Em nota publicada nos jornais da região tocantina, o ex-prefeito de Açailândia, Ildemar Gonçalves dos Santos, que é acusado de ter dado dinheiro da prefeitura a fornecedores fantasmas, tenta provar que comprou mesmo quase 33 mil quilos de rapadura em apenas um dia para a merenda escolar. Ele diz que o produto tinha como finalidade complementar a necessidade de calorias da merenda escolar. Pelas contas de Ildemar, cada um dos 22 mil alunos do município comeu um quilo e meio de rapadura em apenas um mês. No mesmo período ele comprou 10.800 maços de cheiro verde, 4.728 quilos de pimentão fresco e 1,380 quilos de sal, conforme relatório técnico elaborado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). Veja ao lados os documentos comprovando as irregularidades.
A nota de Ildemar Gonçalves aparece em resposta as notícias publicadas pela imprensa de São Luís e Imperatriz, dando conta da descoberta de documentos que provam negócios ilícitos entre a prefeitura de Açailândia e fornecedores fantasmas no período em que ele foi prefeito. A merenda escolar, que é um programa do governo federal, tem repasses mensais para os municípios, o que significa dizer que não se pode comprar, por cada período, alimentos para mais de um mês.
No caso da rapadura, a nota fiscal de número 82, emitida no dia 16 de maio de 1995 pelo Supermercado Bola Sete, mostra que Ildemar pagou R$ 26.625,60 por 32.332 quilos do produto. O ex-prefeito alega que dava merenda para 22 mil alunos naquele ano, "o que significaria um consumo mensal de um quilo e meio de rapadura por aluno", observa o suplente de vereador Antonio Ferreira, autor da representação na justiça contra o ex-prefeito. "Só que, naquele ano, o município tinha matriculados apenas 19 mil alunos, um terço dos quais no período noturno que não recebem merenda. Portanto sobrou mais um quilo e meio de rapadura para cada aluno" - informa.
A nota de esclarecimento de Ildemar Gonçalves reafirma que o Supermercado Bola Sete foi fornecedor de gêneros alimentícios para a merenda escolar e participou de concorrência com empresas de Brasília. O advogado Marcos Lobo, contratado por Ferreira, apresenta documentos que comprometem a lisura do negócio. O levantamento de uma longa seqência de notas fiscais emitidas pelo supermercado mostra que a empresa só tinha um cliente, justamente a prefeitura de Açailândia. "Da nota fiscal de número 77 … de número 89, entre os dias 10 de abril e 8 de junho de 1995, o Bola Sete só vendeu para a prefeitura. Num período de dois meses de portas abertas não apareceu um outro cliente sequer para comprar uma caixa de fósforos", observa Lobo.
O ex-prefeito diz que não lembra quem eram os donos do Bola Sete, mas os documentos arquivados na Junta Comercial apontam como sócios dois primos em primeiro grau de Ildemar. O supermercado tinha como endereço o pequeno povoado de Cajuapara, entre as cidades de Açailândia e Itinga, onde o único estabelecimento comercial de porte é uma fazenda de Ildemar, de nome Fazenda Bola Sete.
MEMÓRIA - Na nota em que se defende, Ildemar Gonçalves não toca nas três construtoras fantasmas que faturaram cerca de R$ 1 milhão contra a prefeitura de Açailândia no mesmo período. As três tinham como sócios funcionários do primeiro escalão da sua administração que se revezavam em cada contrato social. Os endereços registrados na Junta Comercial são fictícios e as obras pelas quais receberam não se comprovam.
Ildemar alega que teve as contas aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado, mas existem relatórios técnicos do TCE que deixam em aberto questões como um pagamento de quase R$ 500 mil feito por Ildemar ao fornecedor de nome Concel Ltda, no dia 14 de julho de 1996. O TCE quer saber porque Ildemar pagou … Concel R$ 439.187,08 logo que o município foi condenado em primeiro instância. No caso ele seria obrigado a recorrer a todas as instâncias superiores, depois de todas decisões contrárias e ainda teria que esperar a conta ser transformada em precatório para daí ter mais um ano de prazo para quitá-la, ressalta o advogado Marcos Lobo.
"Diante de tanta pressa para pagar uma conta, seria necessário dizer pelo menos qual foi o incêndio que a tal Concel Ltda apagou em Açailândia. O que também é curioso e contradiz essa vocação de bom pagador é que em dezembro do ano seguinte Ildemar viu findar o seu mandato, deixando no rastro cinco meses de salários em atraso e mais o décimo terceiro salário do ano. O dinheiro do município só deu para a rapadura, o cheiro verde e pra Concel", lembra Antonio Ferreira.
Ildemar ainda alega que o irmão nunca teve gráfica, mas um documento da Junta Comercial comprova que Ildenor Gonçalves dos Santos era dono da Gráfica Ideal, que confeccionava todos os talões de notas fiscais e prestava serviços a Prefeitura de Açailândia.