Uma política econômica perversa que cobra as mais altas taxas de juros do mundo e taxa cambial oscilante que valorizou o real, agravado com o aumento dos preços de máquinas e equipamentos agrícolas e adversidades climáticas, formaram um conjunto sinistro, resultando em 80% de perdas acumuladas para os produtores de soja do sul do Maranhão. Nas culturas de outros grãos, como culturas como o milho e arroz os prejuízos foram, respectivamente, da ordem de 15% e 10%.
A avaliação é do produtor e secretário do Sindicato dos Produtores Rurais de Balsas (Sindibalsas), Luís Carlos Otoneli. Ele diz ainda que em função da política cambial, que resultou na valorização do real em detrimento do dólar, os prejuízos foram menores quando comparados ao mesmo período do ano passado, ficando em torno de 19% de defasagem cambial.
Quando a comparação é feita em relação aos preços praticados no mercado internacional, o prejuízo dos produtores maranhenses foi de aproximadamente 15%, perfazendo uma perda acumulada de 80% das receitas entre os anos 2004 e 2006. O colapso na produção de grãos ocorreu em função da defasagem cambial provocada pela política econômica, os baixos preços da soja no mercado internacional e altos custos de produção.
PICO - Carlos Otoneli disse ainda que a crise foi agravada pela elevação dos preços dos insumos pelas indústrias. Ele lembra que o preço da comercialização da soja atingiu o pico, cerca de R$ 50,00 em abril de 2004, quando as indústrias aumentaram os preços dos fertilizantes em cerca de 50%. Os preços se mantiveram no mesmo nível, enquanto o preço da soja literalmente despencou.
Ele conta que parte da produção de grãos deste ano ficou comprometida porque, além da defasagem cambial - algo em torno de 19%, os produtores enfrentaram adversidades climáticas.
Lembra que em janeiro ocorreu uma estiagem de quase 30 dias. Na segunda quinzena de março e durante o mês de abril houve excesso de chuva, provocando a deterioração de 25% da safra de grãos, coincidindo com a época da colheita. “Caso não ocorressem fenômenos climáticos, a produtividade deveria ficar em torno de 32 sacas por hectare, índice considerado baixo para uma região potencialmente rica que chegou a produzir 56 sacas por hectare”, disse.
PLANTIO - Carlos Otoneli calcula que o custo do plantio foi bastante elevado para os produtores de soja. O orçamento do custeio para a formação da lavoura de soja - período compreendido entre o plantio e a colheita - ficou em torno de R$ 1.130,00 por hectare no preço final. Pelos cálculos iniciais o orçamento previa o valor de R$ 963,00 por hectare.
A elevação do preço, conta, ocorreu em razão das adversidades climáticas e também do aumento da planilha de custos, chegando na reta final a R$ 1.249,00 por hectare para a formação da lavoura de soja.
O secretário do Sindibalsas diz que para cobrir os custos seria necessário produzir 62 sacas por hectare, cerca de quase 40% a mais do que foi produzido na safra passada. Além do prejuízo com a soja, os produtores também enfrentaram problemas com outras culturas como o milho (15%) e arroz (10%).
GARANTIA - Ele esclarece que não existe a monocultura na região e descarta a troca de cultura, justificando que os produtores da região estão preparados estruturalmente para plantar grãos, especialmente soja. “A soja tem mercado garantido, mesmo que o preço da comercialização fique abaixo da cotação, mas na expectativa da cotação do mercado externo”, frisa.
Ele diz que o preço internacional da soja está bom, em torno de US$ 11,00. “O problema é a política cambial, que valorizou o real, agravado pelo aumento dos preços de insumos, de máquinas e equipamentos agrícolas”, observa. Salienta que os preços foram cotados em dólar, antes da desvalorização imposta pela política cambial.
Ele acrescenta ainda que as indústrias se aproveitaram do preço fictício da soja, registrado em abril de 2004, quando foram comercializados cerca de 15% da produção, após a venda antecipada ocorrida no ano anterior. Na época, o custeio para a formação da lavoura de soja ficou em torno de R$ 23,00 por hectare, enquanto a saca foi comercializada a R$ 32,00. Hoje, o quadro é outro e os prejuízos para a lavoura foram inevitáveis.