Duarte Nunes do Lião e a saudade do latim - II
5. A consoante /b/ em posição implosiva medial
Quanto a esse tópico, não contemos com a ajuda de Pero de Magalhães de Gândavo. Nenhum dos cinco vocábulos de nosso corpus se encontra em suas breves Regras. Enquanto Fernão de Oliveira, João de Barros e Luis Vaz de Camões preferem o adjetivo escuro, Duarte Nunes do Lião considera-o corrupto, e prefere o erudito obscuro e o italianizado oscuro. Analisemos o quadro 3:
Quadro 3:
Consoante oclusiva bilabial sonora em posição implosiva medial
Enquanto Fernão de Oliveira e João de Barros preferem o adjetivo e particípio sogeita com <-og->, Camões prefere-os com <-uj->, forma que se imporia. Aqui, mais uma vez, Duarte Nunes do Lião sacrifica aos numes latinos: grafa subjecto, com duas consoantes assilábicas, Assim, continua esse ortógrafo a opor-se à ortografia fonética dos nossos dois primeiros gramáticos, Fernão de Oliveira usa soiitivo, João de Barros suiuntiuo e suiitivo. Ainda sem o latino, Fernão de Oliveira grafa nada menos que sete vezes sustantiuo, e João de Barros seis vezes sustancia, com o sentido de força física.
Das práticas fonético-ortográficas de Duarte Nunes do Lião não pegou o latinismo absente, que ele dá como variante de ausente neste passo:
E nos dizemos absente, & abano, & auano, & aljaba, & faba, & fava, & tabula, & tauoa […] (Lião 1576: 4, linha 11).
Os demais bês etimológicos por ele mantidos na posição que estamos examinando sobreviveram até nossos dias, a saber: Adbera (Lião 1576: 37, linha 4); obstar (Lião 1576: 2, linha 3); obstinados (tião 1576: 4, linha 1); subterfugio (Lião 1576: 38, linha 2) e obtuso duas vezes.
6. A consoante /g/ em posição implosiva medial
Decididamente Duarte Nunes do Lião extrapola na revoada em direção ao latim, no tocante ao uso do grafema no fim de sílaba medial. Olhemos o quadro 4.
Quadro 4:
Consoante oclusiva velar sonora em posição implosiva medial
Sem esse latino, que, segundo tudo leva a crer, já não mais se pronunciava, Fernão de Oliveira, João de Barros e Camões escreveram aumento e seus cognatos, e mais reyno, esta última já com a omissão da implosiva velar e o conseqüente desenvolvimento do yode em semivogal. Fernão de Oliveira usa a forma dinos, uma só vez, em Oliveira (1981: 55, linha 12); e Camões prefere-a sem a implosiva. Usa-a 15 vezes contra apenas oito com o etimológico. A coexistência das duas formas em Os Lusíadas parece apontar para a transição da mudança lingüística em favor da forma erudita digno, preferida aliás por Pero de Magalhães de Gândavo (1981: 34, linha 16) e Duarte Nunes do Lião três vezes. Além disso, a grafia inorãtes em Fernão de Oliveira (1981: 75, linha 8) revela o apagamento dessa consoante naquela posição, mas vai ser reabilitada por Camões quatro vezes, por Pero de Magalhães de Gândavo em ignorando (1981: 34, linha 2) e por Duarte Nunes do Lião em ignorar três vezes e ignorancia três vezes, vista desses elementos, se excluirmos augmento e regno, cujas grafias à latina parecem divorciar-se da prática oral da época, temos de reconhecer que a reinserção do etimológico em digno, ignorar e signicar com seus cognatos, gerou conseqüência fonológica duradoura. E nítida a reabilitação dessa consoante em posição implosiva a partir dos nossos dois ortógrafos do último quartel do século XVI. Enquanto Fernão de Oliveira e João de Barros a silenciam em 27 ocorrências, Pero de Magalhães de Gândavo e Duarte Nunes do Liâo a reabilitam em 31 outras.
7. A consoante /k/ em posição implosiva medial
Caso extremo é a infrutífera tentativa de Pero de Magalhães de Gândavo abandonar as formas já ditongadas de perfeito (fl. e der.) e respeito(s), consagradas pelos três antecessores seus aqui estudados, no sentido de forçar-lhes a realidade morfonológica, grafando perfecto três vezes e respectos (1981: 14, linha 8), já obsoletos àquela altura. Cegamente lhe seguiu os passos, dois anos depois, Duarte Nunes do Lião não só nessas duas lexias, como também na preferência a lector(es), e lectura, lexias inexistentes no corpus dos dois gramáticos e de Camões, Debalde Duarte Nunes do Lião tenta reintegrar, aos hábitos manuscritores daquele século, o <-c-> implosivo latino, que não teve sobrevida fonológica, em palavras como auctor, conjunctas, no substantivo contrato (sobreviveu no adjetivo participial contracto e fls. [= contraído]), dicto e fls., distincto, lectores(es) e practica. Exploremos agora o Quadro 5.
Quadro 5:
Consoante oclusiva velar surda em posição implosiva medial
Por interessantes, impõe-se destacar três casos pontuais ocorrentes neste tópico, a saber:
1. O uso, só por parte de Camões, da variante trato 8 v, sem ditongaço, ao lado da forma culta tracto 2 v.
2. Isolada é a tentativa de Duarte Nunes do Lião tentar recuperar essa implosiva no latinismo doctos (Lião 1576: 6 vezes), ao que tudo indica, sem nenhuma contrapartida fonológica, à revelia da variante evoluída douto, com ditongação, já consagrada pelo uso e reconhecida pelos seus antecessores.
3. Com exceção apenas de João de Barros, é consensual, entre os outros quatros autores aqui estudados, a forma alatinada sancto, mas a presença de quatro variantes sem a implosiva em Camões já nos sugere, pelo menos, possível vacilação da pronúncia dessa palavra ao tempo.
É diante de alguns fatos como os aqui estudados que Mattoso Câmara Júnior advertia:
[…] devemos voltar os olhos para a língua geral escrita e especialmente para a língua literária, onde a padronização não poucas vezes se afasta da realidade lingüística diária, e às vezes passa a influir sobre ela.1
Por amor à brevidade, silenciaremos sobre outras três dezenas de tentativas frustradas de Duarte Nunes do Lião no sentido de reconduzir o <-c-> com valor implosivo, até à revelia da própria história da língua, como aquele terrível anoctescer (Lião 1576: 40, linha 14), com que tenta desbancar o parassintético anoitecer. A bem da justiça, porém, temos de reconhecer uma vitória de Duarte Nunes do Lião. Com exceção apenas de Os Lusíadas, enquanto todos os outros textos do corpus assinalam o apagamento do /k/ implosivo latino de dictione[m] nas variantes portuguesas dição / diçam e seu plural dições, as 43 ocorrências de dicção e as 72 de dicções (um total, portanto, de 115 evidências na Ortografia do licenciado) só até hoje as formas preferidas em todo o mundo da lusofonia. Tanto aqui, como em Portugal, e em África, a semente lionina pegou e deu frutos duradouros.
8. Conclusões
À vista do exposto, eis algumas das conclusões que poderemos estabelecer.
1.Na esteira das liberalidades grafemáticas da scriptologia medieval portuguesa, em que se projetaram os múltiplos dialetos, falares e idioletos da primeira metade do século XVI, indubitavelmente Fernão de Oliveira e João de Barros espelharam em suas normas ortográficas o habitual apagamento das consoantes latinas em posição implosiva medial, àquela altura, nos 36 vocábulos e nos cognatos selecionados no corpus.
2.Embora algumas dessas consoantes reconduzidas à escrita, no decorrer da segunda metade dos anos quinhentos, não tenham gerado conseqüência fonológica duradoura (como em augmento, auctor e escripto/-ura,), outras se revelaram de intensa vitalidade e chegaram até nós (como em corrupção; substantiuo, substancia; digno, ignorar, signficar).
3.Sob a palavra de ordem renascentista de retorno às formas, ao estilo e aos temas da cultura greco-romana, embora já se insinue discretamente em Os Lusíadas a recuperação gráfica de algumas dessas consoantes latinas na posição estudada (como em corrupção e ignorante), essa prática recuperatória se intensifica nas Regras de Gândavo e se torna constante e homogênea na Ortografia de Duarte Nunes do Lião Por isso mister se faz creditar a este último as láureas de subverter o preceito de que só à língua escrita cabe espelhar o uso oral, e assim haver ajudado a mudar os caminhos da história.
Bibliografia
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