Duarte Nunes do Lião e a saudade do latim*
1. A querela entre conservadores e inovadores
Recuemos à Paris de 1529 Nesse ano, o livreiro editor francês Geofroy Tory publicou uma obra sua intitulada Champ fleury que deflagrou uma verdadeira revolução na ortografia francesa. A fim de evitar a algaravia em que se constituira a escrita medieval daquele idioma, Tory propôs tirar partido dos recursos aportados pela incipiente caixa de tipos moveis da imprensa para melhorar e simplificar a escrita daquele idioma.
Suas lúcidas sugestões caíram logo na aceitação geral e se incorporaram aos usos do francês escrito de então Abriram caminho principalmente para que os gramáticos e os ortógrafos de seu tempo, como Dubois, Louis Meigret e Jacques Peletier du Mans, estabelecessem o formato de uma das mais estáveis ortografias românicas.
Não obstante o sucesso que alcançaram esses primeiros ajustes ortográficos do francês quinhentista, como era de esperar-se nesses casos, encontraram eles sérias resistências, como as de Robert Estienne, impressor do rei, que era a favor da ortografia tradicional de base latina, com um numero enorme de grafemas sem qualquer valor fonológico.
Segundo a obra do doutor Kukenhein em que colhemos as informações acima, é grande o interesse de fil6logos italianos, franceses e espanhóis, principalmente nos séculos XV e XVI, em estabelecer as normas ortográficas dessas três línguas vulgares em face do latim. Em pouco mais de dois séculos, esse tema ensejou cerca de 76 obras e documentos afins de 60 filólogos italianos, 61 outras de 42 fil6logos franceses, e 39 outras de 35 filólogos espanhóis.
Não é de admirar tão prolífica fortuna crítica do tema ortografia naqueles dois séculos, justamente quando estava em jogo o embate entre a necessidade da racionalização da escrita desses idiomas em face das inúmeras transformações por que passaram, e o ideal do retorno às fontes greco-romanas pregado pelo Renascimento na Europa Ocidental, a partir do movimento que, nesse sentido, partiu da Itália quatrocentista.
Para a análise dos dados e para o esboço das conclusões a que chegaremos, contentar-nos-emos com nossas duas primeiras gramáticas, a de Fernão de Oliveira e a de João de Barros, e com nossos dois primeiros tratados de ortografia, o de Pêro de Magalhães de Gândavo e o de Duarte Nunes do Lião. A seleção dos exemplos foi feita a partir dos vocábulos com consoantes em posição implosiva medial encontrados no tratado desse último ortógrafo.
O interesse principal desse tema para nós reside no fato de que o suruabácti de apoio a essas consoantes no uso oral distenso brasileiro do idioma comum transforma em sobredáctilos ou biesdrúxulos trissílabos propararoxítonos, como técnica e rítmico; ou deslocam para a nova sílaba a subtônica de palavras, como a de abissolutamente. Esse dengue reflete-se no uso literário, como nas quatro sílabas da palavra ignóbil, destes versos do épico I Juca Pirama, de nosso poeta maior:
Contudo os olhos de ignóbil pranto Secos estão;
Mudos os lábios não descerram queixas Do Coração.
2. O corpus em face das metas
E por que estes, não outros? Além do valor testemunhal de suas obras fundadoras num século de profundas mudanças por que passou o português, poder-se-á lembrar, entre outras razões, as que ora apresentamos.
Fernão de Oliveira, "um dos gramáticos mais originais" (em certo sentido o mais original) e "o mais importante foneticista da Renascença na România", segundo Eugênio Coseriu, pela sua moderna compreensão da mudança lingüística explicitada neste passo:
[…] e muy poucas [são; A. M. A.] as cousas que duram por todas as idades em hum estado, quanto mais as falas que sempre se conformão cõ os conçeitos ou os entenderes, juizos e tratos dos homens: estes homens entendem, julgão e tratão por diversas vias e muytas, as vezes segundo quer a neçessidade, as vezes segundo pedem as inclinações o aturaes.
Quanto a João de Barros, já bastaria sua preocupação em criar um sistema próprio de acentuação para refletir o timbre das vogais de seu tempo. Muito mais do que mero continuador da Gramática de Antônio de Nebrija em Portugal, valha-nos, por agora, esta reflexão de Leonor Carvalhão Buescu sobre a obra polimorfa do também novelista e poeta João de Barros:
Para além e acima do historiador, do filósofo, do pensador, do crítico da sociedade e do homem do Paço, está o sopro renascentista que condicionou a Gramática no seu conjunto pedagógico-didático e fez do seu autor um dos mais relevantes espíritos do Humanismo português.
Em relação à de Barros e à de Oliveira, é reduzida a bagagem de Pero de Magalhães de Gândavo. Sua inserção, todavia, aqui também se impõe, por sua nítida percepção da interação pragmática entre a pronúncia e a escrita das palavras, consubstanciadas neste passo:
[...] com saberem [os Portugueses] escrever, saberião bem pronunciar os vocábulos, & com os saberem bem pronunciar, ficaria a mesma lingua parecendo melhor aos naturaes que a professam. Por onde não avia de aver pessoa que se prezasse de si, que não trabalhasse por saber algum latim, que nisso consiste o falar bem Portugues. e desta maneira facilm?te euitarião todos estes erros, e serião perfectos em guardar a orthographia cõforme á ethymologia e pronunciação dos vocabulos.
Finalmente, a Orthographia de Duarte Nunes revela-nos um homem dividido entre a inovação portuguesa e a tradição latina. Embora, por mais de uma vez, recomende que não se devem acrescentar ou mudar, na escrita, letras que violentem o uso oral, pelo menos no tema de que nos ocuparemos aqui, seu sistema ortográfico está preso a este seu postulado:
A última regra, que na lembrança deue ser a primeira seja, que trabalhemos sempre, por investigar a orig? dos vocabulos. Porq[ue] pela etymologia delles, se sabe a orthographia, & pela bõa orthographia a etymologia. E essa he a fonte & a raiz de fallarmoa, & escreuermos bem, & propriamente, ou mal.
Como esse ortógrafo é o que mais prodigamente utilizou consoantes em posição implosiva medial, a seleção dos vocábulos de nosso corpus foi feita a partir daquela sua obra.
O cotejo dessas obras pioneiras de nossa filologia com Os Lusíadas nos mostrará se a norma ortográfica de Camões foi inovadora ou conservadora no uso daquelas consoantes. O objetivo principal deste estudo, portanto, é mostrar cm que graus esse retorno ao latim se cristalizou nessas cinco obras portuguesas quinhentistas. Para tal demonstração, porém, procedemos a um rigoroso corte epistemológico. Procuraremos quantificar e qualificar esse retorno ao latim, exclusivamente quanto ao apagamento e à recuperação das consoantes /t/, /d/; /p/, /b/; e /k/, /g/, em posição implosiva medial. Assim, a abreviatura v não seguida de ponto indicará quantas vezes a forma aparece; e fl(s) é a abreviatura de flexão (flexões). Vistas que foram as metas e as razões do corpus, entremos em nosso assunto.
3. As consoantes /t/ e /d/ em posição implosiva
A regularidade com que Fernão de Oliveira e João de Barros escrevem ajetivo e auerbio sem o latino parece atestar a fragilização, ou mesmo o apagamento dessa oclusiva linguodental sonora em posição implosiva medial nos meados do século XVI em Portugal. Com saudades do latim, Duarte Nunes do Lião recuperaria para o uso aquele grafema que, naquelas palavras, até hoje resiste gozando da contrapartida fonológica. Por isso, será mero eufemismo chamar-se de mudas a essas consoantes assilábicas. Vejamos o quadro I:
Quadro I:
Consoante oclusiva linguodental sonora em posição implosiva medial
Sem o /t/ implosivo, João de Barros grafa o helenismo arismeticos 139.4 (= Barros 1971: 139, linha 4); mas Duarte Nunes do Lião, por duas vezes, grafa com o latino arithmetica. Abramos aqui um parêntese para mostrar a curiosa sobrevida do theta grego e do taw (ou tav) hebraico em nosso corpus. Como oclusiva plena, em início de sílaba, transformou-se hoje em simples aquele dígrafo nos antropônimos Tamar e Mateus. Em posição implosiva medial, essa consoante desapareceu na evolução de Bethleem (Bethle?) 50 v, 24 (Lião 1576) para Belém; porém, simplifica-se em na atualização de Bethphage 50 v. 23 (Lião 1576) e Bethsabee 50 v. 24 (Lião 1576). E, como a história das línguas "tem razões que a própria razão desconhece", em posição final, após passar pelo crivo do grego e do latim, os desdobramentos do dígrafo oriundo do grafema hebraico tav ocorrem meio à la diable. Ou simplifica-se em <-t-> seguido de um <-e> paragógico em Judite e Roto; ou vira <-s>, valendo /š/ ou /s/ conforme a região, em Golias; ou simplesmente apaga-se em Nazaré e Jafé.
Duarte Nunes também grafa com <-d-> assilábico admirativo 3 vezes, admitir 10 vezes, aduertir 10 vezes, e os antropônimos Ariadna e Cadmo 37.14 (Lião 1576). A regularidade desse grafema nos hábitos ortográficos desse escritor parece testemunhar a presença da consoante em seu uso oral à época, uso que vem atravessando os tempos até nossos dias.
4. A consoante /p/ em posição implosiva medial
A evolução da consoante oclusiva bilabial surda em posição implosiva medial não é muito diversa da história do /t/ que vimos de examinar. João de Barros já não a representa graficamente em corruçám 126.14 (Barros 1971: 126); mas, pelo menos a partir de Os Lusíadas, o latino se reinscreve não só naquele substantivo como também nos seus cognatos corrupto e corruptor; prossegue em Pero de Magalhães de Gândavo e Duarte Nunes do Lião, e chega incólume até nós. Examinemos o quadro 2:
Quadro 2:
Consoante oclusiva bilabial surda em posição implosiva medial
O mesmo não ocorreu com escrita, e seus cognatos, assim grafados por Fernão de Oliveira e João de Barros. Reinstalado por Camões e, depois, por nossos dois primeiros ortógrafos, esse <-p-> latino não sobreviveu aí nem em seu cognato escritura.
Se esse <-p-> etimológico em posição implosiva inicial, usado por Duarte Nunes do Lião em pneuma 37v. 7 se conserva até hoje; cai, todavia, em psalmo 37 v. 10, forma com que ele desejava banir salino, então já popularizada. Outrossim, resulta frustrada sua tentativa de reinseri-lo em muitas outras palavras, como baptismo 70.4; baptizar 70.3; concepto 72.6; malscriptas 61.9; Neptuno 60.5; precepto 52.23 ou preçeptos 1.4; preceptor 52.24; scriptores duas vezes (53.5 e 78.15); septil 43.20; e, ainda, no antropônimo latino Hiempsal 37.10, e no topônimo helênico Terapne 37.33.
(Continua na próxima edição)
* Desejamos expressar nossos agradecimentos ao Professor Toru Maruyama por nos haver permitido consultar os Índices Alfabético(s) do(s) Vocabulário(s) das gramáticas de Fernão de Oliveira e João de Barros, bem como os dos tratados ortográficos de Pero de Magalhães de Gândavo e Duarte Nunes do Lião, pertencentes ao acervo da Universidade de Nanzan, da cidade de Nagoya (Japão). Sem tal privilégio, seria impossível alcançar os objetivos da presente pesquisa.
1 Kukenhein (1932: 22-23); 2 Oliveira (1981); 3 Barros (1971); 4 Gândavo (1981);5 Lião (1576); 6 Dias (1959: 360); 7 Coseriu (1991: 47); 8 Oliveira (1981: 50, linhas 2-8); 9 Buescu (1984: 32);10 Gândavo (1981: 8); 11 Lião (1576: 61, verso); 12 Cunha / Assis / Pinto / Menegaz e outros (1966); 13 Nas referências à gramática de Barros, o primeiro número refere-se à página na edição facsimilada Barros (1971: 139), enquanto o número a seguir identifica a linha. O mesmo vale para as referências à gramática de Leão: 50.23 significa página 50, linha 23.
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