*Antonio Martins de Araujo (A.B.B. / A.M.L / ANPOLL
Especial para o Correio dos Municípios
Colóquio Internacional de Língua Portuguesa
Nos dias 21, 22 e 23 de abril p. p., na Faculdade de Filosofia, da Universidade Católica Portuguesa, na cidade de Braga, realizou- se o Colóquio de Gramática e Humanismo, em comemoração ao octogésimo aniversário de nascimento do sábio filólogo lusitano, padre Amadeu Torres.
Cerca de noventa professores, entre conferencistas e comunicadores de vários países participaram do evento, que foi assistido por centenas de professores e universitário de várias instituições portuguesas.
Por ter de assistir à sua esposa Sr.ª Jovita Carvalho de Araujo, em uma delicada intervenção cirúrgica a que se submeteu, e sua posterior convalescença, esse colunista não pôde apresentar sua comunicação sobre 'As fontes lusitanas da primeira gramática brasileira', que será estampada em um dos próximos números deste periódico e nos Anais daquele Colóquio.
Temos o prazer de divulgar as ementas das conferências plenárias e das comunicações que foram ali apresentadas.
1. Conferências
A Filologia e a Hermenêutica do Texto Literário
Vítor AGUIAR E SILVA
Universidade do Minho
A variabilidade diacrónica do conceito de filologia e as dificuldades da delimitação e da caracterização da filologia como área disciplinar. A necessidade de um rigoroso escrutínio histórico e epistemológico do conceito de filologia de modo a evitar quer o relativismo radical (e.g., a posição de Hermann Kantorowicz, segundo o qual "a filologia é um mito"), quer o anacronismo desfigurador da tradição filológica (e.g., a posição de Bernard Cerquiglini, segundo o qual a filologia é uma "ciência moderna", constituída no início do século XIX, e depois aplicada a "objectos antigos").
Os paradigmas da filologia alexandrina, da ars critica do Humanismo renascentista, da Wortphilologie romântica e positivista, da nuova filologia italiana e da new philology pósestruturalista: permanências e mutações.
O paradigma da Sachphilologie e as suas genealogias iluministas e românticas: a filologia como "literatura universal" (Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers), como "ciência da Antiguidade"(F.A.Wolf), como "conhecimento do conhecido" (A. Boeck), como "história do espírito humano"(H. Steinthal). A deriva político-ideológica da filologia oitocentista com as Nationalphilologien.
O triunfo da Wortphilologie no quadro epistemológico das humanidades e das ciências humanas contemporâneas. Apogeu e declínio da Wortphilologie nos estudos linguísticos e literários do século XX.
As relações da filologia com a hermenêutica desde a filologia alexandrina até Schleiermacher, Steinthal, Dilthey, Szondi, Paul de Man e Jean Bollack. A função central da hermenêutica na reconstrução e no estabelecimento dos textos literários, quer como interpretatio verborum, quer como interpretatio rerum. O "círculo filológico" como "círculo hermenêutico".
O papel fundacional - e não ancilar - da filologia no conhecimento do texto literário. O texto reconstruído e estabelecido pela filologia, superando a erosão e o desfiguramento impostos pelo tempo e pela transmissão manuscrita e impressa, como restituição da autenticidade originária do texto, quer sob o ponto de vista da vontade do autor, quer sob o ponto de vista da historicidade contextual. A materialidade do texto autêntico como fundamento do labor hermenêutico.
As limitações historicistas e positivistas impostas à hermenêutica literária pelos dogmas filológicos da intenção do autor e da determinação do texto pelo contexto. A insustentabilidade das hermenêuticas radicalmente autorais/autoritárias e contextualistas. A exotopia e a exocronia dialógicas do leitor/intérprete em relação ao texto literário e as suas consequências hermenêuticas.
A língua e a visão do mundo - uma revisitação da hipótese de Sapir-Whorf
Onésimo Teotónio ALMEIDA
Brown University - USA
Onesimo_Almeida@brown.edu
Sendo a língua, nos seus mais diversos aspectos incluindo a gramática filosófica, um dos temas dilectos do Professor Amadeu Torres, escolhi-a para tema da minha comunicação. A William von Humboldt e Herder costuma ser atribuída a paternidade da doutrina, mais tarde desenvolvida por Edward Sapir e Benjamin L. Whorf, segundo a qual uma língua encerra uma visão do mundo. Essa hipótese, a confirmar-se, acarretaria consigo importantes implicações culturais e éticas. Nesta comunicação revisitarei a famosa hipótese, hoje tornada de novo actual através de tendências como o "politicamnte correcto". Nos últimos tempos tenho-me debruçado sobre diversas questões relacionadas com a temática da língua, entre as quais a da "lusofonia", e este ensaio, de carácter mais filosófico, servirá para colmatar as brechas ainda existentes nas minhas diversas abordagens solidificando a argumentação de fundo que nesse domínio tenho vindo a desenvolver.
Uma edição crítica das comédias de Sá de Miranda
Thomas EARLE
University of Oxford - UK
thomas.earle@modernlanguages. oxford.ac.uk
As comédias de Francisco de Sá de Miranda, Os Estrangeiros e Os Vilhalpandos, foram editadas pela primeira vez entre 1559 e 1561, pouco depois da morte do poeta. Os leitores modernos conhecem-nas através da edição feita por Rodrigues Lapa, que se baseia na tradição impressa. No entanto, existe também uma tradição manuscrita, em muitos respeitos superior às edições antigas. Nesta comunicação haverá uma tentativa de provar esta asserção, por meio de uma comparação entre as versões diferentes. No meu ver, uma edição de uma obra clássica devia ser acompanhada por um comentário, especialmente no caso de obras pouco conhecidas, como as comédias mirandinas. Far-se-á uma discussão de alguns dos pontos mais intrigantes do comentário, cuja elucidação ajuda uma melhor compreensão do pensamento do dramaturgo, e do público para o qual escrevia.
Mito, ritual y poesía
Antonio LÓPEZ EIRE
Universidad de Salamanca
lopezeire@usal.es
Existe una clara relación entre estos tres conceptos, pues los tres derivan del carácter pragmático (el lenguaje sirve para hacer cosas o acciones), político-social (nadie habla por hablar, el lenguaje es esencialmente dialógico y político-social) y simbólico (el lenguaje produce signos que no necesitan la presencia del referente para significar) del lenguaje.
El hombre (Aristoteles dixit) es un animal político-social, y, como la Naturaleza no hace nada en vano, dotó al hombre de lenguaje racional o lógos, y así, mientras que los demás animales, que son, todo lo más, gregarios, pero no político-sociales, son capaces de expresar sentimientos de placer o dolor, el hombre puede hacer algo más: puede hacer ver a sus conciudadanos lo beneficioso y lo nocivo, el bien y el mal, lo justo y lo injusto.
Pero es que resulta que la Antropología moderna ha descubierto que en los homínidos que dieron lugar a la raza humana se produjo una evolutionary anomaly que se tradujo anatómica y fisiológicamente en una enorme expansión del córtex prefrontal.
Esta anomalía de la evolución, que nos caracteriza a los hombres como "Especie simbólica", se debía al desarrollo del cerebro humano para realizar la «referencia simbólica» (symbolic reference), o sea, la posibilidad de transformar, por decirlo en términos de Peirce, el index o icono (un signo cuya asociación con la cosa señalada sólo dura mientras existe contacto con ella, un signo que perciben también los animales), en símbolo, que es un signo que no requiere la presencia de la cosa significada, y que existe en tanto exista un intérprete.
Surge así en el hombre la paradoja pragmática (pragmatic paradox), por la que somos capaces de decir una cosa y significar otra (el mito, la ironía: "eres un fenómeno, tienes treinta añitos y ya sabes sumar", la metáfora: "ni nardos ni caracolas tienen el cutis tan fino, el ritual: "esto es mi cuerpo", el teatro y la poesía).
El mito es una historia indiferente al criterio de veracidad que tiene un indudable interés político-social en cuanto que sirve para la cohesión de un grupo político-social. El mito sirvió como argumento de muchas obras poéticas y la palabra "mito" significa en la Poética de Aristóteles tanto "leyenda" como argumento de una obra dramática.
El ritual es una acción mimética redirigida, indiferente al criterio de veracidad, de enorme interés político-social, pues procura la cohesión del grupo político- social que lo practica. El ritual es una imitación que se basa en la magia metafórica y metonímica. Recordemos que también en el lenguaje y en poesía son muy importantes los procedimientos metafóricos y metonímicos.
La poesía es una mimesis o imitación, indiferente al criterio de veracidad, que sirve para la cohesión del grupo político-social que la degusta.
La poesía es, por representación mimética de una acción humana, teatral, pues el poeta emplea el lenguaje no en nombre propio y con fines comunicativos inmediatos, sino que universaliza su comunicación, lo que equivale a convertirse en portador de una máscara que esconde su personalidad verdadera.
Por eso la poesía es indiferente al criterio de veracidad, indiferente al criterio de verosimilitud, indiferente al criterio de autoría e indiferente al criterio de fijación de concretas coordenadas de espacio y tiempo.
A língua portuguesa na Gazeta de Lisboa entre 1715 e 1850
Dieter MESSNER Universität de Salzburgo
Dieter.Messener@sbg.ac.at
"Centremo-nos, por fim, no século XVIII, século de contornos importantíssimos sob o ponto de vista linguístico e, no entanto, quase nada estudado" (Clarinda Maia 2001). Eis um apelo que não podemos ignorar. Espero poder satisfazer esta exortação ilustrando a evolução da língua portuguesa com base nos exemplos tomados de este jornal.
Do dicionário poético de Cândido Lusitano à estilística actual ou a volta que os estereótipos da língua portuguesa foram dando
Mário VILELA
Universidade do Porto
mavilela@letras.up.pt
A língua não se inventa: chega- nos por herança. Quer na forma falada, quer na forma escrita, vocabulário, morfologia, sintaxe, frases feitas, expressões idiomáticas, metáforas e comparações, tudo estás disponível na língua que nos coube em herança (vide Vallejo 1998). A língua, ao contrário do que se supõe, é uma Instituição muito pouco democrática. É feita de automatismos, de "expressões feitas", de colocações, de combinações mais ou menos fossilizadas e previsíveis, em que a escolha não pode ultrapassar certos limites, sob pena de já não ser língua.
Pela mão de Amadeu Torres (1998) fui tentado a fazer a análise de três marcos da estilística em Portugal: Dicionário Poético de Cândido Figueiredo, Estilística Língua Portuguesa de Rodrigues Lapa e Ensaio de Estilística Portuguesa de Gladstone Chaves de Melo. Hoje já não é válida a afirmação de que a Estilística veio "ocupar o espaço deixado em aberto pelo morte provisória da Retórica" (Chaves de Melo 1979: 20): uma e outra pertencem a uma mesma área.
Procurei encontrar alguns elos convergentes nas propostas teóricas. Um desses pontos é que se pode denominar, genericamente e sem o sentido negativo que se lhe costuma dar, como "estereótipos da língua portuguesa".
Na última parte do Dicionário Poético ("Soccorro Poetico de varios similes, e comparações"), a componente "animal" surge como o recurso mais importante no ponto de partida para a enciclopédia metafórica e linguística do português. Rodrigues lapa dedica largas páginas a discutir as "séries fraseológicas", "grupos fraseológicos" e clichés, Gladstone Chaves de Melo ficando aparentemente, ausente da discussão, contudo, os seus exemplos não andam longe dos "clichés" poéticos.
O núcleo central da comunicação será "a componente animal" na construção de estereótipos" da língua portuguesa.
2. Comunicações
A lição dos clássicos em D. Francisco Manuel de Melo
Alberto ABREU
Câmara Municipal de Viana do Castelo
e d i c o e s @ c m - v i a n a - castelo.pt
A literatura barroca desenvolveu- se na reinterpretação dos paradigmas da literatura clássica, quer numa sua reposição purista, quer numa reformulação estilística e retórica. Estas duas vertentes as encontramos em D. Francisco Manuel de Melo, que reabilitou Sá de Miranda e imitou Camões, mas com predomínio da segunda.
Todavia, D. Francisco Manuel, para além das citações de textos e aforismos clássicos de Ovídio, Virgílio, Cícero, Horácio, Homero, que encontramos nas suas obras como um pouco por toda a literatura barroca, deixouse também imbuir das duas correntes de pensamento de inspiração clássica dominantes na prosa doutrinária e historiográfica do século XVII: o senequismo e o tacitismo. A leitura de Tácito levou-o à construção duma História em que o autor se imiscui na narrativa (como no romance um autor omnisciente e omnipresente), procurando da narrativa extrair moralidades, lições, condenações ou apologias. É o paradigma que domina as obras historiográficas, que D. Francisco Manuel de Melo pretendeu entre "utilíssimas e deleitáveis", o que é particularmente notório nas Epanáforas. Por outro lado, a preferência de Tácito a Tito Lívio permitiu a Melo escrever obras históricas não exclusivamente heróicas, como é o caso da Epanáfora Trágica, embora, por este modelo ser então bem menos utilizado, D. Francisco achasse dever justificar- se de não escrever sobre um assunto mais esperado por quem tivesse em vista o modelo de João de Barros. O tacitismo modelar inspirou-lhe mesmo o título - Tácito português (como se D. Francisco Manuel o ambicionasse ser) - para a biografia que escreveu de D. João IV.
Séneca, por seu lado, forneceu- lhe o paradigma axiológico (positivo) do comportamento estóico a que recorreu como bitola sempre que teve em vista formular uma opinião - mesmo tacitista - sobre os procedimentos dos protagonistas das suas narrativas.
Acaso: estudo de um caso
Ana Bela de Morais Monteiro Torres AFONSO
Universidade Nova de Lisboa
anabelafonso@hotmail.com
Este estudo de acaso integra- se num trabalho mais vasto - o estudo das propriedades e valores particulares da interrogação em português europeu e circunscreve-se no âmbito da Teoria Formal Enunciativa.
A classificação tradicional inclui acaso como exemplo de um advérbio de dúvida, juntamente com porventura, talvez, quiçá, possivelmente, provavelmente, etc..
Ora, apelando à nossa competência de falantes-ouvintes, sabemos que muitas vezes, uma interrogativa tem o valor de pedido de informação, decorrente de uma 'dúvida' do enunciador.
Partindo desta conformidade conceptual, propomos como objectivos desta comunicação:
a) estudar a relação que se pode estabelecer entre a interrogação e os advérbios de dúvida;
b) estudar as particularidade(s) que, num contexto específico, poderemos descrever em relação ao marcador acaso.
Teremos como metodologia a manipulação de sequências linguísticas (construídas e de corpora utilizados) em que ocorram advérbios de dúvida, por forma a que, através de um estudo comparativo, seja possível descrever as operações e valores (sintácticos e semânticos) subjacentes, em contextos interrogativo e assertivo.
Para a análise destes fenómenos linguísticos, procederemos ainda a uma abordagem na qual convirjam os domínios da sintaxe, semântica, prosódia e pragmática, situando-nos, por isso, no quadro da Teoria Formal Enunciativa (TFE).
Também por isso, fundamentamo- nos na investigação de Henriqueta Costa Campos, uma vez que na recente história da linguística do português europeu dedicada à interrogação, engloba o primeiro estudo com uma abordagem transcategorial.
Henrique ALMEIDA
Universidade Católica Portuguesa - Viseu
É conhecida a sólida formação clássica do escritor Aquilino Ribeiro. Na sua vasta obra, com uma variedade considerável de registos discursivos e géneros literários, inclui-se a vertente de tradutor e de adaptador de textos considerados clássicos. Importa dar a conhecer esta faceta da obra aquiliniana - pretexto para estudos mais desenvolvidos sobre esta temática - de forma a captar marcas textuais e ideológicas nas suas traduções, nas quais o escritor se envolveu estética e emocionalmente.
Entre outros casos em análise - sejam as incursões em torno da versão das obras de Xenofonte, o contexto histórico de Em Prol de Aristóteles ou o objectivo do seu labor na tradução/ adaptação de Dom Quixote de Cervantes - atenta-se na "aventura intelectual" com o Cavaleiro de Oliveira, que acompanhou o escritor durante várias décadas. Os trabalhos de tradução de inéditos do "aventureiro do séc. XVIII" extravasaram em muito o âmbito da "recreação periódica" que encontrou na obra deste "protestante lusitano" e levaram-no a uma retumbante polémica com a Academia Conimbricense. Uma polémica que interessa também reconstituir, a traços largos, pela projecção histórica que la teve no meio intelectual da época e pela pertinência da sua avaliação na actualidade.
Estruturas linguísticas e "sentidos poéticos" na poesia satírica epigramática neoclássica
Joaquim da Costa ALMEIDA
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Os nossos poetas neoclássicos manifestam uma tendência clara de expressão satírica da vida quotidiana, baseada em amizades e ódios, em poemas cheios de força, nos quais sacrificam muitas vezes a elegância da forma pois não hesitam em usar termos mais vulgares quando resulta serem estes os mais expressivos. Ora, pondo em prática um dos traços orientadores da estética arcádica - a imitação comedida dos clássicos -, encontraram na literatura antiga um género que lhes facultava lançar a crítica mordaz, de modo cirúrgico, sem sacrificarem o estilo natural, outro dos dogmas que professavam. Assim, o epigrama funcionou como uma espécie de forma que moldou a poesia satírica de poetas como Filinto Elísio, Cruz e Silva, Bocage.
Nesta comunicação, pretendemos relacionar determinados elementos linguísticos, recolhidos em epigramas destes autores, com os sentidos poéticos dos textos. Porém, a concretização deste objectivo exige que iniciemos a nossa reflexão com uma referência à definição desta forma poética grega que se tornou um género na época alexandrina. Na verdade, na literatura antiga, o epigrama teve um encanto especial. Breve, conciso, engenhoso, possui, em simultâneo, a arte do pequeno e do profundo. Mais sério e variado entre os gregos, adquiriu carácter mordaz, entre os romanos. Assim, face ao epigrama de tipo funerário, erótico ou votivo, o epigrama romano, cujo grande mestre é Marcial, resulta satírico, jocoso, invectivo.
Continua na próxima edição.