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- Ecos do Gênesi


Publicada em: 15 de agosto de 2006
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*Adilson Luiz Gonçalves

Então, fez-se a luz!

A claridade revelou um relevo rochoso entremeado por vales vítreos e estéreis. Era possível vislumbrar, aqui e ali, afloramentos disformes de metais, e formações de pedras calcinadas, regularmente espaçadas, que lembravam formações cristalinas, mas sem brilho ou transparência. Quem as olhasse de perto diria que não eram naturais...

Vegetação, rasteira, já podia ser percebida, revolvida por ventos que sobravam em todas as direções, e só se encontravam para formar imensos e arrebatadores tornados: Uma convulsão telúrica em busca da paz!

A paisagem era como uma global tela em branco: Aguardava que um artista depositasse sobre ela a harmonia de seus traços, numa obra que levaria muitos anos até ser completada. E ele estava lá: observando-a por todos os ângulos; buscando traduzir suas próprias razões e emoções; captando os sons que dela emanavam... E nem só os sons da natureza em mutação podiam ser ouvidos: havia, também, ecos de longínquos “big bangs”, de um violento e profundo caos, permeado por: dor, discórdia, inveja, arrogância, ódio... Mas, não passavam de murmúrios fenecidos, como se a mítica Caixa de Pandora houvesse recolhido seu conteúdo e se desfeito em cinzas, pulverizadas pelos ventos do passado. Só que, desta vez, ela deixou livre a esperança!

Talvez aquela obra não merecesse o tempo e dedicação que implicava. O artista, no entanto, encheu-se dessa esperança, muniu-se de todas as suas habilidades, e passou a dar-lhe os acabamentos necessários.

Em breve as nuvens se dissiparam; as cinzas que cobriam o solo, misturadas às águas menos agressivas, diluídas e apaziguadas pelo tempo, permitiram o surgimento de novas e exuberantes espécies vegetais.

Ainda levou algum tempo até que os elementos encontrassem equilíbrio, mas, finalmente, a paisagem ficou pronta, emergindo da tela, com luzes e cores!

Foi quando o artista, depois de muito pensar, resolveu esculpir duas figuras usando elementos daquela natureza... Moldou-as à sua imagem e semelhança: algo diferentes entre si, mas, complementares e indissociáveis. Retocou-as com um carinho renovado e, por fim, soprou sobre elas, para tirar-lhes o pó. Como por encanto, elas adquiriram vida e olharam, deslumbradas, tudo o que havia a sua volta. Sentiram-se imensamente felizes, mas, ao ouvirem os ecos do passado seus rostos se anuviaram, e lembranças milenares afloraram em suas mentes: imagens de povos divididos pelas fronteiras da ganância; oprimidos pela força dos preconceitos; dizimados por guerras sem sentido: sedentos, famintos e amedrontados. Depois tiveram a visão dos mil sóis de um holocausto nuclear, e sensações de dor, fraqueza e impotência, para as quais não havia cura... Eram, apenas, lembranças; mas, tão fortes e nauseantes, que eles tentaram cobrir os olhos com as mãos. Ao vê-las, no entanto, viram que delas vertia sangue: o sangue de uma humanidade ancestral!

Tudo isso ocorreu num átimo, e logo o sangue desapareceu e eles voltaram a ver a belíssima paisagem que os envolvia. Ainda aturdidos, mas, agora, tomados da mesma esperança de amor e paz, aquele homem e aquela mulher olharam para o divino artista...

Este, que lhes havia mostrado todas aquelas imagens de um passado dividido por limites e preconceitos, e autodestruído por conflitos insanos; sorriu, benevolente; abençoou-os e disse, com doçura: “Vão para onde quiserem, livres e em paz! Amem-se, e façam desse amor uma ponte para transpor todas as fronteiras!”. Depois, suspirando, concluiu: “Só não destruam tudo de novo!”.

*Escritor, engenheiro e professor universitário
http://www.algbr.hpg.com.br, algbr@ig.com.br
Leia outros artigos do autor na página:
http://www.algbr.hpg.com.br/artigos.htm
Tels: (13) 97723538


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Inclusão: 02/09/2006