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- Colóquio Internacional de Língua Portuguesa


Publicada em: 15 de abril de 2006
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É certo que não podemos encontrar, em todo século XVI português, uma reflexão independente e autónoma que permita chegar a um conjunto de leis teóricas, mais ou menos definidas, sobre a criação poética, já que os manuais de teoria eram praticamente inexistentes. Se algo havia, não ultrapassava o âmbito limitado de certos capítulos que, na tradição do ensino da Gramática, se dedicavam ao estudo da versificação. Mesmo assim, os poucos preceitos teóricos sobre que se estruturava o ensino da Poética derivavam, em Portugal, como no resto da Europa, das obras dos principais teorizadores greco-latinos, sobretudo das Poéticas de Aristóteles e Horácio.

Destes, o mais importante é sem dúvida Horácio com a Epistula ad Pisones, no dizer de Aguiar e Silva, “o evangelho de ideias literárias para as primeiras gerações de humanistas da Renascença”5.

É partindo deste princípio, – de que a obra horaciana constitui o texto principal da teorização literária em Portugal e na Europa –, que procurarei lançar alguma luz sobre uma das três edições do século XVI6 do texto horaciano, em causa, a publicada, no ano de 1578, em Antuérpia, pelo português Pedro Veiga.

A abordagem da edição quinhentista do autor português na diáspora compreenderá:

– a apresentação, dado o desconhecimento quase geral, dos poucos dados biográficos (económicos e culturais…) acerca de Pedro Veiga;

– a contextualização histórico-espacial da edição, que justifica a dedicatória, em texto autónomo e programático, a D. Matias, filho do Imperador Maximiliano II;

– a ponderação do grau de intervenção do editor quinhentista e a sua fidelidade à teoria original, através do confronto da Poética horaciana de Pedro Veiga com o texto canónico.

Para a história da gramática escolar portuguesa:

Manifestações de um ‘mito do eterno retorno’ (o mito da gramática IV)

António Carvalho da Silva
Universidade do Minho
acsilva@iep.uminho.pt


Quando se procede à definição teórica do âmbito do ensino do Português (língua materna), aceita-se que o domínio do ensino da gramática (ou do “funcionamento da língua”, como a escola eufemisticamente a designa) se vai instituindo como um “ritual gerado e alimentado na tradição” (Sousa, 2000: 536). Em simultâneo, propõe-se a existência de um “mito da gramática (perfeita)” (Silva, 2004) que fundamenta aquele rito escolarmente repetido.

Depois de, em trabalhos anteriores, termos debatido os fundamentos desse “mito da gramática” (descrevendo as funções da gramática escolar, discutindo o seu papel normativo e avaliando a presença do tema “gramática” no discurso científico), desta feita dedicaremos alguma atenção aos aspectos históricos da gramática escolar, tentando delinear o seu sucesso editorial.

Assumindo, como hipótese, que a publicação (e sobretudo a reedição) de uma gramática escolar pode imaginar-se como a “repetição de um exemplar mítico” (Eliade, 1988: 19), temos como finalidade descrever a mudança ou a permanência histórica das gramáticas portuguesas, procurando compreender qual das forças tem mais poder na constituição histórica da gramática escolar: a tradição ou a inovação.

Adoptámos neste estudo, numa primeira fase, um método historiográfico, identificando as diferentes edições e tiragens de um corpus de cerca de duas dezenas de gramáticas escolares portuguesas, publicadas desde 1970, actualmente ainda em circulação e que correspondem ao universo das gramáticas escolares portuguesas para o 3º Ciclo e para o Ensino Secundário.

Numa segunda fase, usando um método de análise contrastiva, procuramos determinar as versões (ou seja, as publicações com alterações textuais) de cada uma das gramáticas que constituem esse corpus.

Apresentar-se-ão, pois, nesta comunicação alguns dados dessas duas dimensões da análise que está ainda em desenvolvimento. Mesmo que provisória, a principal conclusão a que se chegará é que a (re)publicação de gramáticas escolares (mesmo com a existência de “novos programas” a que a gramática escolar discursivamente se diz submeter) parece ser, de facto, a manutenção do ritual de eterno retorno às origens de um modelo de gramática que sói designar-se tradicional.

Se, como afirma Cardoso (1994: 13) na sua Historiografia Gramatical que tomaremos como referência, este de tipo de estudos “não é nem pode ser um trabalho acabado”, porque “há ainda muitas pesquisas a fazer”, poderemos, pelo menos, começar assim a compreender melhor a organização intrínseca da “instituição” gramática escolar (portuguesa), que, salvo raras excepções, permanece igual a si mesma neste dealbar do século XXI.

Gramática e contexto: descontextualizar ou recontextualizar?

Augusto Soares da Silva
Universidade Católica Portuguesa – Braga
assilva@facfil.ucp.pt


Entendendo contexto como ambiente sócio-cultural da linguagem, como nível performativo do uso linguístico e ainda como bases cognitivas e experienciais dos falantes, deve a Gramática descontextualizar ou (re)contextualizar? A resposta será dada em dois planos: historicamente, procurando interpretar os grandes momentos do desenvolvimento da Gramática, e programaticamente, identificando os que já são e os que aspiram a ser os principais programas de análise gramatical.

Depois de uma gramática em contexto(s), como foi a gramática tradicional e a gramática histórica, assistimos, ao longo do século XX, a uma sucessão de movimentos de descontextualização e recontextualização da gramática, nomeadamente a gramática dividida (Saussure), a gramática isolada (Chomsky) e a gramática recontextualizada (linguística pós-chomskyana). O movimento descontextualizador tem a sua expressão mais elaborada na Gramática Generativa: a perspectiva genética assumida por Chomsky decorre da sua falta de interesse pela dimensão sócio-cultural da linguagem e conduz a uma des-semantização da gramática. A recontextualização da gramática tem sido feita nas últimas duas décadas, pela reintrodução do léxico na gramática, pela assunção da centralidade do significado na arquitectura gramatical, pelo restabelecimento da ligação entre gramática e performance e, embora ainda como tendência minoritária, pelo renovado interesse pelos fenómenos sociogramaticais e reintrodução da análise variacionista.

Argumentar-se-á a favor de uma gramática recontextualizada e mostrar-se-á que é o recente paradigma da Linguística Cognitiva o que melhor corporiza estes quatro programas de recontextualização. Finalmente, como aplicação do último programa recontextualizador - o variacionista -, apresentaremos os elementos para o estudo da convergência e divergência na Gramática do Português, envolvendo as variedades europeia e brasileira.

Influências da Eneida, de Virgílio, na catábase d’ Os Lusíadas, de Camões – uma proposta de abordagem escolar

Lino Moreira da Silva
Universidade do Minho
lmoreira@iep.uminho.pt


É de aceitação comum a actualidade da cultura clássica, do grego e do latim, e das realizações literárias clássicas do Renascimento, e a sua importância na formação dos indivíduos e na construção de sucesso educativo na escola.

Ora, a cultura clássica não é, hoje, convincentemente focalizada em termos educativos. Os programas de ensino pouco a recomendam, os professores não se lhe referem e estão cada vez menos preparados para o fazer, os alunos não se sentem motivados para ela. Por isso, está a passar à margem das escolas esse insubstituível veículo de informação, formação, transmissão estético-literária e cultural que a cultura clássica representa.

Importando denunciar (e contrariar) a situação, e valorizando a nossa epopeia nacional (uma epopeia renascentista), o autor da presente comunicação vai retomar o importante, embora pouco estudado, “episódio” da catábase marinha (canto VI, de Os Lusíadas), na relação que ele tem com a Eneida, de Virgílio, para:

a) Procurar combater, fundamentadamente, os pressupostos apresentados.

b) Justificar que, embora a catábase de Os Lusíadas não seja coincidente com a catábase da Eneida (esta constitui-se na parte ideologicamente mais significativa da obra, enquanto que a de Os Lusíadas se fica por um segundo consílio dos deuses, desta vez realizado no mar), há entre ambas aproximações que é preciso pôr em destaque.

c) Sistematizar, especificamente, as influências (directas e indirectas) da Eneida, de Virgílio, sobre a catábase de Os Lusíadas (semelhanças, diferenças, interacções).

d) Enunciar uma proposta de abordagem textual, para o episódio camoniano, capaz de motivar e fundamentar o seu estudo e o estudo da relação que o mesmo episódio estabelece com a epopeia virgiliana.

Dos mitos em Camões a Camões mito

Maria Luísa de Castro Soares
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
tanitik@gmail.com


Dos mitos em Camões a Camões mito Camões compreendeu, perpetuou e recriou a mitologia Antiga e ele próprio se tornou modelo mítico. Nas Rimas e n’ Os Lusíadas dá a conhecer ao leitor, instrumentalizando-a, a mitologia clássica para depois da morte – e devido a uma biografia lacunar – se tornar ele mesmo, enquanto homem e poeta, um mito popular e literário. A fortuna literária de Camões, mal reconhecida em vida, elevou-o post mortem a símbolo de portugalidade e da consciência poética. É como se a obra camoniana desse resposta a cada um dos poetas posteriores ou lhes abrisse campo a explicações, interpretações ou aproveitamentos ao sabor das circunstâncias epocais. Ao dar sentido mítico à história nacional, através d’ Os Lusíadas, Camões com a sua obra tornaram-se para a comunidade portuguesa arquétipos ou modelos míticos dessa mesma comunidade. Daí que, de século para século, Camões e Os Lusíadas sejam identificados com um povo inteiro. A dimensão mítica da biografia camoniana, a obra lírica e sobretudo a fortuna literária da sua epopeia, «Bíblia da Pátria» e espelho em que todo um povo se revê são importantes para os «exegetas» do mito e para os defensores de uma verdadeira ontologia da portugalidade.

Cognição e categorias: os conceitos de “fruto” e “fruta”
José Teixeira
Universidade do Minho
jsteixeira@ilch.uminho.pt


Através da análise dos resultados de algumas centenas de inquéritos sobre o conceito de “fruto”, procurar-se-á pôr em relevo como é que, para a Linguística Cognitiva, a conceptualização é o resultado de interacções entre os mecanismos linguísticos e os restantes mecanismos cognitivos, organizando-se, as categorias resultantes, em blocos de estrutura prototípica.

A organização prototípica das categorias pode ser, assim, bastante reveladora da forma como a lexicalização linguística é simultaneamente resultado e causa das percepções que uma comunidade linguística tem do mundo e das vivências sobre ele construídas. Noções como a de “significado corporizado” são, para a perspectiva cognitiva, o reflexo de que não é possível separar de forma rígida, como as semânticas de fundamentação lógica o pretendem, o conhecimento linguístico e o chamado “conhecimento do mundo”.

Pedro João Perpinhão, historiador
Helena Maria Ribeiro Almeida Costa Toipa
Universidade Católica Portuguesa – Viseu
helenacosta@crb.ucp.pt


Esta comunicação pretende revelar os critérios adoptados pelo padre jesuíta Pedro João Perpinhão (orador valenciano do século XVI, residente durante alguns anos em Portugal, escolhido pela Companhia de Jesus para as ocasiões solenes, e professor do Colégio das Artes, em Coimbra, entre 1555 e 1560) na composição da sua monografia sobre a vida da Rainha Santa Isabel (De uita et moribus B. Elisabethae Lusitaniae Reginae libri III).

A partir da análise deste texto e de outros textos do mesmo autor, pretendemos tirar algumas conclusões sobre a influência dos autores clássicos (Cícero, Luciano, Tito Lívio, entre outros), na forma como Perpinhão traçou a biografia da Rainha Santa. Salientar-se-ão, no texto em análise, a fidelidade às fontes escritas e a confiança os documentos; a dúvida razoável na aceitação da tradição oral; a necessidade de distinguir história e lenda; a valorização da experiência pessoal e do testemunho presencial; o desejo de rigor; a noção da história como repositório de exemplos instrutivos a seguir ou a evitar; a situação no espaço e no tempo dos acontecimentos; a descrição de locais e monumentos; o uso do discurso directo. Estes critérios serão relacionados com os dos autores clássicos, recorrendo nomeadamente aos textos dos historiadores antigos, que Perpinhão tão bem conheceria, pela sua formação e pelo seu magistério, uma vez que esses mesmos autores faziam parte dos planos de estudos do Colégo das Artes (como se pode constatar num opúsculo do próprio Perpinhão intitulado De ratione liberorum instituendorum litteris Graecis et Latinis, siue Epistola Petri Perpiniani ad Franciscum Adornum) e nos de outros colégios de jesuítas.

Poética trágica e clássica no teatro bíblico dos jesuítas
Margarida Miranda
Universidade de Coimbra
mlopesmiranda@sapo.pt


As primeiras tragédias jesuíticas representadas em Portugal, no Colégio das Artes de Coimbra, em 1559 e 1562, foram também as primeiras tragédias que a Companhia de Jesus fez representar em Roma, no Colégio Germânico, para depois promover aquele género dramático e musical na sua vasta rede de estabelecimentos escolares, em toda a Europa, muito antes da criação definitiva da Ratio Studiorum.

A minha comunicação pretende descrever a concepção poética e dramática daquele género que, além de ter aberto caminho na Europa para o drama per musica, veio a alcançar uma dimensão internacional nunca antes alcançada pela produção literária jesuítica.

Trata-se, na verdade, de um teatro nascido no meio escolar, integralmente em língua latina, mas nem por isso destituído de valor artístico intrínseco, e de um grande potencial de espectacularidade

Os mitos e motivos clássicos eram naturalmente um elemento indispensável na inuentio e na elocutio trágicas renascentistas. O mais notável, porém, é que o dramaturgo jesuíta em análise – Miguel Venegas, a quem podemos considerar o criador do género, um jesuíta formado no humanismo de Alcalá de Henares, no seio do qual nascera a famosa Poliglota Complutense – o tenha feito numa tragédia sacra, de inspiração rigorosamente bíblica.

Por outras palavras, pretende-se demonstrar como o poeta soube descobrir na história bíblica as matrizes do género trágico pagão, e produzir um teatro de objectivos catequéticos e moralizantes mas ao mesmo tempo artísticos e profundamente retóricos. Na descrição desta poética trágica será dado particular relevo à elaboração poética do horrendo, um aspecto intimamente ligado à moderna teorização literária sobre a tragédia., e concebido como instrumento de exaltação de sentimentos e de edificação moral.

Miguel Venegas mostra conhecer bem as exigências do género trágico. Mostra uma concepção trágica reflectida, distante das formas híbridas que caracterizavam o teatro jesuítico em Espanha, mas também distante das tragicomédias do seu mais célebre discípulo, Luís das Cruz. Para esse efeito concorre uma ousada síntese entre a imagética bíblica cristã e a imagética clássica pagã, uma síntese que se estende desde a mais simples evocação de nomes e de motivos poéticos até à mais complexa construção de personagens que recriam as grandes personagens do imaginário clássico (Medeia, Clitemnestra, Dido, Tirésias, Atreu, são representadas quais alegorias trágicas, sob o nome de Jezabel, de Elias e de Acab).

Paralelismos de personagens e de situações bíblicas ofereciam ao poeta poderosas afinidades com o género trágico antigo, sem deixar de obedecer simultaneamente à mais rigorosa e actual sensibilidade exegética, e aos mais inovadores preceitos estético-literários.

O Ignatiados (1635) de António Figueira Durão
Carlota Maria Lopes de Miranda Urbano
Universidade de Coimbra
camirub@ci.uc.pt


Esta comunicação propõe-se apresentar um poema épico novilatino em três cantos, o Ignatiados, cujo herói é fundamentalmente (mas não só) St.º Inácio de Loiola. Escrito por António Figueira Durão, um jovem estudante de um Colégio da Companhia de Jesus, como pretendemos demonstrar nesta comunicação, o Ignatiados apresenta-se como uma obra de muito interesse a vários títulos. Ele começa por resultar de um exercício literário, o que faz dele um documento da pedagogia do seu tempo, para se afirmar como um esboço da epopeia da Companhia de Jesus em que nenhuma das vertentes desta Ordem religiosa é esquecida. Como poema hagiográfico o Ignatiados revela-se bastante original no conjunto dos poemas heróicos sobre St. Inácio já existentes à altura. Ele é o primeiro, tanto quanto sabemos, e único em Portugal, composto no metro e língua latinos e denuncia claramente a sua filiação na épica de cunho renascentista, fiel à tradição clássica.

Pouco tradicional enquanto poema hagiográfico e emulador dos cânones clássicos, o Ignatiados é um documento da fecunda interacção entre o imaginário clássico e o imaginário cristão, entre as fontes literárias clássicas como a Eneida de Virgílio, ou a Farsália de Lucano, as fontes literárias hagiográficas, como a biografia de St. Inácio de Pedro Ribadeneira e as ressonâncias do corpus bíblico.

Enquanto documento da hagiografia coeva das reformas católica e protestante, o Ignatiados constitui mais do que um eco das polémicas doutrinais e das lutas religiosas. Mais interessante ainda é o facto de este poema épico deixar transparecer com notável clareza o evidente cruzamento entre as noções de heroísmo e de santidade que caracteriza os séc. XVI e XVII da cultura ocidental na sua interpretação da santidade em clave heróica.

(Footnotes)
1 Dissertação de mestrado em Linguística Portuguesa apresentada, em 1999, à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra com o título

A morfologia verbal do galego-português.Contributos para um estudo sincrónico-descritivo, realizada sob orientação científica da Professora Doutora Clarinda de Azevedo Maia.

2 Para que os participantes possam acompanhar a leitura da comunicação, ser-lhes-á fornecido um documento com exemplos de formas verbais e respectivas abonações.

3 Sá de Miranda,

Obras Completas , II vols., Sá da Costa, Lisboa, 1937.

4 Maria Leonor Carvalhão Buescu, Literatura Portuguesa Clássica, Universidade Aberta, Lisboa, 1992.

5 Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da Literatura, Coimbra, Almedina, 1991, p.509.

6 Duas outras edições, estas comentário, são da responsabilidade de Aquiles Estaco, publicada em 1553; e de Tomé Correia, em 1587


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Inclusão: 05/05/2006 - Alteração: 06/05/2006