moças da sua idade, pela beleza incomum que Deus lhe dera, e pela educação - qualidade que lhe viera de berço, senão imposta pelos pais, Dorotheo das Chagas de Mattos e Maurília Macedo de Mattos.
Trajava-se como bem poucas, com elegância. Para os vesperais que aconteciam na cidade era sempre a primeira convidada, a mais bonita, chegando a arrancar suspiros dos moços pretendentes.
Certo dia, iniciou namoro com um certo rapaz, bonito, de boa família, porém, vaidoso, namorador ao extremo, e destituído de bons sentimentos e propósitos.
O namoro se iniciara prenunciando casamento, teria sido lindo, resultaria em união sólida e perfeita, caso não houvesse na cidade outras moças que, invejando aquele relacionamento feliz, não estivessem interessadas no amor fugaz e dissimulado do rapaz.
E, assim, como tão ardente a relação se iniciara, dois meses depois, num baile de carnaval, friamente se desfez.
Tudo aconteceu por que o rapaz iniciara um namoro com uma rapariga de comportamento leviano, acostumada a encontros furtivos, não raramente com grupos de rapazolas, que, na escuridão dos becos, saciavam os primeiros arroubos da carne com a "generosa donzela".
Naquela noite do ano de 1927, Doquinha se arrumara com vestido … Colombina, e seguira com os pais para a Casa Popular, onde o baile de carnaval prometia ser dos mais alegres e festivos. Os dois quartos e a imensa varanda da casa de pedra, agora transformados em salões de baile, estavam enfeitados de bandeirolas, balões, laços de fita, e repletos de foliões.
às 20:30 horas, a banda musical iniciou uma marchinha alegre, dando início … movimentada noite. Confetes foram jogados ao acaso, e para cima; serpentina cruzaram o espaço em todos os sentidos; o ar impregnou-se com o cheiro inconfundível de lança-perfume, e os foliões se movimentaram ao ritmo da música, na euforia alucinante do carnaval.
O rapaz, que se atrasara para o início do baile, chegou de repente, e, sorridente, enlaçoui o corpo de Doquinha, por trás, disse-lhe alguma coisa ao ouvido e saíram rodopiando pelo salão. Ela, sentindo- se a moça mais feliz da vida, o coração batendo acelerado no peito, ao lado daquele moço bonito, de olhar e sorriso encantadores. Doquinha sentia desejos de cochichar ao ouvido do rapaz, naquele momento de felicidade, que ela o amava desesperadamente, que sem ele a vida ser-lhe-ia um pesadelo sem fim. Mas ela ficou calada, acompanhando os seus passos, sentindo-lhe a respiração ofegante e morna no pescoço. Tanta felicidade ela sentia, que não conseguia, de forma alguma, expressar com palavras os seus sentimentos naquele instante. Ficou calada, acompanhando os ritmos da música e os passos do seu encantado amor. Mas, de repente, o rapaz estacou no meio do salão, inesperadamente, soaram as terríveis palavras que sentenciavam o fim daquele momento encantador: "Estou amando outra mulher. O nosso namoro acaba aqui".
Ela sentira como se o rapaz a houvesse apunhalado o coração. E a partir daquele instante terrível, Doquinha sentira a casa rodopiar sobre sua cabeça e o piso afundar sobre seus pés, mas não notara o corpo do moço bonito se afastar lentamente do seu corpo, não ouvira as suas últimas palavras: "por favor, esqueça-me". Ela ficara no centro do salão como se ainda estivesse abraçada ao seu moço bonito, de amor fugaz e dissimulado, por quem se apaixonara com todas as forças do coração, não escutara mais a música que a banda executava, não sentira o cheiro que fluía dos lançaperfumes, e todos os carnavalescos do salão haviam se transformado em sombras invisíveis que se fundiam com a noite pesada que se abatera sobre seu celebro confuso.
Momentos depois, fora encontrada pelos pais, derramando lágrimas pelo rosto, 'como se fossem gotas de sangue que o sofrimento fizera sangrar do seu coração.
Sua cabeça, a partir de então, passara a ser povoada por uma noite de profunda demência, de desordens, de perturbações permanentes.
***
Eu a conheci quando menino, muitos anos depois. Mal-humorada, com o corpo fisicamente debilitado, dava tristeza ver Doquinha mendigar um copo de cachaça pelas quitandas e voltar cambaleando para casa, proferindo palavras desordenadas, como se, com aquela estranha e ininteligível conversação, mantivesse contato com seus antigos fantasmas.
Ela morava na rua Calixta Maciel, numa casa humilde, de taipa, de apenas duas divisões: cozinha e quarto, onde ela amontoava sacos de retalhos de pano e outras bugingangas, recolhidas diariamente pelas ruas da cidade, na faina incansável da sua miserável existência.
Vivia sozinha naquela casa, curtindo uma solidão que remontava dos tempos da sua triste mocidade. Melhor dizendo, vivia na companhia de dezenas de gatos, aos quais ela chamava de Óster, Melquíades, Baltazar, Benedita, Serafim, Marialva...
Dentre todos os seus gatos, entretanto, existia um, o mais antigo e bonito, que não possuía nome, não sei por que. Quando ela o chamava, dizia simplesmente: "Vem cá, meu bichano malvado, veja o que eu trouxe pra você". E ficava, como que extasiado, vendo o gato devorar a comida que ela conseguia nas casas da vizinhança.