CONTINUAÇÃO
A língua ao serviço do Padroado Português na China: as línguas portuguesa e castelhana ao serviço de uma estratégia de aproximação de dois povos e duas culturas (1583–1703)
Manuel Cadafaz de Matos
Centro de Estudos de História do Livro e da Edição (CEHLE)
manuelcadafazdematos@cehle.com
Os estudos em torno da expansão pelo mundo da língua latina, bem como das línguas vulgares das mais destacadas nações da Europa do ocidente e mediterrânica, conheceram um particular desenvolvimento entre fins do século XVI e começos do século XVIII.
Sobre a importância da difusão da língua latina, há que ter presente o significativo testemunho deixado pelo humanista transalpino Lorenzo Valla (1407–1457), na obra Elegantiae. Analisando-se o texto fixado na edição parisina de 1541, pode ler-se que “aqueles... que por quase todo o Ocidente, e numa não pequena parte do setentrião e de África, fizeram com que fossa famosa e quase rainha a língua romana, e que em todas aquelas terras a deram aos homens ... levaram a cabo um labor certamente mais belo e mais ilustre que o de alargar o próprio Império”.
No que respeita às línguas vulgares das mais renomadas nações da Europa do ocidente e mediterrânica, detemo-nos aqui, sobretudo, nas línguas portuguesa e castelhana e na sua história, aspectos estruturais e difusão, em territórios da expansão das duas nações ibéricas nos séculos XVI e XVII, mais particularmente no grande Império da China.
Importa assinalar primeiramente que, em termos de história da língua portuguesa na China, os dois últimos decénios do século XVI são de uma importância decisiva graças, curiosamente, a um jesuíta italiano, o Pe. Matteo Ricci. Tendo este chegado em 1582 a Macau – e pouco depois entrado no Império do Meio – desenvolveu ali, em colaboração com o seu confrade Michele Ruggieri, um Dicionário Português – Chinês.
Este dicionário bilingue – que sem dúvida constitui as primícias do Grand Dictionnaire Ricci, da equipa do sinólogo francês Pe. Claude Larre, S.J. (em edição da Desclée de Brower, em sete volumes, recentemente apresentado ao público) – é aqui perspectivado por via do exemplar que se conserva nos Arquivos da Companhia de Jesus em Roma (onde o estudámos na primeira metade dos anos noventa). Analisam-se aqui algumas das suas particularidades técnicas – como por exemplo a constante na sua Tavola V – que permite fomular duas hipóteses de trabalho, se se trata de uma obra xilográfica ou manuscrita, cremos que com prejuízo da primeira.
Referenciando-se a publicação em 1620 em Macau, na imprensa da Companhia de Jesus, da Arte Breve da Lingua Iapoa, com base nos trabalhos de um português, alude-se ainda à existência do primeiro dicionário chinês-francês, devido ao Pe. Nicolas Trigault, também ele jesuíta. Este é de 1627 e também constitui, sem dúvida, um interessante marco na história da língua das nações do ocidente na Ásia Extrema .
No que respeita à língua castelhana naquelas mesmas paragens continentais do Pacífico, há que assinalar que o seu ponto mais marcante se situa na edição da Arte de la Lengua Mandarina. Esta obra, da autoria de Frei Francisco Varo, foi impressa em Cantão, no sul da China, em 1703, tendo tal edição estado a cargo, uma vez mais, da imprensa da Companhia de Jesus.
Influência clássica no teatro português:
A Castro de António Ferreira e de Reis Quita
Mário José Silva Meleiro
Escola Superior de Educação da Guarda
mario.meleiro@netvisao.pt
Assistimos no Séc. XVI ao aparecimento de homens notáveis que, de certa forma, vão guerrear contra Gil Vicente. Entre esses homens notáveis encontramos nomes como o de Sá de Miranda ou António Ferreira. Notável foi também a arma que utilizaram para o combater: a imitação dos gregos e romanos.
O teatro clássico surge, assim, em Portugal, como uma reacção contra a comédia nacional que tem na preferência da linguagem em prosa, em vez do verso de redondilha com rima, a sua principal referência.
No século XVI entravam em Portugal, não só pelos lentes, mas também pelos alunos que haviam estudado fora do país, costumes europeus que além de passatempos, tinham em vista a cultura do latim e do grego, considerados então as chaves da ciência universal.
Mas o teatro clássico não teve uma aceitação fácil em Portugal. O público estava habituado ao teatro de Gil Vicente e mantinha algumas reservas ao que era novo. Nas palavras que iniciam o prólogo de Os Estrangeiros de Sá de Miranda, são bem visíveis estas reservas por parte dos espectadores: “Estranhais-me, que bem o vejo: que será? Que não será? Que entremês é este? (...) o meu nome é comédia, (...) eu naci em Grécia, e lá me foi posto o nome...”3.
Coube, pois, a Sá de Miranda dar os primeiros passos na imitação do teatro clássico, seguido por António Ferreira entre tantos outros. Nas palavras de Carvalhão Buescu, “António Ferreira representa a corrente clássica do teatro português do século XVI, escrevendo duas comédias (...) e, sobretudo, aquela que tem sido considerada a mais bela tragédia: a Castro. Esta última obra, (...) aborda um assunto querido e sempre vivo na tradição Coimbrã: Inês de Castro”4.
A figura de Inês de Castro foi levada ao conhecimento de praticamente todos os povos da Europa. Na tradição portuguesa, Pedro e Inês tornaram-se um dos símbolos em que a alma de Portugal se reconhecia, transcenderam os limites do real, encarnando o mito do Amor para além da morte.
Em Portugal, vários foram os autores que abordaram este mito. Entre os primeiros a merecer destaque, encontramos Garcia de Resende e Camões. Mas o mito de Inês transvaza as fronteiras seculares e vamos encontrá-lo, em abundantes obras do século XVIII, donde destaco apenas Bocage e Reis Quita.
Ora, são precisamente algumas características da Castro de Reis Quita, do século XVIII, que serão postas em confronto com a Castro de António Ferreira, do século XVI.
Desde já convém referir que, embora se conheçam dezasseis outras tragédias completas e algumas traduções, nenhum autor com a sua obra atingiu a fama de António Ferreira com a sua Castro. Alem de ser uma estreia na literatura portuguesa como tragédia clássica, foi também a primeira tragédia europeia escrita sobre um tema moderno.
Terêncio na pedagogia dos jesuítas
António Maria Martins Melo
Universidade Católica Portuguesa – Braga
antmelo@facfil.ucp.pt
De origem africana, este poeta cómico latino do séc. II a. C. é objecto de referência em duas obras que inspiram a acção educativa da Companhia de Jesus: a Quarta Parte das Constituições da Companhia de Jesus e a Ratio Studiorum. Os planos de Estudos dos Colégios haviam de reflectir essas orientações. Este é o objecto da reflexão que nos propomos apresentar.
De gustibus est disputandum: contributo para o estudo do léxico do vestuário em O Primo Basílio de Eça de Queirós
Maria do Carmo Pinheiro e Silva Cardoso Mendes
Universidade do Minho
mcpinheiro@ilch.uminho.pt
A comunicação propõe-se analisar o vestuário no romance queirosiano O Primo Basílio e o modo como este campo lexical possibilita a compreensão de imagens privadas e de desempenhos sociais. Partindo do princípio de que o léxico do vestuário ilustra plenamente os problemas levantados pelo estudo da organização do léxico, salienta-se que o vestuário é um objecto configurado por uma “moda” e pela sua “semiótica”; é uma actividade privilegiada e sempre reencetada quer dos processos de classificação e de desclassificação que percorrem classes e categorias de classes, quer do processo de construção de identidade social e dos papéis de género; é um domínio em que se nota um investimento erótico indissociável daquelas duas dimensões.
Se o conjunto de adereços que acompanha as diferentes peças de vestuário (quantas vezes entendidos como nota fundamental de “elegância” e de “bom gosto”, exemplarmente representada no fenómeno do dandismo) acentua as variações epocais e civilizacionais a que se submete este domínio do léxico, é sobretudo aqui que se acumula ou se perde capital de distinção (de classe, de masculinidade e de feminilidade). Sob este ponto de vista, O Primo Basílio constitui importante testemunho de uma época e de algum material de construção de identidades.
Com base nestas premissas, faz-se uma apresentação do léxico do vestuário no romance oitocentista, considerando que ela não pode alhear-se nem de uma dimensão interpretativa nem de uma perspectiva sociológica. Assim, é decerto por um traço típico (ou especialmente sublinhado) da civilização burguesa que ao vestuário é também confiada a função de suportar a diferença entre a vida pública e a vida privada. Com esta especificação fundamental: a intimidade é social e publicamente codificada, e pública e socialmente submetida a juízos de “gosto”.
Num primeiro momento, a abordagem do campo lexical do vestuário em O Primo Basílio, estabelecerá quatro oposições: uma oposição dimensional entre “vestuário usado em casa” e “vestuário usado fora de casa”; uma oposição sémica entre “para homem” e “para mulher”; uma oposição sócio-económica entre “classes populares” e “classes de média e alta burguesia”; uma oposição cromática entre “branco” da intimidade) e o “negro” da vida pública, que vem a tornar-se a cor de classe que distingue os dândis (Basílio e Reinaldo) e marginaliza o desclassificado (Leopoldina).
Num segundo momento, analisam-se dois grupos de lexemas indissociáveis do léxico do vestuário: as formas verbais e os galicismos, concluindo que o primeiro grupo corrobora a centralidade do vestuário na articulação discursiva do romance, enquanto o segundo (como o galicismo em geral) deve ler-se sobretudo como capital cultural específico de uma classe e matéria-prima de actividades de distinção.
Finalmente, considera-se o modo como o vestuário representa um importante centro de interesse em diálogos e em reflexões individuais, e se constitui ainda como meio através do qual Eça de Queirós põe em evidência determinadas marcas daquele estilo que nele, como poderia dizer o professor Óscar Lopes, tem o alcance de uma filosofia, i. e., de uma visão do mundo.
A gramática científica no Brasil e em Portugal
Márcia Antonia Guedes Molina
Universidade de Santo Amaro (São Paulo) – Brasil
maguemol@ig.com.br
Neste trabalho efetuamos uma comparação entre dois dos mais importantes compêndios gramaticais surgidos no final do século XIX: A Língua Portuguesa, de Adolfo Coelho; e a Gramática Portuguesa, de Júlio Ribeiro, escritos ambos em 1881 e divisores de águas, já que foram os primeiros a adotar os princípios do método histórico-comparativo, o primeiro em Portugal, o segundo no Brasil. Nosso objetivo é cotejar suas partições, principais definições, para constatar suas semelhanças e dessemelhanças, à luz da História das Idéias Lingüísticas no Brasil. Como acreditamos que os homens se parecem mais com o seu tempo do que com seus pais, já que não são eles que fazem a história, mas a história é quem os faz, apresentamos, primeiramente, uma rápida retrospectiva histórica, visitando os anos que antecederam a criação dos compêndios, favorecendo uma melhor interpretação dos fatos. Temos consciência então de que a segunda metade do século XIX foi extremamente vigorosa, no que diz respeito a mudanças: rica em movimentos intelectuais e literários e plena de invenções tecnológicas. A todo momento, novos instrumentos surgiam, correntes filosóficas ganhavam adeptos, poetas importantes conflituavam, valorizando essa ou aquela escola literária. A ferida do analfabetismo era uma mácula que urgia ser extirpada de uma sociedade que almejava o progresso, por isso havia um esforço para que a escola primária abarcasse todos os territórios de forma universal, gratuita e obrigatória (Luzuriaga, 1973). A educação secundária desenvolve-se limitando-se a atender às classes sociais mais abastadas, já que era encarada como um meio de se atingir à universidade. Ao lado de tudo isso, a Lingüística Comparada de Frederico Diez, Franz Bopp e Max Müller começava a revolucionar os estudos gramaticais pelo mundo afora, rompendo com a tradição logicista, chegando ao mundo lusófono pelas mãos de Adolfo Coelho (1847–1919), que se doutorou pela Universidade de Heildelberg e foi grande conhecedor da língua portuguesa e Júlio Ribeiro (1845–1890), que foi um combativo professor, dotado de uma grande cultura literária e autor de um dos clássicos do naturalismo brasileiro: A carne.
Simplesmente
Benjamim Moreira
Universidade Nova de Lisboa
abelha@nortenet.pt
Na tradição gramatical, simplesmente integra-se na categoria adverbial. No entanto, a multiplicidade de empregos e de valores hoje mais frequentes obriga a repensar essa classificação. Com efeito, e a título meramente ilustrativo, só em (1) e (5) pode em rigor ser considerado um advérbio constituinte da relação predicativa:
(1) Ela veste-se simplesmente
(2) Queria simplesmente perguntar se tencionam ir ao cinema esta noite
(3) Podes comprar o que quiseres, simplesmente tens de pagar do teu bolso
(4) Ela está muito magra porque come simplesmente uma sopa às refeições
(5) Numa altura em que contenção é a palavra de ordem, será correcto gastar tanto dinheiro na demolição de um prédio, simplesmente por razões políticas? (Alto Minho, 11.11.2004)
(6) Ricardo Quaresma marcou golo numa jogada simplesmente genial (RTP1,13.11. 2004)
(7) Ele é simplesmente um idiota
(8) Leclerc. Simplesmente o mais barato
Através destes e doutros exemplos procuraremos mostrar como o papel de simplesmente na construção da significação ultrapassa largamente e em vários planos o de modificador predicativo (1), já que é também operador de atenuação (2), marcador de um acto ameaçador de face (Brown & Levinson 1987), de oposição (3), de restrição (4), de focalização (5), metalinguístico (6), de intensificação (7), argumentativo (8).
Mas a verificação da existência de diferentes valores e modos de funcionamento de uma mesma unidade linguística não permite inferir que estamos perante homónimos. Procuraremos antes mostrar que a identidade de simplesmente está precisamente na sua variação semântica (cf. ‘polissemia’).
Realidade e providencialismo nas crónicas de Góis e Osório
Fernando Alberto Torres Moreira
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
fmoreira@utad.pt
Cronistas de D. Manuel I, Damião de Góis e Jerónimo Osório deram à estampa duas versões de uma crónica só. É conhecido o débito que o bispo de Silves tributa ao labor desenvolvido por Góis para a produção da crónica que o Cardeal Inquisidor lhe encomendara. Sabemos também que o cronista de Alenquer sustentou, no seu prólogo, o imperativo de verter para o seu texto a narração verídica dos factos acontecidos, única forma, no seu entender, de fazer história. Sem contradizer os princípios goisianos e conhecendo as circunstâncias que marcaram a publicação do texto do seu amigo, Jerónimo Osório não só declara o aproveitamento que faz da Crónica daquele, como reclama uma linha ideológica para o seu discurso narrativo que o diferencia de modo evidente (Também me movia com agudo estímulo ver que não só tomava nesta obra o peso a feitos de homens mas também a divinos), sem descartar a verdade histórica mas reclamando uma outra verdade introduzindo, por isso, elementos de um providencialismo que as suas convicções religiosas e crença num destino luso explicam.
É precisamente a diferença entre os dois textos, ao nível do que ideologicamente os suporta, que nos propomos analisar, prosseguindo, por isso, um trabalho de análise comparativa esperando poder demonstrar o que distingue a discursividade narrativa dos dois autores (aspecto já por outros estudiosos abordado) e, sobretudo, o enfoque ideológico que norteou o trabalho cronístico destes dois humanistas.
A Fénix Renascida, cancioneiro de poesia barroca portuguesa
Maria Micaela Dias Pereira Ramon Moreira
Américo António Lindeza Diogo
Universidade do Minho
micaelar@ilch.uminho.pt
A comunicação que propomos tem como principal fim apresentar a edição do primeiro volume da Fénix Renascida, por nós elaborada, e que a editora Angelus Novus publicará no início de 2005, sob o patrocínio do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas.
A Fénix Renascida constitui o mais rico e mais significativo cancioneiro de poesia barroca portuguesa recolhida de diversos manuscritos que hoje desconhecemos, mas que o editor Matias Pereira da Silva afiança ter visto e conferido cuidadosamente; por outro lado, os cinco volumes que a compõem tiveram apenas duas edições, ambas no século XVIII, sendo a que nos propomos apresentar a única de que actualmente a obra está a ser objecto.
Tratando-se de uma colectânea que reúne cerca de 45.000 versos, de lição muitas vezes incorrecta, nela incluídos de acordo com critérios algo periféricos a razões meramente estético-literárias, equacionaremos, em primeiro lugar, os problemas relativos à fixação e à organização genológica dos textos. Procuraremos também pôr em evidência, e exemplificar com referência a textos concretos, as correntes mais expressivas da poesia de seiscentos nela representadas. Paralela e cumulativamente, enquadraremos a obra no contexto ideológico, filosófico e literário do período em que se insere.
Elementos para uma análise semiótica do Tratado dos Estados Eclesiásticos e Seculares do humanista Diogo de Sá
José Augusto Mourão
Ana Cristina da Costa Gomes
Universidade Nova de Lisboa, Universidade de Lisboa
cristinacostagomes@hotmail.com
O Tratado dos Estados Eclesiásticos e Seculares escrito, no ano de 1557, pelo humanista Diogo de Sá conservou-se, até aos nossos dias, em manuscrito autógrafo, na Secção de Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa. Apesar de ter sido dedicado à rainha D. Catarina e ter como tema central a fé, inscrevendo-se no grande debate ideológico do concílio tridentino, este códice não escapou às setas da censura inquisitorial. O Tratado dos Estados Eclesiásticos e Seculares figurava no Index português de 1581, tendo a sua proibição sido alargada, posteriormente, ao Index espanhol e italiano.
A par de outras obras, tais como o Diálogo Evangélico Sobre os Artigos da Fé Contra o Talmud dos Judeus, do humanista João de Barros, ou o Espelho de Cristãos Novos e Convertidos de Francisco Machado, este texto não logrou conhecer a edição na época em que foi produzido, devido a enquadrar-se na literatura apologética anti-herética e, com especial relevo, anti-judaica censurada pelo Santo Ofício.
Com esta comunicação pretende-se trazer à luz, simultaneamente, este texto quinhentista, que será editado brevemente, e o seu autor: Diogo de Sá. Durante largo tempo pairaram inúmeras interrogações sobre a vida e a obra deste humanista quinhentista português, conhecido quase exclusivamente pela sua crítica feita a Pedro Nunes no tratado, impresso em Paris, no ano de 1549, intitulado De Navigatione Libri Tres. Homem das armas e das letras, o seu percurso multifacetado e ambivalente, como o de poucos, conjugou a espada e a pena, tendo ficado marcado pelas suas viagens a bordo das naus da Carreira da Índia e a sua destemida carreira militar no Oriente e pela sua passagem pelos grandes meios universitários europeus: Coimbra e Paris. A escrita preencheu, contudo, grande parte da vida deste intelectual polígrafo... Entre as obras que nos legou encontram-se, as duas já mencionadas, o tratado jurídico De Primogenitura, publicado em Paris, nos anos de 1551 e 1552 e o manuscrito intitulado Inquisição e Segredos da Fé.
Por outro lado, esta intervenção tem como principal objectivo avançar com elementos para uma análise semiótica do Tratado dos Estados Eclesiásticos e Seculares, centrando-se no epílogo desta obra, do humanismo português, intitulado “Da Fé”.
O bairro, a biblioteca e a máquina filológica.
Uma leitura parcial de Gonçalo M. Tavares
Luís Mourão
Escola Superior de Educação de Viana do Castelo
luis.mourao@mail.telepac.pt
Gonçalo M. Tavares é um dos casos mais singulares da novíssima literatura portuguesa contemporânea. Aos 34 anos, tem 14 livros publicados, entre romances, poesia, teatro e narrativas de género mais ou menos inclassificável. Mas sobretudo, tem um estilo e uma qualidade reconhecível, que urge interrogar.
A leitura que proponho de Gonçalo M. Tavares é duplamente parcial: 1) porque abrange apenas algumas das narrativas de género inclassificável (O Senhor Valéry, O Senhor Henri, O Senhor Brecht, O Senhor Juarroz, que se poderá dizer que pertencem a uma “série” em curso que se poderia denominar a “série do bairro”, e Biblioteca 1, que é a obra inicial de uma nova “série”, que talvez se possa chamar desde já a “série da biblioteca”); 2) e porque, dada a brevidade de uma comunicação, procura apenas seguir um único fio interpretativo: a escrita de Gonçalo M. Tavares é uma forma peculiar de ler segundo a máquina filológica.
A breve nota que abre Biblioteca, diz no seu projecto minimal aquilo que também estrutura os outros livros aqui em causa: “O ponto de partida deste livro é a obra dos autores — nunca aspectos biográficos. Uma ideia ou apenas uma palavra mais usada pelo escritor (por vezes, mesmo associações inconscientes e puramente individuais) estão na origem do texto. Mas cada fragmento segue o seu ritmo próprio”. Nos livros da “série do bairro”, a obra dos autores começa por aquilo que é o seu ponto máximo de condensação, o próprio nome de autor. A leitura, tornando-se escrita, segue assim um itinerário alegórico que tem no seu cerne a ironia, é uma máquina filológica, como Paul De Man a intuiu no andamento da modernidade e como Nietzsche a quis como prática não teológica da interpretação. Proponho explicitar este itinerário e interrogar não tanto os seus pontos de chegada – esta é uma obra claramente em construção — mas as suas energias de passagem: em que é que a escrita de Gonçalo M. Tavares é elucidativa da nossa contemporaneidade mais extrema?
A homonímia na lexicografia portuguesa de setecentos: Bluteau e Morais
Clotilde de Almeida Azevedo Murakawa
Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho – Brasil
murakawa.jau@netsite.com.br
Tomando como ponto de partida de nosso estudo a definição do adjetivo “homônimo” registrada por Raphael Bluteau (1638/1734) em seu Vocabulario Portuguez e Latino (1712/1728):
HOMÓNYMO – Deriva-se do Grego Omos, semelhante, & onyma, que segundo o dialecto Eolio se diz em lugar de Onoma, nome, val o mesmo q cousa, que tem o mesmo nome, ainda q com diferente significação, v.g. a palavra latina Canis significa cão, peixe & hum dos astros celestes. Homonymus, a, um. Quintilian. Os nomes Homonymos, são aquelles, que significão muitas cousas, como este nome Palma, que siginifica a arvore, a victoria, & a palma da mão. Barreto Ortograph. da ling. Portug. pag. 37. Homonymo , & equivoco são o mesmo.
Definição transposta, com alguma diferença, por António de Morais Silva (1755/1824) para as duas edições do seu Diccionario da Lingua Portugueza (1789 e 1813) como se pode ler abaixo:
HOMÒNYMO, adj. Equivoco; i. é, termo que debaixo do mesmo som, tem diverso significado: v.g. palma, que no f. significa victoria; a palma no proprio; e no f. a da mão, &c.
organizamos, a partir da 2ª edição do Diccionario de Morais Silva, um corpus de aproximadamente 300 unidades lexicais, escolhidas aleatoriamente nos dois volumes do dicionário, que consideramos homônimas em virtude do tratamento lexicográfico dado pelo dicionarista brasileiro a estas unidades. São elas unidades homógrafas e homófonas registradas em entradas separadas no Diccionario e pertencentes a classes gramaticais diferentes.
Numa segunda etapa de nosso estudo, confrontamos essas mesmas unidades no Vocabulario com o objetivo de analisar o procedimento lexicográfico de Bluteau em relação ao procedimento adotado por Morais Silva.
À luz de algumas teorias lexicográficas e semânticas a respeito da homonímia e da polissemia, podemos tecer algumas considerações sobre: 1) o critério adotado por ambos os dicionaristas para o registro de unidades homônimas em cada dicionário; 2) o pensamento lingüístico que tais autores tinham sobre o fato lingüístico denominado homonímia; 3) a contribuição de Morais Silva à lexicografia portuguesa pós-Bluteau.
Do latim vulgar ao português actual.
Os Appendix Probi da língua portuguesa
António da Costa Pereira
Universidade do Minho
acpereira@ilch.uminho.pt
Apesar da polémica que o termo latim vulgar tem gerado (Väänänen 1985: 29-34), ninguém põe em causa que é a esta “variante falada do latim” que temos de associar a origem da língua portuguesa. “Língua por definição não-escrita” (Castro 1991: 90), o latim vulgar emerge, no entanto, de textos latinos do período clássico e imperial cujos autores, deliberadamente ou não, se distanciam das regras do latim literário.
Muitas e diversas são as fontes utilizadas no estudo do latim vulgar. Eis alguns exemplos: inscrições (lapidares, murais ou grafitti e tábuas execratórias ou defixionum tabellae), cartas pessoais (escritas por militares e comerciantes), obras técnicas (tratados de medicina, de veterinária, de agricultura, etc.), obras literárias (alguns passos das obras de Catulo, Cícero, Fedro, Horácio, Petrónio e Plauto; e obras de carácter religioso como a Peregrinatio ad loca sancta da monja Etéria e a Biblia Itala ou Vetus Latina), glosas (na Península Ibérica, as emilianenses e as silenses) e obras gramaticais (que têm no Appendix Probi o seu principal representante).
O que é o Appendix Probi? Só os “motores de busca” da Internet registam 425 sítios (cf. Google) mas a resposta pode ser sintetizada do seguinte modo: é uma lista de 227 pares de palavras, sendo a primeira forma tida como correcta (literária) e a segunda, geralmente influenciada pela pronúncia do tempo, como erro (Ex.: calida non calda). Mais: esta lista surge no final de um manuscrito da Biblioteca Vaticana (a Ars Vaticana), saído das mãos de monges italianos de Bobbio, nos séculos VIII-IX e é erradamente atribuída a um gramático que terá vivido em meados do século I d. C. – Valério Probo. O autor do Appendix será antes algum proprietário de um manuscrito da Ars, que, antes do século VIII e na qualidade de professor de gramática, terá elaborado e acrescentado “no final do seu manuscrito uma lista de erros frequentes cometidos na língua falada do seu tempo” (Castro 1991: 91).
Reconhecendo nós o carácter impositivo da língua (cf. Aguiar e Silva 1988-89: 18), quem serão os Appendix Probi do português actual? Os utilizadores da língua, em geral, mas sobretudo as entidades tidas como defensoras e promotoras da Língua Portuguesa: o Ministério da Educação, a Escola, os Professores, os Linguistas e, principalmente, os Gramáticos/Normativistas. As formas de actuação de cada uma destas entidades é, todavia, bem diferente. Para as distinguir, centraremos a nossa atenção preferencialmente nas duas últimas: Linguistas e Gramáticos/Normativistas. Como representantes dos linguistas, socorrer-nos-emos de João Andrade Peres e Telmo Móia (in Áreas Críticas da Língua Portuguesa); de entre os gramáticos/normativistas, seleccionaremos principalmente Celso Cunha/Lindley Cintra (in Nova Gramática do Português Contemporâneo) e Edite Estrela/Maria Almira Soares/Maria José Leitão (in Saber Escrever. Saber Falar). Como lidam eles com a noção de norma e de variedades linguísticas? Como entendem o conceito de “língua como organismo vivo”? Como encaram as oscilações ortográficas e fonológicas de *rúbrica/rubrica, *púdica/pudica ou *carácteres/caracteres? Como respondem a realizações frásicas como “Vendem-se/Vende-se apartamentos”, “Houveram muitos alunos”, “O livro que mais gosta” ou “Cê tá qui é pa quê?”? Será a estas e a muitas outras questões que procuraremos responder no “Colóquio de Homenagem a Amadeu Torres”.
Sobre os demonstrativos anafóricos discursivos em português:
domínios de referência e perspectivas de enunciação
Iris Susana Pires Pereira
Universidade do Minho
iris@iec.uminho.pt
Com esta comunicação, apresento e discuto uma proposta de análise do funcionamento do sistema tripartido dos demonstrativos anafóricos nominais em português. Esta análise é de natureza essencialmente pragmática e foi desenvolvida com especial referência ao funcionamento destas unidades lexicais em texto narrativo.
A partir da análise que Maes (1996) desenvolve para o sistema demonstrativo anafórico nominal bipartido do holandês, e atendendo às reflexões de Oliveira (1988) sobre as propriedades do sistema demonstrativo em português, proponho uma análise do funcionamento anafórico de este, esse e aquele que se ancora em duas noções centrais: a noção de domínios de referência e a noção de perspectivas de enunciação.
Maes baseia a sua proposta na pressuposição de que o uso de um demonstrativo implica simplesmente a associação do referente acedido com um domínio referencial particular instituído pelo texto, e identifica dois tipos de domínios referenciais com que os referentes podem ser associados através dos demonstrativos em textos escritos: um domínio constituído pela enunciação do próprio texto – Domínio Referencial Deictico; outro(s), pelo(s) estado(s) de coisas “representado(s)” pelo conteúdo do próprio texto – Outros Domínios Referenciais. Proponho neste texto que cada um dos três demonstrativos anafóricos do português se associa naturalmente com um destes domínios de referência.
Num segundo momento, procuro mostrar que os demonstrativos esse e aquele, que partilham o mesmo domínio de referência, são unidades diferenciadas e diferenciáveis a partir da noção de perspectiva de enunciação. Com base em dados do seu funcionamento em discurso indirecto, discuto a ideia de que ambas unidades lexicais servem a obtenção de efeitos pragmáticos distintos, que se traduzem numa maior ou menor aproximação do discurso relatado relativamente às personagens responsáveis por esse conteúdo discursivo.
A consideração dos factores domínio de referência e perspectiva de enunciação oferece enfim uma primeira explicação para a natureza escalar que Oliveira (1988) atribui ao sistema demonstrativo anafórico discursivo do português.
Alguns dados que servirão de base a esta discussão são os seguintes:
(1) “Foi assim que à, sobremesa, se entabulou o cavaco indecente que transcrevo, embora com um tal ou qual afogueamento de faces, por me parecer indispensável à claridade deste meu trecho de memórias”;
(2) “Resolvi evitar intimidades e ater-me ao isolamento próprio de quem, pobre e sem valimento, se encontra em terra hostil. Nessa disposição de espírito larguei a hospedaria e passei muitos meses, fugido a convivências e albergado, por preço módico, em casa de um guarda florestal”;
(3) “Monsenhor mostrou-me a preciosíssima colecção de moedas e o álbum de estampilhas, franqueando-me ao mesmo tempo a sua biblioteca, herdada de um tio- naquela família tudo passava de tios a sobrinhos-...”
M. Teixeira Gomes, “Gente singular”. In Ficções. Revista de Contos de Comer. Lisboa: Tinta Permanente, negrito meu.
André de Resende e o ensino do Latim:
o De coniugatione uerborum e outros textos
Virgínia da Conceição Soares Pereira
Universidade do Minho
virginia@ilch.uminho.pt
De entre as diversas áreas de interesse e actividade da multifacetada figura de André de Resende, conhecido humanista português do século XVI, avulta a de mestre de Latim de membros da nobreza e da casa real. Do seu magistério ficou essencialmente um opúsculo in-octavo, de cerca de quarenta fólios, intitulado De uerborum coniugatione commentarius, e editado em Lisboa no ano de 1540. Dedicado a Paulo António, mestre de gramática a quem Resende atribui a insistência para a publicação, a obra destinava-se a proporcionar um instrumento de trabalho à juventude estudiosa.
Como o próprio título sugere, trata-se de uma gramática sectorial, dedicada apenas à conjugação verbal. Mas este trabalho alia, à vertente morfológica (com apresentação da conjugação de todos os tempos e modos das quatro conjugações canónicas, e respectiva tradução em português), desenvolvidas e argutas considerações sobre o valor dos tempos e modos, apoiadas em usos devidamente documentados por meio de sistemáticas citações de passos, extraídos quer da(s) obra(s) de poetas e prosadores clássicos, quer, menos regularmente, de autores recentes. Essas considerações são ainda alicerçadas na opinião de gramáticos antigos e modernos.
Mais do que uma gramática normativa, com as suas regras, estamos perante uma gramática descritiva de usos, isto é, perante um estudo gramatical que envolve reflexão filológica e exemplificação de procedência clássica. Note-se que a preocupação de Resende com a elegantia de certos usos está muito presente ao longo do opúsculo.
Chamando à colação outros textos do mesmo autor, o objectivo da comunicação é relevar a possível originalidade de Resende, comparando a sua exposição e as suas ideias com a de gramáticos antigos e humanistas que o precederam, como Prisciano, Valla ou Nebrija.
Os Memoráveis de Xenofonte.
Como é que uma Chreia se transforma em Apomnemoneuma
Ana Elias Pinheiro
Universidade Católica Portuguesa – Viseu
apiedade@crb.ucp.pt
Ia avançado já o século IV a.C., quando o historiador grego Xenofonte de Atenas terá resolvido coligir em livro as Recordações que guardava do seu tempo de convivência com Sócrates, o filósofo que algumas décadas atrás os Atenienses tinham condenado à morte, num processo a que a história, coeva ou posterior, não ficou indiferente. Empenhado em reabilitar a memória do Mestre, Xenofonte relembra aos seus contemporâneos as qualidades de alguém que teria merecido da cidade maiores honras do que a morte:
Mem. 1.1.1. Muitas vezes me perguntei, admirado, com que argumentos aqueles que acusavam Sócrates convenceram os Atenienses de que a sua morte era um bem para a cidade.[…]
1.3.1. Como de facto me parece que Sócrates era um homem útil àqueles que o acompanhavam, quer pelo testemunho do seu comportamento, quer pelo que dizia, vou registar tudo quanto dessas memórias conseguir recordar.
Algumas destas memórias, contudo, poderão ter resultado de alargamento de pequenos episódios moralizadores, as chamadas chreiai, em que o filósofo seria personagem, e que davam agora corpo a um novo género literário, que, aceitando o testemunho de Diógenes Laércio (2.48) o próprio Xenofonte designara como Apomnemoneumata, ‘Coisas Memoráveis’: E ele foi o primeiro que transmitiu conversas tal como elas tiveram lugar, e as publicou chamando-lhes Recordações.
O que propomos é a análise de alguns dos diálogos socráticos que constituem essas memórias, para tentar reconstruir versões iniciais que, expandidas, possam ter dado lugar aos episódios narrados na obra do historiador.
Sociedade, cultura e estilo epistolar em Cataldo
Américo da Costa Ramalho
Universidade de Coimbra
Foi publicado recentemente o livro Cataldo Parísio Sículo, Epístolas. II Parte. Fixação do texto latino, tradução, prefácio e notas de Américo da Costa Ramalho e Augusta Fernanda Oliveira e Silva. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005, 293 páginas. A presente comunicação ocupa-se da algumas das cartas deste livro, analisadas no âmbito dos temas enunciados no título.
Jerônimo Soares Barbosa:
sua contribuição ao estudo e ao ensino do português no Brasil
Hilma Ranauro
Universidade Federal Fluminense
hilma.ranauro@ig.com.br
A Gramática Filosófica de Jerônimo Soares Barbosa apresenta posicionamentos que a ciências lingüísticas vem privilegiando em nossos dias. Nela se encontram teorias, propostas ou enfoques que vieram a ser modernamente defendidos por estudiosos que passaram a ser tomados como referência.
Algumas das propostas de Mattoso Camara Jr., eminente representante do Estruturalismo no Brasil, já se encontravam na GFLP. Estão lá, por exemplo, a discussão sobre ser ou não o artigo o determinador básico do gênero, bem como a proposta de uma reinterpretação da noção de gênero gramatical, apontando para a confusão que se veio a estabelecer entre gênero gramatical e sexo.
Ao contrário do que se firmou em nossa tradição gramatical, Barbosa não relaciona a noção de grau a um processo de flexão (inflexão, para ele), e sim de derivação. Tal como Edward Sapir, dentre outros, Barbosa relaciona o grau à significação do nome,.
Em seu estudo do verbo, um dos capítulos que estão a cobrar um estudo minucioso, Barbosa fala, com riqueza de detalhes, dos vários tempos e modos (características, empregos e usos) e estabelece a correspondência dos tempos do Indicativo entre si e entre os tempos do Indicativo e os do Subjuntivo.
A proposta de Camara Jr. para um agrupamento dos verbos ditos irregulares em paradigmas também está lá, na GFLP. Para esse estudo Barbosa apresenta vários critérios de sistematização.
Quanto a ser o verbo pôr um verbo de 2.ª conjugação, e não de uma 4.ª, como acreditavam alguns, apresenta dois argumentos: um argumento diacrônico (presença do e na forma primitiva poer), que se manteve em nossas gramáticas tradicionais, e um argumento sincrônico (“restos” dessa vogal nos adjetivos verbais: poente, depoente, oppoente, num processo de comutação semelhante ao que veio a estabelecer Mattoso Câmara: presença da VT -e em várias formas do verbo).
A divisão e classificação das preposições do português, num tipo de abordagem vulgarizado modernamente por Bernard Pottier (preposições do francês) e Maria Luiza Lópes (preposições do espanhol), são nela apresentadas, com minúcias de análise, quanto às preposições do português.
A GFLP deixou marcas nos modelos de descrição do português, malgrado o desconhecimento a que foi relegada. Deixou também vestígios no ensino da língua, especialmente na chamada Análise Sintática, durante muito tempo cavalo-de-batalha das aulas de português, até mesmo no hábito de praticá-la em trechos de Os Lusíadas. Essa prática perdurou, durante décadas, no ensino da língua, em todos os níveis.
Pretendemos pontuar aspectos que apontem para a contribuição de Jerônimo Soares Barbosa para o estudo e o ensino do português no Brasil. Cabe resgatá-lo e dar-lhe o lugar que lhe compete na Gramaticologia do português, posto que a ele muito deve nossa gramática tradicional, como buscaremos demonstrar.
Trata-se de um estudo qualitativo, utilizando a análise de conteúdo como elemento de investigação na busca do estabelecimento de diálogo entre a GFLP e textos de estudiosos e gramáticos contemporâneos brasileiros, com destaque para os de Joaquim Mattoso Camara Jr. Com ele buscaremos divulgar parte das conclusões expostas em nossa análise crítica e comparativa da GFLP, ainda inédita.
A retórica literário-cultural e A Arte Retórica de J. Luís Vives (1532): comunicação e públicos emergentes nas instituições do século XVI ou a didáctica e cultura da língua imaginativa comum
José Esteves Rei
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
jrei@utad.pt
Pretendemos sublinhar a inovação retórica, didáctica e pedagógica desta obra de Vives, no âmbito da renovação desta disciplina verificada no Renascimento, e a sua relação com as mudanças sociais da época. O princípio subjacente é o de que a língua de comunicação acompanha a evolução organizacional da sociedade.
Duas marcas dessa inovação verificam-se na redistribuição das partes da retórica clássica, inventio e dispositio, que o autor desloca para a Dialéctica, antecipando-se a Pedro Ramus, e naquilo que designamos como didactização da mesma, entre nós levada a efeito, mais tarde, por Jerónimo Soares Barbosa, originando o corpo curricular do ensino das línguas no liceu liberal e prolongado na actual escola secundária.
Pedagogo pessoal e de colégio, precursor de Montaigne, Bacon e Descartes e reformador do ensino e da educação, o seu horizonte é o homem novo renascentista, caracterizado pelo pragmatismo e a eficácia, mas também pela ortodoxia e a elegância.
À língua abstracta e à lógica racional da escolástica sobrepõe Vives uma língua comum concreta da experiência e da vida, das coisas e das instituições. Se a tradição filosófica repelia a linguagem comum imaginativa, como inadequada para a transmissão do saber, este espanhol emigrado defendia que o sábio apenas deve utilizar a palavra e a língua do povo: é nelas que se revela o falso, o provável e o verdadeiro.
Novas realidades acarretam outras formas de organização social, estas dão origem a diferentes funções sociais que, por seu lado, arrastam novos saberes, conducentes a verdades até aí desconhecidas, solicitando inovadoras linguagens: este é o lastro institucional das novas aplicações sociais da retórica ou uma nova organização desta, que denominamos literário-cultural ao serviço do Estado moderno emergente. Dela se desprende uma fala diplomática ao serviço da Realeza, do Estado ou da República, cujas virtudes recebem denominações várias, conforme a sensibilidade dos autores, e edificam o funcionário daquelas instituições, cuja tarefa é a comunicação do saber e da verdade: moralidade, modéstia, reserva, concisão; habilidade, dignidade, doçura e cortesia; afabilidade, moderação e benevolência; graça, autoridade, honestidade e integridade.
A metodologia segue de perto a análise de conteúdo, tomando em consideração a concepção e estrutura da obra, em estudo, a abordagem clássica da disciplina e o envolvimento social da época. Do percurso discursivo poder-se-á concluir que a actualidade do autor se entrevê na abordagem posterior da retórica e do seu ensino e, ainda, na construção do currículo das línguas tanto no liceu liberal como na actual escola secundária.
O Livro de Eclesiastes na sua vertente histórico-filológica
Manuel Augusto Rodrigues
Universidade de Coimbra
marodrigues@ci.uc.pt
Foi a todos os títulos notável a descoberta feita pelo Doutor T. F. Earle, professor de Estudos Portugueses na Universidade de Oxford, do «Livro de Eclesiastes» de Damião de Góis.
O erudito professor, que tão valiosos contributos tem prestado à Cultura Portuguesa, deu-o depois à luz da estampa em 2002 através da Fundação Calouste Gulbenkian (fac-simile da edição de Veneza, oficinas de Stevão Sábio, 1538; edição crítica com introdução e enriquecida com um glossário e bibliografia).
Pensámos oportuno na circunstância do «Colóquio “Gramática e Humanismo” de Homenagem a Amadeu Torres», brilhante estudioso da obra de Damião de Góis, abordar o «Livro de Eclesiastes”, essencialmente numa perspectiva histórico-filológica, tendo em atenção as interpretações do passado e a forma como o texto hoje é entendido à luz das novas aquisições histórico-linguísticas, nomeadamente do idioma hebraico, e também dos progressos da exegese contemporânea.
I. – O «Qohéleth», incluído na Bíblia Hebraica entre os «Escritos» («Khetubîm», grupo dos «Meghillôth»), intitulado «’Ekklesiastés» na versão grega dos Setenta e figurando aí entre os poéticos e na Vulgata (e Nova Vulgata) entre os sapienciais, foi desde a era patrística comentado por vários autores judeus e cristãos, por exemplo S. Jerónimo, Abraham Ibn Ezra, Robert Estienne, Johannes Campense, Nicolau de Lira, Sebastian Münster, Francisco Sánchez, Jerónimo Osório, Lutero e outros. Mas foi, indiscutivelmente, nos sécs. XIX-XX que se assistiu a um maior número de traduções, estudos e comentários ao «Qohéleth».
II. – São muitas as questões que se podem colocar a seu respeito: o nome, o conteúdo e finalidade, a atribuição salomónica, o autor e composição, a doutrina religiosa e moral, os supostos erros de «Eclesiastes», a canonicidade, e a língua e forma literária.
III. – Seleccionámos algumas expressões e vocábulos e procedemos à sua análise histórico-filológica, tomando como ponto de referência a versão goesiana e tendo em consideração o Texto Masorético (TM), os Setenta (LXX) e a Vulgata (e a Nova Vulgata); servimo-nos ainda de diversos comentários e estudos modernos.
IV. – O «Qohéleth» é um livro com características especiais e escrito num hebraico peculiar (com aramaismos e helenismos de permeio), difícil, como reconheceu Góis, cuja interpretação levanta não poucos problemas de que trataremos no nosso trabalho.
Visões do outro: o castelhano na óptica dos linguistas portugueses de quinhentos
José Luís Rodríguez
Universidad de Santiago de Compostela
fgfernam@usc.es
Nos inícios do discurso metalinguístico português, que se conforma no século XVI, ao lado da habitual correlação entre língua portuguesa e língua latina, decorre (em paralelo, mas por vezes até sobreposta) a específica correlação português – castelhano/”espanhol” (termo ainda ambíguo), explicável por condicionamentos histórico-culturais conhecidos nas suas linhas básicas. Nessa situação, a língua centro-peninsular é encarada em termos multifacetados que vão da admiração (explítica ou implícita) até à nítida rejeição, ao mesmo tempo que afloram, no plano endolinguístico, perspectivas contrastivas que implicam valorações e desnudam interferências, reais ou presumíveis. O castelhano, por outra parte, monopoliza como “Outro” o discurso pan-hispano português, apagando, praticamente, o eco dos restantes idiomas peninsulares. Salientam-se, finalmente, algumas respostas castelhanas ao discurso das excelências portuguesas, com vista à sua neutralização, entre as quais destaca a teoria do castelhano primitivo de López Madera, dada a lume em 1601, que teve alguma voga na altura”.
Referencias (in)directas ao galego nos estudos
lingüísticos portugueses dos séculos XVIII e XIX
Xosé Manuel Sánchez Rei
Universidad de Coruña
sanrei@udc.es
Contrariamente ao que aconteceu noutras linguas románicas, cal o italiano, o francés etc., a póla setentrional do galego-portugués medieval, o galego, non coñecerá as súas primeiras gramáticas até a segunda metade do século XIX. Isto fai que, en ocasións, para coñecermos como podería ser o estado da lingua durante o devandito século, e tamén durante os inmediatamente anteriores, teñamos de recorrer tanto ás fontes conservadas, isto é, aos textos literarios, canto ás gramáticas portuguesas, nomeadamente naqueles aspectos fonéticos e morfolóxicos que non corresponderen ao estándar lingüístico conformado arredor do eixo Lisboa-Coímbra.
Así, a existencia dunha tradición gramatical lusitana desde 1536 coa publicación da Grammatica de João de Oliveira, mantida ininterrompidamente até a actualidade, permite aproximármonos do estado da lingua (popular) galega, xa que compartilla a maior parte dos trazos de carácter rexional ou vulgar que se tamén atestan no portugués. O noso obxectivo é salientarmos precisamente esas características que se comentan ou mesmo que se condenan como fenómenos dialectais e populares da variedade lusitana, pois moitos van presentar certas correspondencias na ribeira norte do río Miño; deste xeito, a se ter presente esa información que nos proporcionan os gramáticos de Portugal, xuntamente cos textos literarios que existen no galego, tamén se poden apuntar algúns datos valiosos para caracterizaren a linguaxe popular da Galiza.
Por outro lado, son así mesmo de utilidade os traballos de dialectoloxía desenvolvidos por José Leite de Vasconcellos nos finais do século XIX e nos comezos do XIX: resultan rendíbeis para o estudo tanto do galego como do portugués porque, en primeiro lugar, máis unha vez, aparecen fenómenos rexionais ou populares que non coincidían coa variedade padrón lisboeta, o que levou o autor a comentalos ou a singularizalos; e en segundo lugar, tamén máis noutra ocasión, a maior parte desas casuísticas encontra no galego os seus equivalentes, o que os vira úteis para nos achegarmos ao estado lingüístico da Galiza nesa época. Así, por exemplo, se xa J. Contador de Argote, no século XVIII, ou J. Soares Barboza, na centuria seguinte, atiraban setas académicas contra “os rusticos”, “os Minhotos” ou “os Algarvios” xustamente por que se detectaban na fala desas xentes fenómenos de carácter popular ou rexional, o Dr. Leite de Vasconcellos, cunha preparación filolóxica e dialectolóxica superior, vai documentar outravolta casuísticas igualmente rexionais e populares comúns no galego no referente á flexión verbal, ás tipoloxías de pronomes etc.
Da comparación das dúas marxes do río Miño canto a esa compoñenete lingüística sae como conclusión provisoria a circunstancia de que todo canto se encontrar no galego tamén se acha no portugués, e viceversa, pois todo o que se atopar no portugués existe tamén no galego. O que os diferencia é, no entanto, a distinta sorte corrida por eses fenómenos, de forma que o que actualmente na Galiza pode ser minoritario, rexional, popular etc. pode ser, en Portugal, común, estándar, habitual etc., e o que neste país pode ser esporádico, marxinal, local etc., pode encontar un equivalente habitual ou padrón na Galiza.
Martín de Braga, el primer humanista de la Gallaecia en el siglo VI
E. SÁNCHEZ SALOR
Universidad de Extremadura – España
esanchez@unex.es
El profesor Amadeu Torres ha dirigido una de sus líneas de investigación hacia temas bracarenses, con especial atención a los primeros siglos de la Iglesia de Braga y, en concreto, el historiador Orosio. Por ello me permito presentar un trabajo que se mueve en esa línea de temas bracarenses y localizado en los primeros siglos de la Iglesia de Braga y de la Gallaecia.
Martín de Braga es arzobispo de la metrópolis religiosa de Braga a mediados del siglo VI. No hace falta ponderar con palabras la importancia de este personaje para la historia de la Hispania antigua y, en concreto de, la zona noroccidental de la península. Sí voy a analizar en este trabajo la figura de Martín en dos aspectos que yo considero interesantes: por una parte es el primero que abre las mentes de los obispos gallegos e hispanos a los preceptos y normas aprobados por la iglesia oriental en diferentes concilios ecuménicos, es decir, es el primero que en Hispania practica y representa el ecumenismo; y, por otra, es también un hombre de la tierra bracarense del siglo VI en la que vive y enseña y que trata de mejorarla. Su universalismo y sus conocimientos del griego le convierten en el primer humanista de la Gallaecia; ello se expresa sobre todo en las Actas del Concilio II de Braga, que él preside y dirige, y en los Capítulos traducidos de Concilios orientales que él mismo añade como anexo a los propias actas del mismo Concilio. La misma labor universal y humanista que hace Martín de Braga entre los suevos la hace, esa misma labor es la que lleva a cabo por los mismos años Leandro de Sevilla entre los visigodos; lo que sucede es que Leandro de Sevilla practica la apertura hacia Oriente y hacia Bizancio desde una perspectiva político-religiosa y Martín de Braga lo hace desde una perspectiva fundamentalmente canónica desde sus conocimientos del griego y su aperturismo humanista.
A edição dos documentos foraleiros de Trás-os-Montes e Alto Douro
insertos na Chancelaria de D. Dinis
Maria Olinda Rodrigues Santana
Ana Lúcia Pereira Costa
Mário José da Silva Mineiro
Universidade de Trás-os-Montes
osantana@utad.pt
O primeiro passo da nossa investigação consistiu na pesquisa e arrolamento da documentação foraleira medieval outorgada a Trás-os-Montes e Alto Douro por D. Dinis e incluída nos 6 livros da sua chancelaria.
Foram inventariados e reunidos 101 documentos foraleiros colectivos compostos por diferentes tipos de documentação (forais, aforamentos colectivos, cartas de escambo, cartas de sentença, mudança, cartas de mercê, etc.), associados à formação dos concelhos ou lugares de Trás-os-Montes e Alto Douro. Constituímos também um rol de documentos foraleiros individuais, mas como estes documentos não estiveram na base da criação de concelhos transmontanos e durienses, integrarão um outro projecto.
Procedemos, igualmente, à distribuição dos documentos pelos dois actuais distritos da região (Vila Real e Bragança) de acordo com um critério geográfico.
Por fim, realizámos uma Edição Tipo 3 – paleográfica com transcrição larga em tipo normal seguindo os critérios propostos por António Emiliano (EMILIANO 2002). Optámos por este tipo de edição, porque esta apresenta um grau razoável de fidelidade aos dados textuais: um dos principais objectivos a respeitar numa edição conservadora para fins científicos. O nosso corpus de documentação foraleira dionisina integra o “corpus diacrónico do português” que está a ser construído por Michael Ferreira do “Department of Spanish and Portuguese” da “Georgetown University”.
Considerámos ainda necessário realizar uma segunda edição interpretativa para divulgação da mesma documentação junto de um público mais alargado.
Por último, forneceremos um exemplo de cada um dos tipos de edição aplicados na nossa investigação.
Pedro Veiga: um humanista português editor da Arte Poética de Horácio
Rui Manuel Formoso Nobre Santos
Instituto Politécnico da Guarda
rmfns@ipg.pt
Entre os séculos XIV e XVII, o humanismo desempenhou um papel primordial no desenvolvimento da cultura europeia. Nos seus inícios, o movimento caracterizou-se pela vontade em recuperar, interpretar e imitar os textos da antiguidade, bem como pelo estudo dos seus restos arqueológicos; contudo, pouco tardou a que se activasse um ambicioso programa cultural que influenciou praticamente todas as facetas da vida intelectual do Renascimento.
Apesar de algum atraso, Portugal não se manteve alheio aos aspectos acabados de apontar. Deles, o assunto que me proponho tratar inclui-se no primeiro, a recuperação e, até certo ponto, interpretação de textos de autores greco-latinos, no caso, de Horácio, através da sua De Arte Poetica, texto primordial da teorização literária renascentista.
É certo que não podemos encontrar, em todo século XVI português, uma reflexão independente e autónoma que permita chegar a um conjunto de leis teóricas, mais ou menos definidas, sobre a criação poética, já que os manuais de teoria eram praticamente inexistentes. Se algo havia, não ultrapassava o âmbito limitado de certos capítulos que, na tradição do ensino da Gramática, se dedicavam ao estudo da versificação. Mesmo assim, os poucos preceitos teóricos sobre que se estruturava o ensino da Poética derivavam, em Portugal, como no resto da Europa, das obras dos principais teorizadores greco-latinos, sobretudo das Poéticas de Aristóteles e Horácio.
Destes, o mais importante é sem dúvida Horácio com a Epistula ad Pisones, no dizer de Aguiar e Silva, “o evangelho de ideias literárias para as primeiras gerações de humanistas da Renascença”5.
É partindo deste princípio, – de que a obra horaciana constitui o texto principal da teorização literária em Portugal e na Europa –, que procurarei lançar alguma luz sobre uma das três edições do século XVI6 do texto horaciano, em causa, a publicada, no ano de 1578, em Antuérpia, pelo português Pedro Veiga.
A abordagem da edição quinhentista do autor português na diáspora compreenderá
– a apresentação, dado o desconhecimento quase geral, dos poucos dados biográficos (económicos e culturais…) acerca de Pedro Veiga;
– a contextualização histórico-espacial da edição, que justifica a dedicatória, em texto autónomo e programático, a D. Matias, filho do Imperador Maximiliano II;
– a ponderação do grau de intervenção do editor quinhentista e a sua fidelidade à teoria original, através do confronto da Poética horaciana de Pedro Veiga com o texto canónico.
Para a história da gramática escolar portuguesa:
manifestações de um ‘mito do eterno retorno’ (o mito da gramática IV)
António Carvalho da Silva
Universidade do Minho
acsilva@iep.uminho.pt
Quando se procede à definição teórica do âmbito do ensino do Português (língua materna), aceita-se que o domínio do ensino da gramática (ou do “funcionamento da língua”, como a escola eufemisticamente a designa) se vai instituindo como um “ritual gerado e alimentado na tradição” (Sousa, 2000: 536). Em simultâneo, propõe-se a existência de um “mito da gramática (perfeita)” (Silva, 2004) que fundamenta aquele rito escolarmente repetido.
Depois de, em trabalhos anteriores, termos debatido os fundamentos desse “mito da gramática” (descrevendo as funções da gramática escolar, discutindo o seu papel normativo e avaliando a presença do tema “gramática” no discurso científico), desta feita dedicaremos alguma atenção aos aspectos históricos da gramática escolar, tentando delinear o seu sucesso editorial.
Assumindo, como hipótese, que a publicação (e sobretudo a reedição) de uma gramática escolar pode imaginar-se como a “repetição de um exemplar mítico” (Eliade, 1988: 19), temos como finalidade descrever a mudança ou a permanência histórica das gramáticas portuguesas, procurando compreender qual das forças tem mais poder na constituição histórica da gramática escolar: a tradição ou a inovação.
Adoptámos neste estudo, numa primeira fase, um método historiográfico, identificando as diferentes edições e tiragens de um corpus de cerca de duas dezenas de gramáticas escolares portuguesas, publicadas desde 1970, actualmente ainda em circulação e que correspondem ao universo das gramáticas escolares portuguesas para o 3º Ciclo e para o Ensino Secundário.
Numa segunda fase, usando um método de análise contrastiva, procuramos determinar as versões (ou seja, as publicações com alterações textuais) de cada uma das gramáticas que constituem esse corpus.
Apresentar-se-ão, pois, nesta comunicação alguns dados dessas duas dimensões da análise que está ainda em desenvolvimento. Mesmo que provisória, a principal conclusão a que se chegará é que a (re)publicação de gramáticas escolares (mesmo com a existência de “novos programas” a que a gramática escolar discursivamente se diz submeter) parece ser, de facto, a manutenção do ritual de eterno retorno às origens de um modelo de gramática que sói designar-se tradicional.
Se, como afirma Cardoso (1994: 13) na sua Historiografia Gramatical que tomaremos como referência, este de tipo de estudos “não é nem pode ser um trabalho acabado”, porque “há ainda muitas pesquisas a fazer”, poderemos, pelo menos, começar assim a compreender melhor a organização intrínseca da “instituição” gramática escolar (portuguesa), que, salvo raras excepções, permanece igual a si mesma neste dealbar do século XXI.
Gramática e contexto: descontextualizar ou recontextualizar?
Augusto Soares da Silva
Universidade Católica Portuguesa – Braga
assilva@facfil.ucp.pt
Entendendo contexto como ambiente sócio-cultural da linguagem, como nível performativo do uso linguístico e ainda como bases cognitivas e experienciais dos falantes, deve a Gramática descontextualizar ou (re)contextualizar? A resposta será dada em dois planos: historicamente, procurando interpretar os grandes momentos do desenvolvimento da Gramática, e programaticamente, identificando os que já são e os que aspiram a ser os principais programas de análise gramatical.
Depois de uma gramática em contexto(s), como foi a gramática tradicional e a gramática histórica, assistimos, ao longo do século XX, a uma sucessão de movimentos de descontextualização e recontextualização da gramática, nomeadamente a gramática dividida (Saussure), a gramática isolada (Chomsky) e a gramática recontextualizada (linguística pós-chomskyana). O movimento descontextualizador tem a sua expressão mais elaborada na Gramática Generativa: a perspectiva genética assumida por Chomsky decorre da sua falta de interesse pela dimensão sócio-cultural da linguagem e conduz a uma des-semantização da gramática. A recontextualização da gramática tem sido feita nas últimas duas décadas, pela reintrodução do léxico na gramática, pela assunção da centralidade do significado na arquitectura gramatical, pelo restabelecimento da ligação entre gramática e performance e, embora ainda como tendência minoritária, pelo renovado interesse pelos fenómenos sociogramaticais e reintrodução da análise variacionista.
Argumentar-se-á a favor de uma gramática recontextualizada e mostrar-se-á que é o recente paradigma da Linguística Cognitiva o que melhor corporiza estes quatro programas de recontextualização. Finalmente, como aplicação do último programa recontextualizador - o variacionista -, apresentaremos os elementos para o estudo da convergência e divergência na Gramática do Português, envolvendo as variedades europeia e brasileira.
Influências da Eneida, de Virgílio, na catábase d’ Os Lusíadas, de Camões – uma proposta de abordagem escolar
Lino Moreira da Silva
Universidade do Minho
lmoreira@iep.uminho.pt
É de aceitação comum a actualidade da cultura clássica, do grego e do latim, e das realizações literárias clássicas do Renascimento, e a sua importância na formação dos indivíduos e na construção de sucesso educativo na escola.
Ora, a cultura clássica não é, hoje, convincentemente focalizada em termos educativos. Os programas de ensino pouco a recomendam, os professores não se lhe referem e estão cada vez menos preparados para o fazer, os alunos não se sentem motivados para ela. Por isso, está a passar à margem das escolas esse insubstituível veículo de informação, formação, transmissão estético-literária e cultural que a cultura clássica representa.
Importando denunciar (e contrariar) a situação, e valorizando a nossa epopeia nacional (uma epopeia renascentista), o autor da presente comunicação vai retomar o importante, embora pouco estudado, “episódio” da catábase marinha (canto VI, de Os Lusíadas), na relação que ele tem com a Eneida, de Virgílio, para:
a) Procurar combater, fundamentadamente, os pressupostos apresentados.
b) Justificar que, embora a catábase de Os Lusíadas não seja coincidente com a catábase da Eneida (esta constitui-se na parte ideologicamente mais significativa da obra, enquanto que a de Os Lusíadas se fica por um segundo consílio dos deuses, desta vez realizado no mar), há entre ambas aproximações que é preciso pôr em destaque.
c) Sistematizar, especificamente, as influências (directas e indirectas) da Eneida, de Virgílio, sobre a catábase de Os Lusíadas (semelhanças, diferenças, interacções).
d) Enunciar uma proposta de abordagem textual, para o episódio camoniano, capaz de motivar e fundamentar o seu estudo e o estudo da relação que o mesmo episódio estabelece com a epopeia virgiliana.
Dos mitos em Camões a Camões mito
Maria Luísa de Castro Soares
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
tanitik@gmail.com
Dos mitos em Camões a Camões mito Camões compreendeu, perpetuou e recriou a mitologia Antiga e ele próprio se tornou modelo mítico. Nas Rimas e n’ Os Lusíadas dá a conhecer ao leitor, instrumentalizando-a, a mitologia clássica para depois da morte – e devido a uma biografia lacunar – se tornar ele mesmo, enquanto homem e poeta, um mito popular e literário. A fortuna literária de Camões, mal reconhecida em vida, elevou-o post mortem a símbolo de portugalidade e da consciência poética. É como se a obra camoniana desse resposta a cada um dos poetas posteriores ou lhes abrisse campo a explicações, interpretações ou aproveitamentos ao sabor das circunstâncias epocais. Ao dar sentido mítico à história nacional, através d’ Os Lusíadas, Camões com a sua obra tornaram-se para a comunidade portuguesa arquétipos ou modelos míticos dessa mesma comunidade. Daí que, de século para século, Camões e Os Lusíadas sejam identificados com um povo inteiro. A dimensão mítica da biografia camoniana, a obra lírica e sobretudo a fortuna literária da sua epopeia, «Bíblia da Pátria» e espelho em que todo um povo se revê são importantes para os «exegetas» do mito e para os defensores de uma verdadeira ontologia da portugalidade.
Cognição e categorias: os conceitos de “fruto” e “fruta”
José Teixeira
Universidade do Minho
jsteixeira@ilch.uminho.pt
Através da análise dos resultados de algumas centenas de inquéritos sobre o conceito de “fruto”, procurar-se-á pôr em relevo como é que, para a Linguística Cognitiva, a conceptualização é o resultado de interacções entre os mecanismos linguísticos e os restantes mecanismos cognitivos, organizando-se, as categorias resultantes, em blocos de estrutura prototípica.
A organização prototípica das categorias pode ser, assim, bastante reveladora da forma como a lexicalização linguística é simultaneamente resultado e causa das percepções que uma comunidade linguística tem do mundo e das vivências sobre ele construídas. Noções como a de “significado corporizado” são, para a perspectiva cognitiva, o reflexo de que não é possível separar de forma rígida, como as semânticas de fundamentação lógica o pretendem, o conhecimento linguístico e o chamado “conhecimento do mundo”.
Pedro João Perpinhão, historiador
Helena Maria Ribeiro Almeida Costa Toipa
Universidade Católica Portuguesa – Viseu
helenacosta@crb.ucp.pt
Esta comunicação pretende revelar os critérios adoptados pelo padre jesuíta Pedro João Perpinhão (orador valenciano do século XVI, residente durante alguns anos em Portugal, escolhido pela Companhia de Jesus para as ocasiões solenes, e professor do Colégio das Artes, em Coimbra, entre 1555 e 1560) na composição da sua monografia sobre a vida da Rainha Santa Isabel (De uita et moribus B. Elisabethae Lusitaniae Reginae libri III).
A partir da análise deste texto e de outros textos do mesmo autor, pretendemos tirar algumas conclusões sobre a influência dos autores clássicos (Cícero, Luciano, Tito Lívio, entre outros), na forma como Perpinhão traçou a biografia da Rainha Santa. Salientar-se-ão, no texto em análise, a fidelidade às fontes escritas e a confiança os documentos; a dúvida razoável na aceitação da tradição oral; a necessidade de distinguir história e lenda; a valorização da experiência pessoal e do testemunho presencial; o desejo de rigor; a noção da história como repositório de exemplos instrutivos a seguir ou a evitar; a situação no espaço e no tempo dos acontecimentos; a descrição de locais e monumentos; o uso do discurso directo. Estes critérios serão relacionados com os dos autores clássicos, recorrendo nomeadamente aos textos dos historiadores antigos, que Perpinhão tão bem conheceria, pela sua formação e pelo seu magistério, uma vez que esses mesmos autores faziam parte dos planos de estudos do Colégo das Artes (como se pode constatar num opúsculo do próprio Perpinhão intitulado De ratione liberorum instituendorum litteris Graecis et Latinis, siue Epistola Petri Perpiniani ad Franciscum Adornum) e nos de outros colégios de jesuítas.
Poética trágica e clássica no teatro bíblico dos jesuítas
Margarida Miranda
Universidade de Coimbra
mlopesmiranda@sapo.pt
As primeiras tragédias jesuíticas representadas em Portugal, no Colégio das Artes de Coimbra, em 1559 e 1562, foram também as primeiras tragédias que a Companhia de Jesus fez representar em Roma, no Colégio Germânico, para depois promover aquele género dramático e musical na sua vasta rede de estabelecimentos escolares, em toda a Europa, muito antes da criação definitiva da Ratio Studiorum.
A minha comunicação pretende descrever a concepção poética e dramática daquele género que, além de ter aberto caminho na Europa para o drama per musica, veio a alcançar uma dimensão internacional nunca antes alcançada pela produção literária jesuítica.
Trata-se, na verdade, de um teatro nascido no meio escolar, integralmente em língua latina, mas nem por isso destituído de valor artístico intrínseco, e de um grande potencial de espectacularidade
Os mitos e motivos clássicos eram naturalmente um elemento indispensável na inuentio e na elocutio trágicas renascentistas. O mais notável, porém, é que o dramaturgo jesuíta em análise – Miguel Venegas, a quem podemos considerar o criador do género, um jesuíta formado no humanismo de Alcalá de Henares, no seio do qual nascera a famosa Poliglota Complutense – o tenha feito numa tragédia sacra, de inspiração rigorosamente bíblica.
Por outras palavras, pretende-se demonstrar como o poeta soube descobrir na história bíblica as matrizes do género trágico pagão, e produzir um teatro de objectivos catequéticos e moralizantes mas ao mesmo tempo artísticos e profundamente retóricos. Na descrição desta poética trágica será dado particular relevo à elaboração poética do horrendo, um aspecto intimamente ligado à moderna teorização literária sobre a tragédia., e concebido como instrumento de exaltação de sentimentos e de edificação moral.
Miguel Venegas mostra conhecer bem as exigências do género trágico. Mostra uma concepção trágica reflectida, distante das formas híbridas que caracterizavam o teatro jesuítico em Espanha, mas também distante das tragicomédias do seu mais célebre discípulo, Luís das Cruz. Para esse efeito concorre uma ousada síntese entre a imagética bíblica cristã e a imagética clássica pagã, uma síntese que se estende desde a mais simples evocação de nomes e de motivos poéticos até à mais complexa construção de personagens que recriam as grandes personagens do imaginário clássico (Medeia, Clitemnestra, Dido, Tirésias, Atreu, são representadas quais alegorias trágicas, sob o nome de Jezabel, de Elias e de Acab).
Paralelismos de personagens e de situações bíblicas ofereciam ao poeta poderosas afinidades com o género trágico antigo, sem deixar de obedecer simultaneamente à mais rigorosa e actual sensibilidade exegética, e aos mais inovadores preceitos estético-literários.
O Ignatiados (1635) de António Figueira Durão
Carlota Maria Lopes de Miranda Urbano
Universidade de Coimbra
camirurb@ci.uc.pt
Esta comunicação propõe-se apresentar um poema épico novilatino em três cantos, o Ignatiados, cujo herói é fundamentalmente (mas não só) St.º Inácio de Loiola. Escrito por António Figueira Durão, um jovem estudante de um Colégio da Companhia de Jesus, como pretendemos demonstrar nesta comunicação, o Ignatiados apresenta-se como uma obra de muito interesse a vários títulos. Ele começa por resultar de um exercício literário, o que faz dele um documento da pedagogia do seu tempo, para se afirmar como um esboço da epopeia da Companhia de Jesus em que nenhuma das vertentes desta Ordem religiosa é esquecida. Como poema hagiográfico o Ignatiados revela-se bastante original no conjunto dos poemas heróicos sobre St. Inácio já existentes à altura. Ele é o primeiro, tanto quanto sabemos, e único em Portugal, composto no metro e língua latinos e denuncia claramente a sua filiação na épica de cunho renascentista, fiel à tradição clássica.
Pouco tradicional enquanto poema hagiográfico e emulador dos cânones clássicos, o Ignatiados é um documento da fecunda interacção entre o imaginário clássico e o imaginário cristão, entre as fontes literárias clássicas como a Eneida de Virgílio, ou a Farsália de Lucano, as fontes literárias hagiográficas, como a biografia de St. Inácio de Pedro Ribadeneira e as ressonâncias do corpus bíblico.
Enquanto documento da hagiografia coeva das reformas católica e protestante, o Ignatiados constitui mais do que um eco das polémicas doutrinais e das lutas religiosas. Mais interessante ainda é o facto de este poema épico deixar transparecer com notável clareza o evidente cruzamento entre as noções de heroísmo e de santidade que caracteriza os séc. XVI e XVII da cultura ocidental na sua interpretação da santidade em clave heróica.
(Footnotes)
1 Dissertação de mestrado em Linguística Portuguesa apresentada, em 1999, à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra com o título.
A morfologia verbal do galego-português.Contributos para um estudo sincrónico-descritivo, realizada sob orientação científica da Professora Doutora Clarinda de Azevedo Maia.
2 Para que os participantes possam acompanhar a leitura da comunicação, ser-lhes-á fornecido um documento com exemplos de formas verbais e respectivas abonações.
3 Sá de Miranda, Obras Completas, II vols., Sá da Costa, Lisboa, 1937.
4 Maria Leonor Carvalhão Buescu, Literatura Portuguesa Clássica, Universidade Aberta, Lisboa, 1992.
5 Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da Literatura, Coimbra, Almedina, 1991, p.509.
6 Duas outras edições, estas comentário, são da responsabilidade de Aquiles Estaco, publicada em 1553; e de Tomé Correia, em 1587.
COLUNA DE LÍNGUA PORTUGUESA*Antonio Martins de Araujo (A.B.B. / A.M.L / ANPOLL
Especial para o Correio dos MunicípiosColóquio Internacional de Língua Portuguesa