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- Próxima safra de grãos gera um quadro de incerteza, diz Helmiton Alves


Publicada em: 30 de maio de 2006
Ajustar Fonte: AAA

Prefiro morrer de pé, a ter que viver de joelhos”, sentenciou o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Balsas (Sindibalsas), engenheiro agrônomo Helmiton Alves, durante a manifestação de protesto contra a política econômica do governo federal organizada pelos produtores da região sul do Maranhão.

Ele revelou que a produtividade da próxima safra registra um quadro de incertezas, justificando que 95% dos produtores estão praticamente inadimplentes. Durante a manifestação realizada em Balsas, o presidente do Sindibalsas defendeu o reescalonamento dos débitos dos agricultores em 20 anos.

“Não podemos saldar dívidas sem capacidade de pagamento”, afirmou, pregando ainda a definição de uma política agrícola socialmente mais justa para afastar a crise, evitando que os agricultores continuem a mercê do atual sistema de política econômica com as mais altas taxas de juros do mundo.

Helmiton Alves abriu seu discurso fazendo uma retrospectiva da política econômica que resultou na mais grave crise enfrentada pelos produtores da história da região de Balsas. “Foi preciso assumir a responsabilidade com presteza, dignidade e disposição, pois não sabia aonde iríamos chegar”,

Lembrou que a produção da safra 2004/2005 foi negociada antecipadamente ao preço médio de R$ 24,00 a saca de soja. Na época da colheita ocorreu uma inesperada explosão de preços no mercado internacional. Os preços ficaram fora dos patamares reais e a saca foi comercializada a US$ 17,00 (R$ 50,00). Começava, então, a se desenhar o quadro que culminaria na crise.

Segundo ele, na época, estimava-se que cerca de 15% da produção estaria disponível quando teve inicio a alta e um processo progressivo de preços. Os números não estavam corretos. Na época do pico de comercialização, apenas 3% da produção foi negociada, ao mesmo tempo em que o valor do dólar caía de US$ 3,10 para US$ 2,50.

Os produtores plantaram a safra 2004/2005 adquirindo todos os insumos na base cambial de US$ 3,10 e, favorecidos por diversos fatores, tiveram um dos melhores resultados em produtividade na região.

GRAVIDADE - Os produtores trabalharam e produziram, mas com a política cambial adversa cada saca de soja custou em média R$ 33,00. Com a queda da moeda norte-americana a produção foi comercializada em média a R$ 24,00 a saca, gerando apenas na implantação da lavoura, um prejuízo de 35%, fora os outros investimentos. Helmiton Alves lembra que, naquela época, o governo deveria ter tomado providências. Como isso não ocorreu, os problemas se agravaram na safra 2005/2006.

O presidente do Sindibalsas salienta que os países capitalistas, na época, tinham disponível aproximadamente US$ 1,7 trilhão para ser investido em algum lugar e especular rendimentos no mundo. Parte desse dinheiro, acredita, migrou para o Brasil com os investidores atraídos pela política econômica que se paga as mais altas taxas de juros do mundo. Com isso, uma avalanche de dólares entrou no país de forma desordenada e desencadeou o caos na economia nacional.

Inconformados com o quadro da crise que estava sendo desenhado, os produtores de grãos fizeram manifestações de protesto em todo o país, em março de 2005. No Maranhão, foi lançado o SOS Rural - o alerta do campo, quando os produtores perceberam a gravidade da situação com a permanência de uma política econômica perversa e tiveram a coragem de mostrar o problema que estava ocorrendo.

PREJUÍZOS - Apesar da gravidade da crise financeira, os produtores não desanimaram.

Helmiton Alves conta que a categoria partiu para uma nova safra, para tentar minimizar os prejuízos. Desta vez, além de castigados pelas adversidades climáticas, a política econômica do governo federal permaneceu e aplicou uma nova rasteira nos produtores, que pode ser letal. Por isso, estão protestando mais uma vez contra a política cambial que causou prejuízos de 18% aos produtores de grãos, em função da desvalorização do dólar.

Ele acentua que os produtores aplicaram seus próprios recursos e capital de terceiros. Plantaram os recursos no fundo da terra esperando por chuvas na hora certa. Aguardavam que os frutos dos grãos possibilitassem o retorno do capital e remunerasse o trabalho dos agricultores. Nada disso aconteceu.

Lembrou que, pelo segundo ano consecutivo, os produtores acumularam o maior prejuízo da história e ficaram sem condições de cobrir os custos dos insumos. Da mesma forma tiveram prejuízos com os investimentos e estão impossibilitados de honrar os débitos com a aquisição de máquinas e equipamentos agrícolas.

REVERSO - Sobre as manifestações feitas pelos agricultores de todo o país, disse que não foi uma tentativa de impedir a liberdade dos cidadãos, mas uma forma de tentar sensibilizar o governo federal a adotar medidas que revertam a crise financeira.

Na opinião de Helmiton Alves, as medidas devem ser tomadas com urgência para não impactar nos demais segmentos da sociedade as dificuldades enfrentadas hoje pelos produtores de grãos. “Os produtores querem voltar a produzir, renegociar as dívidas, para que a sociedade consuma alimentos baratos e de qualidade, mas não com a morte dos agricultores”, disse indignado com a política econômica do governo.

Ele conclamou os integrantes da categoria para continuar pressionando o governo federal e os políticos que representam o Maranhão no Congresso Nacional, na luta por mudanças na política econômica. Disse que o presidente Lula sabe negociar sobre pressão, pois este foi um dos marcos do inicio de sua carreira política como líder sindical. “Precisamos pressionar de forma organizada, juntos com a sociedade. Não devemos jamais ceder. Prefiro morrer de pé, a ter que viver de joelhos”, protestou.

ENERGIA - O presidente do Sindibalsas reclama também da falta de infra-estrutura para o escoamento e de energia elétrica para dinamizar a produção de grãos. Sobre o projeto de levar energia elétrica para a região sul do Maranhão ele reconhece que o projeto existe, mas, na realidade, o que acontece “é que estamos, praticamente, à mercê do que acontece nos programas”.

Ele frisa que a Cemar não investe na região. Segundo ele, no sul do Maranhão existem os gerais de Balsas, os gerais do Sul do Estado, os municípios de Tasso Fragoso, Loreto, Alto Parnaíba, Riachão, Sambaíba e vários outros que não têm recebido o programa da Cemar.

“Temos tentado achar onde estão os gargalos. Um desses gargalos é a falta de investimentos pela Cemar. No contrato de privatização da Cemar, há uma clúasula dizendo que a empresa vai fazer investimentos só depois de 2008”, conta.

Além disso, a Cemar é hoje uma empresa deficitária financeiramente. “Então, não está nos planos fazer investimentos antes disso. Todo o Maranhão, na verdade, é deficitário de energia, e, para ter luz no campo, é preciso ter energia disponível”, acentua.

Helmiton Alves critica a falta de infra-estrutura para o escoamento da produção de grãos. “A calamidade das estradas do sul do Maranhão, na região produtora de grãos - hoje produz 65% do grão produzido no Estado - não é só um problema de Balsas”, diz.

Para ele, o sul do Maranhão está esquecido pelas autoridades e diz que a região precisa, de fato, de pessoas que representem, que olhem os interesses da região para poder ver as necessidades e buscar, junto aos governos federal e estadual, os recursos que sejam locados para poder atender as necessidades locais. “A deficiência de estradas que é uma coisa inaceitável”, critica.


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Inclusão: 30/05/2006 - Alteração: 30/05/2006