COLUNA DE LÍNGUA PORTUGUESA
Por: Antonio Martins de Araujo
(ABF/ ANPOLL/ URFJ e ILP/LLP) amaraujo@globo.com
Especial para o Correio dos Municípios
No dia 22 de agosto passado, a convite da GEIA, participei da 2ª Semana de Literatura de São José de Ribamar comentando para cerca de 200 estudantes de 1º grau da bela cidade balneária maranhense, durante uma hora, cerca de 180 haikais dos mais representativos poetas nipônicos dos séculos XVII, XVIII e XIX.
Neste número, condicionado pelos limites desta página, estão selecionados alguns haikais que foram interpretados para aquele público alvo.
HAIKAIS DE MATSUO
BASHÔ (1644-1694)
PERSISTÊNCIA
De tanto cantar
ter-se-ia transfomado toda em voz?
Cigarra morta em sua casca.
[PENACHO DE ARROZ]
Nas mãos a malga:
flor expectante
do arroz.
A CAMÉLIA
Ao cair, a água
goteja pétalas:
uma camélia entornada.
INSTANTÂNEO
À beira da estrada a flor de malva;
passa o cavaleiro no seu cavalo:
flor de malva espezinhada.
NUVENS
Nuvens dispersas
para que possamos interromper
a contemplação da lua.
À CAMINHO DE NARA
Deve ser isto a Primavera:
uma colina embrulhada
na penumbra da manhã.
O CUCO
Cuco cinzento:
canta canta voa voa:
tem tanto que fazer...
DE VIAGEM
Acorda! acorda!
Assim me tornarei teu companheiro
borboleta adormecida.
ONDE O CUCO VOA
O cuco voando desaparece;
réstia no céu:
ilha ou ilhéu?
FIM DE VERÃO
No Outono o verde é só um:
os campos de arroz
desaguando no mar.
A FLOR DESCONHECIDA
Por entre o pássaro e a borboleta
surge uma flor desmaiada:
o céu de Outono.
PERTO DO TEMPLO DE ISE
(a deusa do Sol)
Um perfume tênue
e sem origem:
o lume das flores?
LUA AMANHECENDO
Passei pelo lago
quando a noite esmorecia?
Lua de água, luz do dia1
A ESTALAGEM DO MUNDO
À noite e na mesma estalagem
brilham cortesãs, campos de trevo
e a luz de passagem;
A CAPA DO MACACO
Aguaceiro gelado de surpresa:
até os macacos procuram
um capote de palha.
O RIO CELESTIAL
O mar embravecido:
por cima da ilha de Sado
um rio de estrelas espelhado.
A PRAIA DE SUMA
NO OUTONO
As ondas trazem pequenas conclas
levam as ondas trevos de algas:
na areia a espuma, os restos.
VOZES DE VERÃO
Em breve se morre
e da morte não existe qualquer rasto:
breve o som de um gafanhoto.
CUCO NA VELHA CAPITAL
Estando em Kyô
sinto saaudades de Kyô:
esse cantar do cuco....
O QUADRO COM
BEBEDOR DE SAKÊ
Nem lua nem brilhantes florescências.
O bebedor de sakê
bebe sakê sozinho!
DESEJO
Embriagado buscarei
as lajes lisas salpicadas
de rosadas pétalas.
CANAVIAL DE BAMBUS
Quem canta no canavial?
O cuco ou a lua murmurando
branca [a]os bambus?
O DOBRAR DOS SINOS
O dobrar dos sinos já se perde
e as flores começam a tocar
ao aflorar a noite.
FRESCURA
Encosto os calcanhares à parede:
assim se tornam frescas
todas as sestas.
A ESTRADA DE BASHÔ
Quando o Outono entardece,
a estrada é só silêncio
e a noite já suspira.
RELÂMPAGO
Um breve relâmpago
ilumina a escuridão
garça gritando a noite.
SÚBITO AGUACEIRO
Até chuva cai e eu sem chapéu!
Cai fria pinto a pingo:
Ping... ping...
[SONHO]
Tentáculos do polvo:
todos esses sonhos de lua efêmera
em água de Verão assim refeitos.
[VERÃO]
Ervas de Verão:
os sonhos dos velhos guerreiros
tão de súbito.
NEVE
Neve amiga – penso em ti
e esqueço-me que pesas
sobre o meu chapéu de palha.
HAIKAIS DE KIKAKU
(1661-1707)
NEVE
Neve amiga – penso em ti
e esqueço-me que pesas
sobre o meu chapéu de palha
Penso na neve, / só ao pensar,
a sinto tão ao de leve.
[GALO]
O galo é um leão:
furiosamente aberta
a sua juba de penas.
DO LADO DE FORA
DA PORTA DE CORRER
O esvoaçar dos jovens pardais
desenha pequenos bambus
sobre a porta deslizante.
[LUA]
Alta a lua brilha
abandonando sobre os tapetes
sombreadas agulhas de pinheiro.
[MENDIGO]
Lá vai o mendigo.
Céu e Terra o estão vestindo:
roupagens de Verão!
[MÃE MORTA]
Sonhei que a minha mãe chegava.
por que a mandaste embora, ó cuco?
ANOITECER DE OUTONO
—Será mais bela a noite acesa?
sussurra a voz dela
prolongando o crepúsculo.
HAIKAIS DE ETSUJIN
(1656?-1739)
MADRUGADA
Os ruídos dos insetos
silenciam-se quando
a lua sobe devagar...
FIM DE ANO
Mais um ano que acaba.
Como esconderei dos meus pais
o cabelo grisalho?
HAIKAIS DE JOSO
(1661-1704)
INVERNO
Também as planícies, também as montanhas
foram capturadas pela neve:
Esta invisível realidade!
O CAMPO DE CEVADA
A cevada madura
verga-se ao peso da chuva;
Estreita é a álea que percorro.
HAIKAIS DE KYORAI
(1651-1704)
ENIGMA
Onde começa, onde acaba
a cabeça, a cauda
da serpente do mar?
Não sei se cauda, se cabeça –
as certezas são difíceis –
serpente do mar!
HAIKAIS DE KYOROKU (1656-1715)
TEMPESTADE DE OUTONO
Arrastar espantalhos pelo chão
é o que a tempestade / faz primeiro.
O CONTO DOS VELHOS
As vozes não têm idade
quando contam os terramotos
à luz das lareiras.
HAIKAI DE HOKUSHI (1665?-1718)
AO CONTEMPLAR A LUA
A lua passa pelos pinheiros
e o olhar de súbito detém
uma outra imóvel luz.
HAIKAI DE SHIKO
(1664-1731)
FOLHAS DE PLÁTANO
Belas e intocadas
as folhas ruborizam
uma a uma.
HAIKAIS DE SAMPU (1647-1732)
HORIZONTE DE PRATA
Quando desabam as chuvas de maio
até as rãs nadam
na soleira da minha porta.
AS QUATRO ESTAÇÕES
As flores de cerejeira,
cuco, lua e neve:
já lá vai um ano!
HAIKAIS DE YAHA (1626-1740)
Passa e torna a passar
um único chapéu de chuva
pela tarde nevada.
HAIKAI DE ONITSURA (1660-1738)
DEPOIS DE TER RENUNCIADO
AO SEUS CARGOS
Dia de Primavera:
livres na areia
brincam os pardais!
FLORES DE CEREJEIRA
Crescem as flores,
crescem e depois caem,
caem e depois...
DIREÇÕES
Olhos e nariz desenhados:
o perfil das flores
na Primavera.
Horizontais os olhos,
vertical o nariz:
flores de Primavera!
O MUNDO ÀS AVESSAS
Uma truta salta.
No fundo do rio
somente as nuvens nadam.
SEARAS VERDES
Nas searas o verde grão
e a cotovia espreitando
sobe e desce!
CALOR DE VERÃO
Na Primavera cantam as rãs,
mas quando vem o Verão
parece que ladram!
O BANHO AO AR LIVRE
Onde despejar a água suja
do banho? Em parte alguma!
Os insetos não param de zumbir.
HAIKAIS DE CHIYO (1703-1775)
[PIRILAMPOS]
Onde o leito do rio gera o silêncio
só a escuridão caminha:
os pirilampos!
[GARÇAS]
Se não tivessem voz
as garças perder-se-iam
nesta manhã de neve!
[LUA]
Com qualquer vestido
nos tornamos belas
contemplando a lua vaga...
HAIKAIS DE SODO (1541-1716)
LUA MÁGICA
A minha sombra vai comigo,
cansada de tanta lua
volta para casa sozinha.
A PASSAGEM DA PRIMAVERA
A Primavera já embranquece
a rosa amarela.
Como são amargas as alfaces!
HAIKAIS DE FUGYOKU
(séc. XVIII)
[LUA BRIL.HANTE]
Lua brilhante:
nem sequer um lugar escuro
onde despejar o escarrador.
HAIKAIS DE RAIZAN
(1635-1716)
[OUTONO]
Através das portas entreabertas
penetra o Outono:
crepúsculo em franja!
Portadas trespassadas pelo Outono:
trêmula candeia esse murmúrio
já sem folhas...
HAIKAI DE GAKOKU
(princípio do séc. XVIII)
[NEBLINA]
A neblina tece um véu
onde ocasional se descobre
uma vela de navio.
Por entre a bruma
uma branca vela / de navio.
HAIKAI DE UM ANÔNIMO
(séc. XVIII)
NO EXÍLIO
Na velha aldeia os meus pais
são já longinquamente
este grito que os insetos insinuam.
HAIKAI DE TANIGUCHI BUSON (1715-1783)
O SOM
Aqui e ali nas pedras
a água caindo
cascata de som.
A ESTRADA INVISÍVEL
Os armazéns perfilam-se quietos.
Por trás uma estrada
onde esvoaçam os pardais.
SINFONIA EM BRANCO
Uma mulher lê uma carta
e florescências brancas
brilham à luz da lua.
Junto à pereira em flor
uma mulher que o luar empalidece
lê pensativa uma carta.
O AMANTE
Como é bom prender os olhos
à brancura ofuscante
do leque da minha amada.
BRISA DA PRIMAVERA
A brisa da manhã é tão fina
e no entanto arrepia [
a penugem da lagarta.
NEBLINA
Neblina matinal:
esfumadas comum num sonho
as pessoas desaparecem.
TRAJOS DE VERÃO
Sobre o biombo doirado
sedas levíssimas espalhadas :
brisas de Outono.
O VISITANTE
Chuva de junho:
e uma noite, secretamente,
a lua na renda dos pinheiros.
HAIKAI DE RYOTA
(1718-1788)
COMUNHÃO
Olham-se silenciosos
o anfitrião, o convidado
e o crisântemo branco.
HAIKAI DE CHORA
(1729-1781)
O VENDAVAL
O vendaval sobra impetuoso,
mas sobre as pontas de erva
a imóvel lua-cheia.
O CAMINHO BLOQUEADO
Aqui queria plantar bambus,
mas o sapo insiste
em ocupar o lugar!
HAIKAI DE UM ANÔNIMO
(fins do séc. XVIII)
A neve caiu por todo o lado.
Como contemplar o branco
com tanta brancura?
HAIKAI DE OSHU
(fins do séc. XVIII)
A ORAÇÃO DA CORTESÃ
Também se morre de amor;
e, se eu morrer, vem cantar
sobre o meu corpo, ó cuco!
HAIKAIS DE ISSA
(1762-1826)
A TENTAÇÃO
As flores de ameixeira
balançam-se diante dos meus olhos.
— rouba esta! diz a lua.
PRESENTES DE ANO NOVO
Diante das prendas de Ano Novo
até o bebê de mama
estende as mãozinhas.
DIA DE VERÃO
Meio-dia>
Entregue ao vôo dos pardais
o rio flui em silêncio.
CHUVA DE VERÃO
Cavalgo nu e sem frio
A chuva no Verão
é uma benção!
A VISÃO
A imagem das montanhas
transparece nas pupilas
súbitos pirilampos.
APOSENTAÇÃO
Retiro-me:
aqui as rãs desde sempre
cantam o mesmo envelhecer.
LONGA NOITE DE OUTONO
Pulgas! Também vós
deveis achar a noite longa.
Pareceis tão abandonadas...
O CARACOL
Devagar, devagarinho
um caracol sobe
o monte Fuji.
O COGUMELO
Este cogumelo mata,
mas é tão belo!
A PORTA SEM TRINCO
Essa porta ainda verde
tem um trinco / ou um caracol?
INVERNO
Por chegar a esta idade
todos me invejam.
Mas que frio eu sinto!
HAIKAIS DE MASAOKA SHIKI (867-1902)
ESTRADA DA PRIMAVERA
Sempre que olho para trás
alguém que eu conheci
se perde na neblina...
NOITE DE VERÃO
Súbito relâmpago
entre as árvores da floresta:
instante de água
AO LUAR
O espantalho ao luar
parece um homem
assim perdido e triste.
APÓS OS FOGOS DE ARTIFÍCIO.
As pessoas vão para casa
após os fogos de artifício.
Imensa é já só a escuridão.
[O SOL DA MANHÃ]
Refletido nas folhas novas
que cobrem toda a montanha
— ah! o sol da manhã!
[CAQUIS]
O sino do anoitecer
e o barulho dos caquis maduros
caindo no jardim do taemplo!
HAIKAIS DE KANSEKI HASHI (1903-1992)
[MONTANHAS]
Eis o que vejo
se levanto o travesseiro –
montanhas desoladas.
HAIKAI DE HOSAKU SHINOHARA (1906-1936)
[VIAGEM]
Viaagem no mar—
cada vez mais profundo
o azul nos meus pulmões
HAIKAIS DE HAKUSEN WATANABE (1913-1969)
[ÁRVORES]
Sem quaisquer limites
vão cortando as árvores
— sol há só um.
[GUERRA]
Subitamente a guerra
de pé
ao fundo do corredor.
HAIKAIS DE TAIBO FURUSAWA
(1913-2000)
[ROSAS SILVESTRES]
Rosas silvestres em flor -
elas lutam nas dunas
por seus túmulos nas dunas
HAIKAIS DE ASUKA NOMIYAMA
(1917-1970)
[MONTANHA]
O céu é bem alto
uma fila de pedras tumulares
sobem a montanha
HAIKAIS DE SUMIO MORI (1919)
[PEÔNIAS]
Cem peônias
agitando-se
como a água a ferver
HAIKAIS DE TOBTA
KANEKO (1919)
[O RIO[
Ah que belo sono!
Até os campos secos
reverdeceram no meu sonho
HAIKAIS DE TAKAYAMAGI (1923-1983)
[MARCHA MILITAR]
Nesse dia / sol ardente
uma marcha militar atravessava
o Arco da Morte
HAIKAIS DE KOBAYASHI ISSA (1763-1827)
[A RÃ]
Imóvel /a rã firma
as montanhas.
HAIKAIS DE SHUOSHI MIZUHARA (1892-1981)
[CRISÂNTEMOS DE INVERNO]
Crisântemos de inverno
apenas visitado pela sua
fatigada luz.
HAIKAIS DE BOSHA KAWABATA (1897-1941)
[A MAGNÓLIA]
A magnólia
perdeu as suas flores –
que será feito delas?
HAIKAIS DE TAKAJO MITSUHASHI (1899-1972)
[ENVELHECER]
Enquanto envelheço
vou dançando em volta
de uma camélia.
HAIKAIS DE KOI NAGATA (1900-1997)
[OUTONO]
Chuva de Outono –
o vazio do copo vazio
e já cheio, bem cheio.
HAIKAIS DE SANKI SAITO (1900-1962)
[CREPÚSCULO]
Crepúsculo do Outono – /a espinha de um grande peixe / rejeitada pelo mar.
HAIKAIS DE KUSATAO NAKAMURA (1901-1983)
[FONTE ANTIGA]
Uma fonte redonda
pronunciando há vinte anos
as mesmas palavras.
HAIKAIS DE SEISHI YAMAGUCHI (1901-1994)
[VENTOS DO INVERNO]
Os ventos do Inverno
sopram na direção do mar—
como regressar a casa?
HAIKAIS DE TAIHO FURUSAWA (1913-2000)
[ROSAS SILVESTRES]
Rosas silvestres em flor
elas lutam nas dunas
por seus túmulos nas dunas.
HAIKAIS DE ASUKA NOMIYAMA (1917-1970)
[SUBIDA]
O céu é bem alto.
uma fila de pedras tumulares
sobem a montanha.
HAIKAIS DE SUMIO MORI (1919)
[PEÔNIAS]
Cem peônias / agitando-se /
como água a ferver.
HAIKAIS DE GORO WADA (1923)
[SEMENTE]
Uma semente de nêspera
tomando o seu caminho
para o sol.
HAIKAIS DE KINEO HAYASHIDA (1924-1998)
[VISÃO]
Mar ofuscante – alguém
ossos embranquecidos
ergue-se das águas.
HAIKAIS DE TOSHI AKAO (1925-1091)
[MÚSICA0
A música suspende-se no ar –
uma serpente esfomeada
invade a costa.
HAIKAIS DE KAN’ICHI ABE (1928)
[LIBÉLULAS]
Acompanhados por libélulas
os meus amigos reúnem-se
nas altas montanhas.
HAIKAIS DE BAN’YA NATSUISHI (1955)
Há um vento
que vem do futuro
e fende a cascata.