Custa-me acreditar que dentro daquele esquife polido, mas quente e abafado, repousava o corpo frio do amigo de tantas décadas de convivência profissional e de noites de boemia. Dos papos intermináveis sobre os mais variados assuntos, regados a um chope gelado, doses generosas de bons uísques ou da famosa "branquinha".
Conheci o programador visual Reinaldo Batista Álvares Cunha no final da década de 70, quando trabalhava no setor de reportagens no jornal O Estado do Maranhão. Aprimoramos a afinidade nas rodadas de "cerminhas" nos bares da praia da Ponta d'Areia.
A amizade foi fortalecida com as nossas visitas noturnas aos bares da grande São Luís e às boates, principalmente de "streep-tease", divertimento que durava até o raiar do dia. Literalmente, trocávamos o dia pela noite. Sempre com responsabilidade, sem descuidarmos dos nossos afazeres profissionais.
Avessos às festas de confraternização nos finais de ano, juntamente com o companheiro José Salim Rosa, tínhamos uma justificativa: nós nos confraternizávamos todas as noites dos dias do ano.
Nessas confraternizações pelos bares da vida, ele constituiu uma incontável legião de amigos, como também ocorreu ao longo dos anos em que atuou no ramo da comunicação visual. No desenho de jornais como O Estado do Maranhão, Jornal de Hoje, Caminhos do Maranhão, Correio dos Municípios, no qual dividimos a sala de redação trabalhando as edições, num trabalho que mais parecia uma atividade familiar.
No Correio, sua última família profissional (da qual orgulhosamente fazemos parte), nos juntávamos com Blandino Araújo, sua esposa e diretora Linalva Moreira, os três filhos do casal - Bruno, Thiago e João Vítor, sempre curiosos na busca do aperfeiçoamento pelos conhecimentos da informática.
Rey tinha um motivo a mais para se integrar a esta família. Foi casado com Isabel Araújo, irmã de Blandino, que também cultiva imensas e com quem dividiu momentos de alegria e tristeza e a quem dedicou respeitável e inegável carinho, mesmo depois do casamento desfeito. Todos estamos inconsoláveis com a sua repentina, inesperada e precoce partida, curtindo uma imensa saudade.
Apesar da saudade, vale lembrar que Rey era também boêmio e festeiro. E foi numa dessas animadas festas, num domingo de sol forte e claro de agosto (ou setembro), que o saudoso Rey e eu conhecemos um grupo de belas jovens desacompanhadas. Entre elas, uma moça bonita, parecida com a cantora Elba Ramalho, que foi convidada para participar da rodada de boas conversas.
O namoro evoluiu ao longo dos anos, entre Rey e Zenilde, transformada na mãe de seus lindos filhos Júnior e Emilly, hoje adolescentes. O romance chegou ao fim há mais de 10 anos. Os dois, agora, sentindo a incontrolável dor da perda do querido pai. Ele sempre manifestou o seu grande amor pelos filhos. Mas não concretizou o sonho de vê-los formados. O Todo Poderoso achou por bem chamá-lo para o andar superior aos 52 anos. Idade em que novos sonhos começam a ser realizados pela maioria das pessoas.
Nessa hora, os que tentam ignorar a irreversibilidade do destino procuram justificativas para a morte de amigos e entes queridos. No caso de Rey, teimamos em reconhecer sua resistência à busca de tratamento para o que ele chamava de uma "eterna, mas falsa, gastrite". Afinal buscada, a cura não se concretizou, apesar dos esforços da equipe médica do Hospital Universitário Presidente Dutra. Seus familiares e nós do Correio dos Municipios somos gratos a ela pela tentativa de manter Rey entre nós. Mas os desígnios do Criador foram mais fortes. A hora da chamada chegara!
E, acertado à nossa revelia, no mesmo "vôo" seguiu outro companheiro, também do ramo da comunicação visual: o fotógrafo Luís Gonzaga Frazão, o Mobby. Este de forma mais inesperada, pois vítima de acidente automobilístico. Foi de carona no avião da saudade.
J. França e José Salim Rosa