Haikais japoneses encantam os estudantes de São José de Ribamar
No dia 22 de agosto passado, a convite da GEIA, participei da 2ª Semana de Literatura de São José de Ribamar comentando para cerca de 200 estudantes de 1º grau da bela cidade balneária maranhense, durante uma hora, cerca de 180 haikais dos mais representativos poetas nipônicos dos séculos XVII, XVIII e XIX.
Neste número, condicionado pelos limites desta página, estão selecionados alguns haikais que foram interpretados para aquele público alvo.
HAIKAIS DE RAIZAN (1635-1716)
[OUTONO]
Através das portas entreabertas
penetra o Outono:
crepúsculo em franja!
Portadas trespassadas pelo Outono:
trêmula candeia esse murmúrio
já sem folhas...
HAIKAI DE GAKOKU (princípio do séc. XVIII)
[NEBLINA]
A neblina tece um véu
onde ocasional se descobre
uma vela de navio.
Por entre a bruma
uma branca vela / de navio.
HAIKAI DE UM ANÔNIMO (séc. XVIII)
NO EXÍLIO
Na velha aldeia os meus pais
são já longinquamente
este grito que os insetos insinuam.
HAIKAI DE TANIGUCHI BUSON (1715-1783)
O SOM
Aqui e ali nas pedras
a água caindo
cascata de som.
A ESTRADA INVISÍVEL
Os armazéns perfilam-se quietos.
Por trás uma estrada
onde esvoaçam os pardais.
SINFONIA EM BRANCO
Uma mulher lê uma carta
e florescências brancas
brilham à luz da lua.
Junto à pereira em flor
uma mulher que o luar empalidece
lê pensativa uma carta.
O AMANTE
Como é bom prender os olhos
à brancura ofuscante
do leque da minha amada.
BRISA DA PRIMAVERA
A brisa da manhã é tão fina
e no entanto arrepia [
a penugem da lagarta.
NEBLINA
Neblina matinal:
esfumadas comum num sonho
as pessoas desaparecem.
Sobre o biombo doirado
sedas levíssimas espalhadas :
brisas de Outono.
O VISITANTE
Chuva de junho:
e uma noite, secretamente,
a lua na renda dos pinheiros.
HAIKAI DE RYOTA (1718-1788)
COMUNHÃO
Olham-se silenciosos
o anfitrião, o convidado
e o crisântemo branco.
HAIKAI DE CHORA (1729-1781)
O VENDAVAL
O vendaval sobra impetuoso,
mas sobre as pontas de erva
a imóvel lua-cheia.
O CAMINHO BLOQUEADO
Aqui queria plantar bambus,
mas o sapo insiste
em ocupar o lugar!
HAIKAI DE UM ANÔNIMO
(fins do séc. XVIII)
A neve caiu por todo o lado.
Como contemplar o branco
com tanta brancura?
HAIKAI DE OSHU
(fins do séc. XVIII)
A ORAÇÃO DA CORTESÃ
Também se morre de amor;
e, se eu morrer, vem cantar
sobre o meu corpo, ó cuco!
HAIKAIS DE ISSA
(1762-1826)
A TENTAÇÃO
As flores de ameixeira
balançam-se diante dos meus olhos.
— rouba esta! diz a lua.
PRESENTES DE ANO NOVO
Diante das prendas de Ano Novo
até o bebê de mama
estende as mãozinhas.
DIA DE VERÃO
Meio-dia>
Entregue ao vôo dos pardais
o rio flui em silêncio.
CHUVA DE VERÃO
Cavalgo nu e sem frio
A chuva no Verão
é uma benção!
A VISÃO
A imagem das montanhas
transparece nas pupilas
súbitos pirilampos.
APOSENTAÇÃO
Retiro-me:
aqui as rãs desde sempre
cantam o mesmo envelhecer.
LONGA NOITE DE OUTONO
Pulgas! Também vós
deveis achar a noite longa.
Pareceis tão abandonadas...
O CARACOL
Devagar, devagarinho
um caracol sobe
o monte Fuji.
O COGUMELO
Este cogumelo mata,
mas é tão belo!
A PORTA SEM TRINCO
Essa porta ainda verde
tem um trinco / ou um caracol?
INVERNO
Por chegar a esta idade
todos me invejam.
Mas que frio eu sinto!
HAIKAIS DE MASAOKA SHIKI (867-1902)
ESTRADA DA PRIMAVERA
Sempre que olho para trás
alguém que eu conheci
se perde na neblina...
NOITE DE VERÃO
Súbito relâmpago
entre as árvores da floresta:
instante de água
AO LUAR
O espantalho ao luar
parece um homem
assim perdido e triste.
APÓS OS FOGOS DE ARTIFÍCIO.
As pessoas vão para casa
após os fogos de artifício.
Imensa é já só a escuridão.
[O SOL DA MANHÃ]
Refletido nas folhas novas
que cobrem toda a montanha
— ah! o sol da manhã!
[CAQUIS]
O sino do anoitecer
e o barulho dos caquis maduros
caindo no jardim do taemplo!
HAIKAIS DE KANSEKI HASHI (1903-1992)
[MONTANHAS]
Eis o que vejo
se levanto o travesseiro –
montanhas desoladas.
HAIKAI DE HOSAKU SHINOHARA (1906-1936)
[VIAGEM]
Viaagem no mar—
cada vez mais profundo
o azul nos meus pulmões
HAIKAIS DE HAKUSEN WATANABE (1913-1969)
[ÁRVORES]
Sem quaisquer limites
vão cortando as árvores
— sol há só um.
[GUERRA]
Subitamente a guerra
de pé
ao fundo do corredor.
HAIKAIS DE TAIBO FURUSAWA (1913-2000)
[ROSAS SILVESTRES]
Rosas silvestres em flor -
elas lutam nas dunas
por seus túmulos nas dunas
HAIKAIS DE ASUKA NOMIYAMA (1917-1970)
[MONTANHA]
O céu é bem alto
uma fila de pedras tumulares
sobem a montanha
HAIKAIS DE SUMIO MORI (1919)
[PEÔNIAS]
Cem peônias
agitando-se
como a água a ferver
HAIKAIS DE TOBTA KANEKO (1919)
[O RIO[
Ah que belo sono!
Até os campos secos
reverdeceram no meu sonho
HAIKAIS DE TAKAYAMAGI (1923-1983)
[MARCHA MILITAR]
Nesse dia / sol ardente
uma marcha militar atravessava
o Arco da Morte
HAIKAIS DE KOBAYASHI ISSA (1763-1827)
[A RÃ]
Imóvel /a rã firma
as montanhas.
HAIKAIS DE SHUOSHI MIZUHARA (1892-1981)
[CRISÂNTEMOS DE INVERNO]
Crisântemos de inverno
apenas visitado pela sua
fatigada luz.
HAIKAIS DE BOSHA KAWABATA (1897-1941)
[A MAGNÓLIA]
A magnólia
perdeu as suas flores –
que será feito delas?
HAIKAIS DE TAKAJO MITSUHASHI (1899-1972)
[ENVELHECER]
Enquanto envelheço
vou dançando em volta
de uma camélia.
HAIKAIS DE KOI NAGATA (1900-1997)
[OUTONO]
Chuva de Outono –
o vazio do copo vazio
e já cheio, bem cheio.
HAIKAIS DE SANKI SAITO (1900-1962)
[CREPÚSCULO]
Crepúsculo do Outono – /a espinha de um grande peixe / rejeitada pelo mar.
HAIKAIS DE KUSATAO NAKAMURA (1901-1983)
[FONTE ANTIGA]
Uma fonte redonda
pronunciando há vinte anos
as mesmas palavras.
HAIKAIS DE SEISHI YAMAGUCHI (1901-1994)
[VENTOS DO INVERNO]
Os ventos do Inverno
sopram na direção do mar—
como regressar a casa?
HAIKAIS DE TAIHO FURUSAWA (1913-2000)
[ROSAS SILVESTRES]
Rosas silvestres em flor
elas lutam nas dunas
por seus túmulos nas dunas.
HAIKAIS DE ASUKA NOMIYAMA (1917-1970)
[SUBIDA]
O céu é bem alto.
uma fila de pedras tumulares
sobem a montanha.
HAIKAIS DE SUMIO MORI (1919)
[PEÔNIAS]
Cem peônias / agitando-se /
como água a ferver.
HAIKAIS DE GORO WADA (1923)
[SEMENTE]
Uma semente de nêspera
tomando o seu caminho
para o sol.
HAIKAIS DE KINEO HAYASHIDA (1924-1998)
[VISÃO]
Mar ofuscante – alguém
ossos embranquecidos
ergue-se das águas.
HAIKAIS DE TOSHI AKAO (1925-1091)
[MÚSICA0
A música suspende-se no ar –
uma serpente esfomeada
invade a costa.
HAIKAIS DE KAN’ICHI ABE (1928)
[LIBÉLULAS]
Acompanhados por libélulas
os meus amigos reúnem-se
nas altas montanhas.
Há um vento
que vem do futuro
e fende a cascata.
Conclusão
Como viram, os poetas japoneses primaram pela objetividade e pela concisão. O haikai é um poemeto que se constitui de três versos curtos. O primeiro e o terceiro com cinco sílabas e o segundo com sete; e a temática preferida por eles são as quatro estações do ano (verão, inverno, outono e primavera) e os reflexos delas no dia a dia dos muitos admiradores da bela arte de Bolshoi e Issa.