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- COLUNA DE LÍNGUA PORTUGUESA - Colóquio Internacional de Língua Portuguesa


Publicada em: 1 de novembro de 2005
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CONTINUAÇÃO

As questões de método, razão e uso na produção gramatical portuguesa do século XVII
Maria do Céu FONSECA
Universidade de Évora
ceufonseca@netcabo.pt

Quando, no artigo «Méthode» da Encyclopédie, o filósofo e cientista d’Alembert observou que “Tout le monde connoît les méthodes estimées de P. R. pour apprendre la langue grecque, la latine, l’italienne, & l’espagnole”, afigura-se que o viés da mera alusão dispensaria à época maiores explicações sobre títulos de consagrados gramáticos portroyalinos, bem como sobre o fluxo de gramáticas que, depois do Discurso do método (Descartes, 1637) e até ao fim do século XVII, ostentarão nas portadas a designação de método (ou metódico). É certo que a importância do conceito de ‘método’, enquadrado no âmbito da lógica, cresceu à medida do reformismo iluminista. Assim o vemos na Encyclopédie méthodique (1782–1832), herdeira da de Diderot e d’Alembert, ou, entre nós, na obra de Luís António Verney Verdadeiro método de estudar (1746). Mas notar-se-á no trabalho ora proposto, que tal reflexão surge sob a sugestão de produção gramatical seiscentista, nomeadamente das obras de Port-Royal – a gramatical e a lógica –, e na alçada da problemática por elas destilada. Acresce ainda a influência da obra de Descartes no fervor por um método racionalista de investigação, conquanto as ideias de universalidade e racionalismo gramaticais já viessem de trás. Em Portugal, desde o primeiro vinténio de Seiscentos que propostas de ‘métodos gramaticais’ começam a pautar a descrição das línguas (clássicas e modernas), por influência do francês Pierre de la Ramée e do espanhol Francisco Sanchez. Daqui e durante toda a centúria, como se verá nesta comunicação, a produção gramatical portuguesa apresentar-se-á marcada pela relação entre o método gramatical e o desejo de racionalizar a gramática, situando-se esta entre a tradição humanística do bom uso e a concepção de que a gramática apresenta uma parte explicativa, da ordem da razão.

A Filologia ao serviço da História na obra de Fernando Oliveira
José Eduardo FRANCO
Universidade Católica Portuguesa – Lisboa
edfranco@sapo.pt

Fernando Oliveira (c. 1507 – c.1582) é um dos humanistas mais originais e mais controversos, mas também um dos menos conhecidos do século de Quinhentos. Além de se ter tornado perito e produtor de conhecimento na arte de navegar e na engenharia da construção naval, começou a sua produção escrita com a elaboração da primeira gramática de Língua Portuguesa em 1536 e terminou a sua carreira com a redacção da primeira História de Portugal entre 1579 e 1582.

A Filologia e a História são duas áreas destacadas da produção de saber por parte dos Humanistas. Fernando Oliveira assume bem o paradigma do humanista que irmana estas duas áreas de conhecimento para estabelecer uma determinada visão mítica da História do Reino de Portugal e tomar posição polémica contra os historiógrafos, particularmente castelhanos, que estabeleceram leituras diferentes da historiogénese e da sociogénese da nação portuguesa integrada na Cristandade ibérica.

A metodologia filológica de descodificação etimológica dos topónimos e dos etnónimos está presente ao longo de toda a obra. Esta serve tanto para apurar, por exemplo, a origem do nome de uma cidade e, por este meio, determinar a sua antiguidade, como para revelar o significado da raiz de um étimo do nome de um povo ou de um reino, e daí extrair ilações, desenvolvidas ideológica e polemicamente ao serviço da defesa de uma perspectiva e da refutação de outra.

A língua, enquanto veículo de história e de cultura, é entendida como um depositário vivo, análogo a uma banda magnética, diríamos hoje, que transporta a memória da nação, os elementos da sua identidade e as marcas da sua antiguidade. Este entendimento, bem patente no filologismo historiográfico dos eruditos do Humanismo, moveu-os numa das mais obsessivas especulações etimológicas ao serviço da perscrutação das origens mais remotas. Lucien Febvre comenta a este propósito: “Língua e nação – «estas duas coisas estão em parte ligadas». A história da língua pressupõe a da nação. Mas, inversamente, quem faz a história da língua escreve em parte a da nação”.

Assim sendo, a nossa comunicação pretende analisar de que modo e com que fins a Filologia é colocada ao serviço da História e a História ao serviço da Filologia na obra de Fernando Oliveira. Esta particular interdisciplinaridade é incrementada com o escopo do estabelecimento de uma leitura peculiar do passado e identidade portuguesas, assim como em prol da valorização da Língua Portuguesa como língua por excelência da modernidade e dos novos tempos da proto-globalização inaugurados pelos Descobrimentos.

Incidiremos o nosso trabalho hermenêutico essencialmente sobre a Gramática e a História de Portugal de Fernando Oliveira editada na sua globalidade recentemente a partir da transcrição do manuscrito patente no Fundo Português da Biblioteca Nacional de Paris.

O galego de Portugal. Algunhas consideracións sobre a lingua galego-portuguesa na época medieval
Xosé Ramon FREIXEIRO MATO
Universidad da Coruña – España
freixei@udc.es

Existe hoxe na Galiza un sector do movemento reintegracionista que é partidario da plena asunción polo galego do código escrito portugués, directamente, e que utiliza como denominación para a lingua propia desta comunidadade a de ‘o portugués da Galiza’. Sen me manifestar contrario ao obxectivo final da reintegración ou reunificación gráfico-lingüística entre o galego e o portugués, isto é, sendo tamén defensor de aproximar todo o posíbel o galego do portugués até se confundir con el, como dicía Castelao, reivindicarei no entanto nesta comunicación a denominación primixenia de ‘galego’ como nome orixinario do complexo lingüístico xerado na Gallaecia histórica e que hoxe é falado en Portugal, no Brasil e noutros países do mundo. Por tanto, aínda comprendendo en parte as razóns políticas de denominar como ‘portugués’ esta lingua falada en varios continentes, pretendo mostrar as razóns histórico-filolóxicas que xustificarían o nome de ‘galego’ e reivindico a súa utilización exclusiva na Galiza, independentemente da norma de representación gráfica utilizada.

Así pois, baixo o título, en certo modo provocador, de ‘galego de Portugal’, quero chamar a atención para o feito de a Galiza ter desempeñado un papel fundamental na xénese de Portugal como reino independente e de o primitivo galego ser a base do portugués falado na actualidade. Para iso será preciso repararmos na importancia histórica do reino da Galiza, en moitos casos ocultada ou manipulada pola historiografía castelanista, subliñarmos a utilización da denominación de ‘galego’ nas primeiras referencias explícitas ao idioma das cantigas trabadorescas e analisarmos a conversión do galego(-portugués) medieval en lingua lírica peninsular, acudindo tamén ao criterio de investigadores portugueses como dona Carolina Michaëlis de Vasconcellos, José Mattoso ou Rodrigues Lapa, entre outros, para alén do británico Colin Smith e dos máis destacados pensadores da Galiza dos tres últimos séculos. Neste sentido, serán tomadas en consideración as ideas a respecto da lingua galego-portuguesa de autores como os Padres Feijoo e Sarmiento, do século XVIII, Murguía no XIX e Castelao ou Carvalho Calero no XX.

En conclusión, os obxectivos da comunicación son o estudo da orixe común do galego e do portugués como lingua da Gallaecia, a análise da súa unidade e proxección peninsular no período medieval, e a relevancia da marca ‘galego’ nese primitivo romance ibérico noroccidental que serviu de base para o sistema lingüístico galego-portugués actual. A metodoloxía consistirá na procura de documentación e testemuños medievais que sirvan de aval para as hipóteses consideradas, así como no recurso ao criterio de autoridade dalgúns dos máis reputados estudiosos do tema. Os resultados que se esperan obter son a demostración de que o portugués (e Portugal) naceu dentro da Gallaecia, que a súa denominación orixinaria era a de ‘galego’ e que este foi a lingua dominante na península ibérica durante un longo período de tempo na época medieval.

Morfologia verbal do galego-português: heteronímia do verbo seer
Maria Fernanda Moreira GONÇALVES
Instituto Superior de Ciências Educativas de Felgueiras
fernandagoncalves@sapo.pt

Num estudo sincrónico-descritivo da morfologia verbal da 1ª fase arcaica, designada por fase galego-portuguesa (início do séc. XIII a meados do séc. XIV), efectuámos a reconstituição e análise dos paradigmas dos verbos de padrão regular e de padrão especial, com base num corpus documental remanescente1.

Contudo, na presente comunicação, pretendemos cingir-nos à apresentação de alguns dados relativos à heteronímia do verbo seer. De facto, na fase galego-portuguesa da língua, este verbo reveste-se de grande interesse pelas particularidades que apresenta, dado ser resultante da fusão de dois verbos latinos: ESSE e SEDERE. A reconstituição dos paradigmas do não-perfeito e do perfeito revela que as formas dominantes são aquelas que provêm de ESSE (sõo, somos, eras, fuy, fôrades, fordes), ao passo que as continuadoras de SEDERE (sejo, sees, siia, siian, sêvi, seviste, severa, sevesse) são minoritárias.

Assim sendo, pareceu-nos importante analisar o grau de vitalidade destas formas no período que analisámos, tentando contribuir para o estabelecimento de uma cronologia deste fenómeno, assim como destacar os diversos tipos textuais em que o mesmo ocorre2. A análise dos textos remanescentes, ao longo do período em questão, permitiu verificar que as formas provenientes de SEDERE ocorrem em documentos de natureza diversa, embora se registe um maior número de abonações em composições poéticas trovadorescas. Em termos cronológicos, as formas recolhidas estão documentadas essencialmente em textos pertencentes ao século XIII. Na 1ª metade do século seguinte, a ocorrência deste tipo de formas torna-se ainda mais rara, denunciando assim a progressiva substituição destas por aquelas que continuam o verbo latino ESSE.

Nótulas sobre historiografia linguística de setecentos: a língua portuguesa segundo João Baptista de Castro
Maria Filomena GONÇALVES
Universidade de Évora
filomenagoncalves@sapo.pt

Esta comunicação tem como objectivo principal situar o Pe. João Baptista de Castro (1700–1775) no contexto da historiografia linguística relativa ao século XVIII.

Natural de Lisboa, presbítero secular e Beneficiado da Igreja Patriarcal de Lisboa, passou algum tempo em Itália. Não sendo conhecido como gramático ou “filólogo”, Baptista de Castro, formado embora segundo os moldes do Barroco, reflecte no entanto a lenta mudança mental em curso na primeira metade do século XVIII, conforme fica patente no Espelho da Eloquencia portuguesa illustrado pelas exemplares luzes do verdadeiro sol da Elegancia (1734). Nesta obra, ao anti-barroquismo (Castro, 1973: 341-381) aliam-se claras preocupações linguísticas, às quais consagrará Baptista de Castro o capítulo XIII, da Parte I do Mappa de Portugal (1ª ed. 1745-1749; 2ª ed. 1762-1763), obra histórica em que o Autor reúne e filtra muita da informação então disponível a respeito do espaço e da história nacionais.

De entre os tópicos linguísticos tratados por João Baptista de Castro sobressaem os seguintes: o substrato, a filiação do português no latim, o superstrato germânico, a mudança linguística, a renovação lexical, a ortografia e as qualidades da língua portuguesa. Graças ao aparato de notas, tem-se acesso às fontes em que o Autor se baseou, tema privilegiado da historiografia linguística no que tange ao capítulo da recepção das ideias. Exemplo do saber actualizado de Baptista de Castro são as referências ao Theatro Critico Universal (1726–1739) do Pe. Benito Feijóo (1676–1764), e ao Discurso Philologico contra o Pe. Feijó (1727), de Martinho de Mendonça. Acrescentem-se Bluteau e o Cavaleiro de Oliveira, assim como os gramáticos portugueses, incluídos no rol dos “Escritores Portuguezes” (Mappa, Parte III, 2ª ed. 1753). Nessa lista transparece já a “decadência” literária e linguística que desembocaria no purismo do último quartel do século iluminado. Das curiosidades (meta)linguísticas respigadas no Mappa de Portugal é de realçar o “mitacismo”, termo designativo do “vício da cacofonia”, tema extensamente tratado no Antidoto da Lingua Portugueza (1710), cujo autor, José de Macedo, é referido por Baptista de Castro. Mas este também introduz no Mappa várias observações dispersas sobre etimologia, semântica e usos regionais.

Para encerrar, a reconstrução das ideias do Pe. João Bauptista de Castro permitirá incluí-lo na galeria da “historiografia menor” que completa e elucida a historiografia linguística de Setecentos.

Humanismo e génese dos direitos humanos
Rui Manuel Gomes Dias GUIMARÃES
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
rguima@utad.pt

Escreve, sabiamente, o senhor Prof. Doutor Amadeu Torres, na Revista Portuguesa de Humanidades, trazendo-nos um princípio científico da física, como interpretação, da desagregação de valores e dos princípios humanistas – a propósito do papel das humanidades como elemento regulador da sociedade – que é preciso estimular ou tonificar certas estruturas que designa por “dissipativas do caos”, sucedendo a “reordenação” ao império do caos. Essa “reordenação do caos”, a nosso ver, prende-se essencialmente com a construção de uma nova ordem mundial, e, ainda em nosso entender, com o espírito humanista que enfunou as velas das nossas caravelas mundo adentro e o uniu em matéria, faltando, agora, uni-lo em espírito. As caravelas do espírito. Descobriu-se o homem universal já criado. Unir o mundo em espírito – tarefa actual da globalização humanista assente na paz, contraposta à globalização robótica neo-liberal, massificada e de amálgama cultural, assente na guerra e na ganância. Na dialéctica inteligência natural/inteligência artificial, ou a mão do homem no número ou a mão do número no homem.

Entre essas “estruturas dissipativas do caos”, aponta o mestre, estão os direitos humanos, o seu cumprimento efectivo. Como o próprio nome logo indica, o humanismo tem a medida do homem e bifurca-se na sua elevação espiritual sempre num sentido mais perfeito, mais brilhante, ou num endeusamento. Citar o homem, para alguns, é tarefa já acabada já justificada e cria-se uma lógica de cadeia articulada. O homem baseado na projecção estereotipada de um homem. Por outro lado, ou em outro paradigma, emerge o homem na sua elevação espiritual para o sagrado ou o sagrado a nimbar no seu imaginário. Eis o humanismo onde nascem os direitos humanos.

Remontando a tempos precedentes ao humanismo encontramos as raízes profundas dos direitos humanos no património cultural e religioso da Europa, desde os tempos da época clássica romana quanto à perseguição e martírio dos cristãos como dos druidas celtas. Entre essas raízes profundas está o martírio dos santos. É na relação profunda do homem com o sagrado que nasceram os direitos humanos. O martírio dos santos como génese que iria sendo aprofundada no humanismo da época clássica portuguesa até eclodir como direitos humanos pela primeira vez em Portugal já plasmados na Constituição romântica de 1822 e posteriormente tornados bandeira pelas Nações Unidas (ONU) em 1948, defendidos por alguns portugueses durante o século XX, entre eles D. António Ferreira Gomes, antigo bispo do Porto, até ao séc. XXI. Em que se tornam a pedra de toque de uma nova Renascença num segundo momento do universalismo.

Documentação nos primeiros dicionários portugueses relacionada com propriedades de variedades populares e rurais do português brasileiro contemporâneo

Brian Franklin HEAD
Universidade do Minho
brian@ilch.uminho.pt

Encontra-se em Portugal a noção de que o português do Brasil corresponde ao português europeu do século XVI, época em que o Brasil foi descoberto pelos portugueses e em que também começou a colonização. Se, de uma perspectiva histórica, tal noção pode, à primeira vista, parecer razoável, constitui, de uma perspectiva linguística, uma deturpação da realidade do idioma.

Verifica-se que, com o decorrer do tempo, todas as línguas acusam mudança. De acordo com esta característica geral da linguagem, o português do Brasil (PB) também mudou a partir do século XVI. Com a passagem do tempo, o PB tornou-se, nalguns aspectos, diferente do português europeu (PE). Por outro lado, encontram-se no PB e no PE algumas das características que eram típicas da língua no século XVI, além de propriedades que representam inovações. O PB contemporâneo preserva, sobretudo nas variedades populares e rurais, alguns aspectos que eram típicos da língua no século XVI (a qual, por sua vez, também preservava alguns arcaísmos, propriedades típicas de épocas anteriores). Desta forma, o PB e o PE caracterizam-se, em termos da linguística diacrónica, por conjuntos de características preservadas e de inovações. É na preservação de algumas características correntes durante o século XVI que se encontra um fundamento linguístico para a noção de que o PB corresponde ao PE do século XVI: nota-se, afinal, algum sabor de arcaísmo no PB, mais frequente e mais marcado nas variedades populares e rurais do que na «fala culta». Mas o «sabor de arcaísmo» não é geral: limita-se a certas propriedades. Além dos arcaísmos, há também inovações, algumas das quais são típicas de variedades do PB, sem propriedades equivalentes no PE. Assim sendo, além dos arcaísmos, há propriedades peculiares do PB, que saltam ao ouvido (ou à vista, na leitura de textos do Brasil).

O objectivo do presente trabalho é de examinar uma parte da documentação dos primeiros dicionários portugueses que corresponde a propriedades de variedades populares e rurais do PB contemporâneo, sobretudo nos domínios da pronúncia e do vocabulário. Os dicionários dos primeiros lexicógrafos portugueses considerados neste estudo incluem os seguintes:

Jerónimo Cardoso, Dictionarivm ex Lvsitanico in Latinvm sermonem, Lisboa, 1562–1563.

Jerónimo Cardoso, Dictionarivm Latinolvsitanicvm & vice versa Lusitanicolatinum, cum adagiorum... Coimbra, 1570.

Agostinho Barbosa, Dictionarivm lvsitanicolatinvm… Braga, 1611.

Encontra-se em diversos tipos de fontes documentação das propriedades de variedades rurais e populares do PB contemporâneo: nos atlas linguísticos regionais, nos estudos monográficos de variedades regionais, nos dicionários de linguagem popular e rural, nas obras de escritores regionais.

Uma edição fac-similada d’Os Lusíadas, 1572: o caso das estrofes trocadas
K. David JACKSON
Yale University – USA
k.jackson@yale.edu

Uma observação a respeito da edição fac-similada de 1898, de Teófilo Braga, onde seis estrofes se encontram impressas, mas fora do lugar. Trata-se de um volume único, ou de outro erro de composição que nos remete a origem de algumas das variantes dos exemplares de 1572?

António José dos Reis, gramático pombalino
Rolf KEMMLER
Universidade de Bremen – Alemanha
r.kemmler@web.de

Dentro do ramo de investigação da história da linguística portuguesa, um dos desconhecidos mais ilustres é o gramático setecentista António José dos Reis Lobato cuja Arte da Grammatica da Lingua Portugueza (1770), um dos primeiros manuais do ensino público da língua portuguesa, que teve pelo menos quarenta edições ao longo de cerca de cem anos.

Ao passo que a obra gramatical permite estudos gramatológicos como os de Assunção (1997–2000) e Schäfer-Prieß (2000), a personagem histórica do gramático ficou até agora fora do alcance dos historiadores da linguística portuguesa, facto este que fez com que fossem vozeadas dúvidas quanto a uma verdadeira existência histórica de um autor deste nome.

Com base em novos elementos documentais, a presente comunicação visa fornecer algumas informações sobre o Lobato histórico, tentando fornecer umas primeiras noções sobre quem realmente foi António José dos Reis (Lobato).

Narciso, a Filáucia e Pigmalião: a arte, os seus limites e a crítica
Helena LANGROUVA

Universidade Nova de Lisba

Os mitos de Orfeu, Narciso e Pigmalião ficaram indissoluvelmente ligados desde as Metamorfoses de Ovídio e todos eles se reportam à arte, aos limites da relação entre a arte e a vida; ajudam a demarcar a consciência do artista, o distanciamento crítico dos destinatários ou receptores da arte. No reverso dos seus mitos, Orfeu é frustrado como amante e não como poeta; Pigmalião é frustrado como artista porque não consegue dar vida à estátua que fabrica: apenas Vénus pode dar vida à estátua. O excesso de auto-amor, um dos fulcros do mito e metamorfose de Narciso, constitui uma das preocupações dos humanistas. O termo Philautia (amor de si próprio) está implícito num emblema de André Alciato; a “Filáucia” é objecto de meditação de Camões em Os Lusíadas. A Filáucia como excesso de concentração sobre o pequeno ego, no plano cívico e artístico, está próxima da inveja que também tanto preocupou os humanistas – em particular Alciato e Camões. É o excesso de concentração sobre o pequeno ego , o excesso de auto-amor narcísico que muitas vezes se cultiva na arte, incluindo a literatura, em particular nos séculos XIX e XX. A ambiguidade consiste em misturar a aparência de autenticidade com os excessos do autor e das suas estratégias de sedução do leitor, provocando não raro nos destinatários uma adesão sem distanciamento crítico, impedindo-os de respirar e de deixar respirar a obra. Trata-se de uma subtil estratégia da literatura kitsh, termo alemão para designar a arte que não é autêntica. Urge discernir o que preside a todas as formas de literatura e arte kitsch. Há autores que manipulam o leitor e o obrigam a nunca parar. A arte que não é kitsch cria para os destinatários um espaço de liberdade, reflexão e distanciamento crítico. Falta quem dê vida à estátua passando pela grandeza de alma. Falta descobrir uma nova maneira de imitar os grandes de espírito. Falta abrir novos caminhos para a crítica – de arte, literária – que, na sua origem significa separar o trigo do joio. A própria crítica pode ser minada pela filáucia. Embora não sejam citadas obras de arte, de literatura dos séculos XIX e XX, fica o convite para o discernimento.

A edição de Naceo e Amperidónia: léxico, cultura e praxis amorosa como intertexto vital do século XVI

Aida Paula Sampaio Coelho LEMOS
Universidade do Minho
alemos@ilch.uminho.pt
Maria Paula Santos Soares da Silva LAGO
Universidade do Minho
alemos@ilch.uminho.pt

A presente comunicação visa essencialmente dar a conhecer uma edição de Naceo e Amperidónia, novela sentimental epistolar do século XVI a publicar no início de 2005 nos Clássicos da Literatura Portuguesa do IPLB; a essa edição presidiram propósitos e objectivos muito particulares que, conjuntamente com a importância que se atribui à obra no contexto de produção, a instituem como intertexto privilegiado no estudo da língua, cultura e literatura da época.

A comunicação será assim essencialmente dividida em duas partes, na primeira das quais se procurará demonstrar a mais-valia de uma edição conservadora e de um glossário que respeita o único exemplar conhecido da obra, manuscrito e integrado no códice miscelado 11.353 (conhecido como manuscrito Asensio) da Biblioteca Nacional de Lisboa. De facto, a integração da obra num códice miscelado do qual constam uma versão de Menina e Moça (entre outras obras de Bernardim, de Sá de Miranda e outros poetas do seu círculo, Boscán, Garcilaso de la Vega e Jorge Manrique, para além de textos de tipo transaccional e outros) configura a edição conservadora como inestimável intertexto para o estudo do estado da língua da época, nomeadamente no que concerne ao léxico.

Numa segunda parte da comunicação, procurará demonstrar-se, em paralelo com a utilidade de uma edição modernizadora que permite o acesso à obra por parte de um público mais vasto e não especializado – numa perspectiva lúdica de conhecimento da literatura da época como numa perspectiva de investigação – a centralidade de uma obra que reflecte a cultura e praxis amorosa verbal de corte, intertexto fundamental de toda uma literatura da época, quer no que se refere à literatura portuguesa, quer ainda no que mais particularmente toca à novela sentimental peninsular.

Os verbos em confronto: considerações sobre a tipologia verbal
nas Artes gramaticais portuguesas setecentistas (1699–1758)
Rogelio Ponce de León Romeo
Universidade do Porto
rogelio.romeo@netcabo.pt

Na presente comunicação são analisadas e sistematizadas as propostas sobre a classificação dos verbos nas Artes portuguesas, impressas entre 1699 – ano da publicação do Promptuario de syntaxe do P.e António Franco – e 1758 – momento em que se imprime a Grammatica latina tratada por um metodo novo, claro e fácil de Luís António Verney –, balizas de um período extremamente rico no referente à produção gramaticográfica e à teoria linguística, e decisivo para a educação e a cultura portuguesas, porquanto nele aparecem os primeiros ataques à pedagogia jesuítica (Freire 1964; Lima 1981; Assunção 1997; Torres 1998: 11-37) e se propicia o Alvará régio de 28 de Junho de 1759, que reforma os Estudos Menores. Neste período se pretende delimitar os fundamentos teóricos subjacentes à descrição sintáctica dos verbos – questão já abordada parcialmente por outros autores (Barajas Sala 1985; Fávero 1996; Schäfer-Priess 2001; Moura 2002; Ponce de León 2004) –, que transcendem – como se pode deduzir das propostas de Manuel Coelho de Sousa e de António Monteiro – a tendência gramatical bipolar, manifestada pelos denominados alvaristas e sanchistas. Para isso, é necessário estudar os pressupostos dos gramáticos da época, como António Franco, Jerónimo Contador de Argote, Manuel Coelho de Sousa, João de Morais Madureira Feijó, José Caetano, António Monteiro, Francisco José Freire e António Pereira de Figueiredo, de cujas obras aparecem localizados exemplares nos repertórios bibliográficos especializados (Cardoso 1994; Assunção 2001).

Les variantes graphiques morpho-syntaxiques et lexicales chez les étudiants portugais dans l’apprentissage du FLE sous l’influence de leur langue native

Ha LO-CICERO
Universidade da Madeira
locicero@uma.pt

L’enseignement du français langue étrangère ne peut pas se détacher de celui de l’orthographe. On parle souvent de l’apprentissage des langues et non de celui de l’orthographe. Indubitablement, comme le confirment Lucci et Nazé (1989: 93), (…) l’apprentissage de l’orthographe est inséparable de celui de la langue; d’abord parce que l’orthographe ne constitue pas une fin en soi; elle n’est une nécessité que par référence à la communication écrite.

L’orthographe française (OF) est une discipline pas comme les autres. Pour bien la connaître et l’écrire, une multitude de règles grammaticales doivent être prises en compte. Les exceptions sont trop nombreuses. Et puis enfin, si on ne connaît pas le grec ni le latin, on ne saurait comprendre l’existence de lettres étymologiques et diacritiques telles que le «y», le «th», le «ph» ou encore certains accents, le circonflexe dans «fenêtre» par exemple. Pourquoi n’écrirait-on pas ortografe au lieu de orthographe? L’OF est compliquée et dénuée de sens, parfois, nous semble-t-il. Cependant, comme l’observe judicieusement Catach (1995), L’orthographe est importante certes, mais elle est une autre face de la langue, elle ne peut en être séparée. Toute l’attitude didactique dépendra de cette conception de complémentarité.

Enseigner l’OF aux apprenants portugais est une tâche laborieuse. Afin d’atteindre cet objectif, connaître la langue portugaise est un paramètre sine qua non…À cette fin doublement ardue, l’analyse linguistique «unilingue» – se référer à une seule et unique langue, le français – serait un handicap car les incidences graphiques chez les étudiants proviennent fondamentalement des interférences de leur langue native ou bien d’autres langues d’apprentissage, l’anglais notamment. Nous entendons par variantes, incidences les erreurs orthographiques que produisent les étudiants.

L’analyse contrastive français « portugais aide à découvrir les raisons pour lesquelles les étudiants commettent telle ou telle variante graphique. Comme le précise bien Vilela (1994: 10): A análise contrastiva consiste na aproximação de duas ou mais línguas para as confrontar entre si e verificar as semelhanças e as diferenças: (...). Les différences (ou les ressemblances) entre deux ou plusieurs langues feront surgir les interférences en question. Une grille typologique d’incidences graphiques doit être élaborée en conséquence à partir des copies d’étudiants, corpus de base.

À l’occasion du Colóquio de Homenagem a Amadeu Torres, nous proposons la communication Les variantes morpho-syntaxiques et lexicales chez les étudiants portugais dans l’apprentissage du FLE sous l’influence de leur langue native. Cette étude permet non seulement d’améliorer notre enseignement de la langue française aux apprenants portugais mais aussi de maîtriser les convergences et les divergences entre le français et le portugais, deux langues disposant d’un fonds au lieu de disposant un fonds commun, le latin.

A história do mui Nobre Vespasiano
José Barbosa Machado
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
jlmachado@mail.telepac.pt

A História do mui Nobre Vespasiano Imperador de Roma foi acabada de imprimir em Lisboa por Valentino de Morávia, ou Valentim Fernandes, em 20 de Abril de 1496. No ano anterior, com o patrocínio da rainha Dona Leonor, esposa do rei D. João II, Valentino de Morávia imprimia a Vita Chisti. É provável que o projecto da edição da História de Vespasiano estivesse já em curso, pois é uma espécie de continuação da Vita Chisti. Aliás a História de Vespasiano surge apensa no final da mesma obra numa versão francesa impressa em Ruen em 1488. Por outro lado, e face à similitude entre a doença de Vespasiano e a doença do rei D. João II, que faleceu em 1495, é possível que esse facto fosse o motivo impulsionador da impressão da obra.

Francisco M. E. Pereira (1905) supôs que a redacção portuguesa da História de Vespasiano fosse feita no período que decorreu de 1438 a 1496 e que o seu autor teria sido algum religioso de um convento de Lisboa, mais propriamente do Convento de Xabregas, dos Padres da Ordem de São Francisco da Observância. Esta suspeita baseava-se no facto de os frades deste convento terem feito a revisão da Vita Christi, impressa em 1495 por Valentino de Morávia. A nós parece-nos que o período sugerido para a redacção, ou, mais correctamente, tradução, está demasiado dilatado. As características linguísticas do texto apontam para uma data mais próxima da sua impressão, o que vem reforçar a ideia de que as motivações para a impressão da obra se prendem com a doença do rei D. João II. De facto, a linguagem, comparando-a com a de outras obras impressas na mesma década, é a de finais do século XV, estando bastante longe portanto da linguagem de Fernão Lopes ou da do rei D. Duarte.

Na pista do Prof. Amadeu Torres:
Gramática da Língua e Gramática da Comunicação
Maria João Marçalo
Universidade de Évora
mjoaomarcalo@clix.pt

Partindo de um artigo de 1986, da autoria do Prof. Amadeu Torres, intitulado Gramática da Língua e Gramática da Comunicação, pretende-se com esta comunicação reflectir sobre a gramática. Dos compêndios de Dionísio Trácio ou de Apolónio Díscolo, fonético e morfológico o primeiro e sintáctico o último, que ensinam a arte de bem escrever e falar segundo os bons autores, até às actuais gramáticas ditas da comunicação, procuraremos abordar semelhanças e dissonâncias de perspectiva e métodos, com vista a demonstrar que as gramáticas da língua sempre reconheceram o valor e funcionalidade dos contextos não só linguísticos, mas também extralinguísticos.

Socorrer-nos-emos, sobretudo, de textos gramaticais portugueses do passado século XX, tentando ainda aduzir algumas considerações sobre o ensino da gramática da língua no actual ensino universitário português.

Esferas pública e privada no discurso político parlamentar – a construção do locutor
Maria Aldina de Bessa Ferreira Rodrigues MARQUES
Universidade do Minho
mamarques@ilch.uminho.pt

Esta análise tem em conta, apenas, a construção do locutor num subtipo do discurso político parlamentar: o Debate da Interpelação ao Governo. O principal objectivo deste tipo de discurso é questionar o Governo sobre um tema político particular. A vigilância democrática e institucional do governo faz destes debates momentos marcantes do confronto político Num nível mais amplo, o objectivo é persuadir o povo, os votantes.

Sendo o estatuto do(s) locutor(es), o de membro(s) do parlamento/governo, a sua função neste tipo de relação discursiva é, em primeiro lugar, representar o povo, através dos partidos.

É assim previsível que os intervenientes neste tipo de debate construam identidades políticas colectivas, e mais especificamente, uma imagem de locutores colectivos.

Confirmando-se, é certo, esta hipótese, ela revela-se contudo insuficiente para a descrição cabal da figura do locutor. Desde logo, porque o papel de porta-voz é múltiplo e multifacetado e porque a dimensão individual é fundamental na construção discursiva, em correlação com a primeira, que vai «reenquadrar» pelas ligações e recontextualizações que permite estabelecer. Nomeadamente, na vertente de autonomia que caracteriza os intervenientes no debate.

A presença do locutor no seu discurso é recuperável, em parte, a partir da imagem que constrói de si próprio, no uso que faz de diferentes dispositivos linguísticos, de que a língua portuguesa dispõe, nomeadamente no uso da deixis nominal e verbal. São estruturas linguísticas que variam em função das características, dos papéis comunicacionais, interaccionais e sociais dos interlocutores.

A análise dos discursos produzidos em sede parlamentar permitirá pôr em relevo o facto de que o locutor, no Parlamento, não é apenas o porta-voz do seu partido ou governo. Ele fala por outras vozes: pelo povo e por si próprio. A despersonalização pretendida não ocorre a não ser como tópico discursivo.

O debate é um género híbrido, simultaneamente planeado e espontâneo. Favorece, portanto, a coexistência de processos enunciativos diversos, contrários mas não contraditórios. A junção destas duas dimensões da construção dos locutores cria a legitimidade do público pelo privado e vice-versa. Os líderes políticos são vozes de autoridade criadas pelo entrecruzar das duas vertentes, que afirmam as duplas relações de dependência/independência face ao(s) grupo(s).

Génese e conceito da epopeia camoniana
na teorização literária de Fidelino de Figueiredo
J. Cândido Martins
Universidade Católica Portuguesa – Braga
jmartins@facfil.ucp.pt

As preocupações teórico-metodológicas de Fidelino de Figueiredo no domínio da Camonologia conduziram-no à equação de um duplo problema capital neste complexo e específico domínio dos Estudos Literários, propósito ousado e já devidamente realçado por vários autores: primeiro, a constituição de uma teoria da epopeia, capaz de explicar mais profundamente a criação camoniana; segundo, articuladamente, a gestação e o significado da obra camoniana como epopeia renascentista.

Partindo das reservas fundamentada aos limites metodológicos da crítica das fontes, emblematicamente representada por José Maria Rodrigues, o teorizador demonstra as limitações do velho método histórico-crítico, por um lado; e, por outro, alarga a sua indagação sobre a originalidade de Os Lusíadas através da noção de ambiência lendária, de natureza histórico-cultural, geradora do canto épico camoniano.

A língua ao serviço do Padroado Português na China: as línguas portuguesa e castelhana ao serviço de uma estratégia de aproximação de dois povos e duas culturas (1583–1703)
Manuel Cadafaz de Matos
Centro de Estudos de História do Livro e da Edição (CEHLE)
manuelcadafazdematos@cehle.com

Os estudos em torno da expansão pelo mundo da língua latina, bem como das línguas vulgares das mais destacadas nações da Europa do ocidente e mediterrânica, conheceram um particular desenvolvimento entre fins do século XVI e começos do século XVIII.

Sobre a importância da difusão da língua latina, há que ter presente o significativo testemunho deixado pelo humanista transalpino Lorenzo Valla (1407–1457), na obra Elegantiae. Analisando-se o texto fixado na edição parisina de 1541, pode ler-se que “aqueles... que por quase todo o Ocidente, e numa não pequena parte do setentrião e de África, fizeram com que fossa famosa e quase rainha a língua romana, e que em todas aquelas terras a deram aos homens ... levaram a cabo um labor certamente mais belo e mais ilustre que o de alargar o próprio Império”.

No que respeita às línguas vulgares das mais renomadas nações da Europa do ocidente e mediterrânica, detemo-nos aqui, sobretudo, nas línguas portuguesa e castelhana e na sua história, aspectos estruturais e difusão, em territórios da expansão das duas nações ibéricas nos séculos XVI e XVII, mais particularmente no grande Império da China.

Importa assinalar primeiramente que, em termos de história da língua portuguesa na China, os dois últimos decénios do século XVI são de uma importância decisiva graças, curiosamente, a um jesuíta italiano, o Pe. Matteo Ricci. Tendo este chegado em 1582 a Macau – e pouco depois entrado no Império do Meio – desenvolveu ali, em colaboração com o seu confrade Michele Ruggieri, um Dicionário Português – Chinês.

Este dicionário bilingue – que sem dúvida constitui as primícias do Grand Dictionnaire Ricci, da equipa do sinólogo francês Pe. Claude Larre, S.J. (em edição da Desclée de Brower, em sete volumes, recentemente apresentado ao público) – é aqui perspectivado por via do exemplar que se conserva nos Arquivos da Companhia de Jesus em Roma (onde o estudámos na primeira metade dos anos noventa). Analisam-se aqui algumas das suas particularidades técnicas – como por exemplo a constante na sua Tavola V – que permite fomular duas hipóteses de trabalho, se se trata de uma obra xilográfica ou manuscrita, cremos que com prejuízo da primeira.

Referenciando-se a publicação em 1620 em Macau, na imprensa da Companhia de Jesus, da Arte Breve da Lingua Iapoa, com base nos trabalhos de um português, alude-se ainda à existência do primeiro dicionário chinês-francês, devido ao Pe. Nicolas Trigault, também ele jesuíta. Este é de 1627 e também constitui, sem dúvida, um interessante marco na história da língua das nações do ocidente na Ásia Extrema .

No que respeita à língua castelhana naquelas mesmas paragens continentais do Pacífico, há que assinalar que o seu ponto mais marcante se situa na edição da Arte de la Lengua Mandarina. Esta obra, da autoria de Frei Francisco Varo, foi impressa em Cantão, no sul da China, em 1703, tendo tal edição estado a cargo, uma vez mais, da imprensa da Companhia de Jesus.

Influência clássica no teatro português:
A Castro de António Ferreira e de Reis Quita
Mário José Silva Meleiro
Escola Superior de Educação da Guarda
mario.meleiro@netvisao.pt

Assistimos no Séc. XVI ao aparecimento de homens notáveis que, de certa forma, vão guerrear contra Gil Vicente. Entre esses homens notáveis encontramos nomes como o de Sá de Miranda ou António Ferreira. Notável foi também a arma que utilizaram para o combater: a imitação dos gregos e romanos.

O teatro clássico surge, assim, em Portugal, como uma reacção contra a comédia nacional que tem na preferência da linguagem em prosa, em vez do verso de redondilha com rima, a sua principal referência.

No século XVI entravam em Portugal, não só pelos lentes, mas também pelos alunos que haviam estudado fora do país, costumes europeus que além de passatempos, tinham em vista a cultura do latim e do grego, considerados então as chaves da ciência universal.

Mas o teatro clássico não teve uma aceitação fácil em Portugal. O público estava habituado ao teatro de Gil Vicente e mantinha algumas reservas ao que era novo. Nas palavras que iniciam o prólogo de Os Estrangeiros de Sá de Miranda, são bem visíveis estas reservas por parte dos espectadores: “Estranhais-me, que bem o vejo: que será? Que não será? Que entremês é este? (...) o meu nome é comédia, (...) eu naci em Grécia, e lá me foi posto o nome...”3.

Coube, pois, a Sá de Miranda dar os primeiros passos na imitação do teatro clássico, seguido por António Ferreira entre tantos outros. Nas palavras de Carvalhão Buescu, “António Ferreira representa a corrente clássica do teatro português do século XVI, escrevendo duas comédias (...) e, sobretudo, aquela que tem sido considerada a mais bela tragédia: a Castro. Esta última obra, (...) aborda um assunto querido e sempre vivo na tradição Coimbrã: Inês de Castro”4.

A figura de Inês de Castro foi levada ao conhecimento de praticamente todos os povos da Europa. Na tradição portuguesa, Pedro e Inês tornaram-se um dos símbolos em que a alma de Portugal se reconhecia, transcenderam os limites do real, encarnando o mito do Amor para além da morte.

Em Portugal, vários foram os autores que abordaram este mito. Entre os primeiros a merecer destaque, encontramos Garcia de Resende e Camões. Mas o mito de Inês transvaza as fronteiras seculares e vamos encontrá-lo, em abundantes obras do século XVIII, donde destaco apenas Bocage e Reis Quita.

Ora, são precisamente algumas características da Castro de Reis Quita, do século XVIII, que serão postas em confronto com a Castro de António Ferreira, do século XVI.

Desde já convém referir que, embora se conheçam dezasseis outras tragédias completas e algumas traduções, nenhum autor com a sua obra atingiu a fama de António Ferreira com a sua Castro. Alem de ser uma estreia na literatura portuguesa como tragédia clássica, foi também a primeira tragédia europeia escrita sobre um tema moderno.

Terêncio na pedagogia dos jesuítas
António Maria Martins Melo
Universidade Católica Portuguesa – Braga
antmelo@facfil.ucp.pt

De origem africana, este poeta cómico latino do séc. II a. C. é objecto de referência em duas obras que inspiram a acção educativa da Companhia de Jesus: a Quarta Parte das Constituições da Companhia de Jesus e a Ratio Studiorum. Os planos de Estudos dos Colégios haviam de reflectir essas orientações. Este é o objecto da reflexão que nos propomos apresentar.

De gustibus est disputandum: contributo para o estudo do léxico do vestuário em O Primo Basílio de Eça de Queirós
Maria do Carmo Pinheiro e Silva Cardoso Mendes
Universidade do Minho
mcpinheiro@ilch.uminho.pt

A comunicação propõe-se analisar o vestuário no romance queirosiano O Primo Basílio e o modo como este campo lexical possibilita a compreensão de imagens privadas e de desempenhos sociais. Partindo do princípio de que o léxico do vestuário ilustra plenamente os problemas levantados pelo estudo da organização do léxico, salienta-se que o vestuário é um objecto configurado por uma “moda” e pela sua “semiótica”; é uma actividade privilegiada e sempre reencetada quer dos processos de classificação e de desclassificação que percorrem classes e categorias de classes, quer do processo de construção de identidade social e dos papéis de género; é um domínio em que se nota um investimento erótico indissociável daquelas duas dimensões.

Se o conjunto de adereços que acompanha as diferentes peças de vestuário (quantas vezes entendidos como nota fundamental de “elegância” e de “bom gosto”, exemplarmente representada no fenómeno do dandismo) acentua as variações epocais e civilizacionais a que se submete este domínio do léxico, é sobretudo aqui que se acumula ou se perde capital de distinção (de classe, de masculinidade e de feminilidade). Sob este ponto de vista, O Primo Basílio constitui importante testemunho de uma época e de algum material de construção de identidades.

Com base nestas premissas, faz-se uma apresentação do léxico do vestuário no romance oitocentista, considerando que ela não pode alhear-se nem de uma dimensão interpretativa nem de uma perspectiva sociológica. Assim, é decerto por um traço típico (ou especialmente sublinhado) da civilização burguesa que ao vestuário é também confiada a função de suportar a diferença entre a vida pública e a vida privada. Com esta especificação fundamental: a intimidade é social e publicamente codificada, e pública e socialmente submetida a juízos de “gosto”.

Num primeiro momento, a abordagem do campo lexical do vestuário em O Primo Basílio, estabelecerá quatro oposições: uma oposição dimensional entre “vestuário usado em casa” e “vestuário usado fora de casa”; uma oposição sémica entre “para homem” e “para mulher”; uma oposição sócio-económica entre “classes populares” e “classes de média e alta burguesia”; uma oposição cromática entre “branco” da intimidade) e o “negro” da vida pública, que vem a tornar-se a cor de classe que distingue os dândis (Basílio e Reinaldo) e marginaliza o desclassificado (Leopoldina).

Num segundo momento, analisam-se dois grupos de lexemas indissociáveis do léxico do vestuário: as formas verbais e os galicismos, concluindo que o primeiro grupo corrobora a centralidade do vestuário na articulação discursiva do romance, enquanto o segundo (como o galicismo em geral) deve ler-se sobretudo como capital cultural específico de uma classe e matéria-prima de actividades de distinção.

Finalmente, considera-se o modo como o vestuário representa um importante centro de interesse em diálogos e em reflexões individuais, e se constitui ainda como meio através do qual Eça de Queirós põe em evidência determinadas marcas daquele estilo que nele, como poderia dizer o professor Óscar Lopes, tem o alcance de uma filosofia, i. e., de uma visão do mundo.

A gramática científica no Brasil e em Portugal
Márcia Antonia Guedes Molina
Universidade de Santo Amaro (São Paulo) – Brasil
maguemol@ig.com.br

Neste trabalho efetuamos uma comparação entre dois dos mais importantes compêndios gramaticais surgidos no final do século XIX: A Língua Portuguesa, de Adolfo Coelho; e a Gramática Portuguesa, de Júlio Ribeiro, escritos ambos em 1881 e divisores de águas, já que foram os primeiros a adotar os princípios do método histórico-comparativo, o primeiro em Portugal, o segundo no Brasil. Nosso objetivo é cotejar suas partições, principais definições, para constatar suas semelhanças e dessemelhanças, à luz da História das Idéias Lingüísticas no Brasil. Como acreditamos que os homens se parecem mais com o seu tempo do que com seus pais, já que não são eles que fazem a história, mas a história é quem os faz, apresentamos, primeiramente, uma rápida retrospectiva histórica, visitando os anos que antecederam a criação dos compêndios, favorecendo uma melhor interpretação dos fatos. Temos consciência então de que a segunda metade do século XIX foi extremamente vigorosa, no que diz respeito a mudanças: rica em movimentos intelectuais e literários e plena de invenções tecnológicas. A todo momento, novos instrumentos surgiam, correntes filosóficas ganhavam adeptos, poetas importantes conflituavam, valorizando essa ou aquela escola literária. A ferida do analfabetismo era uma mácula que urgia ser extirpada de uma sociedade que almejava o progresso, por isso havia um esforço para que a escola primária abarcasse todos os territórios de forma universal, gratuita e obrigatória (Luzuriaga, 1973). A educação secundária desenvolve-se limitando-se a atender às classes sociais mais abastadas, já que era encarada como um meio de se atingir à universidade. Ao lado de tudo isso, a Lingüística Comparada de Frederico Diez, Franz Bopp e Max Müller começava a revolucionar os estudos gramaticais pelo mundo afora, rompendo com a tradição logicista, chegando ao mundo lusófono pelas mãos de Adolfo Coelho (1847–1919), que se doutorou pela Universidade de Heildelberg e foi grande conhecedor da língua portuguesa e Júlio Ribeiro (1845–1890), que foi um combativo professor, dotado de uma grande cultura literária e autor de um dos clássicos do naturalismo brasileiro: A carne.

Simplesmente
Benjamim Moreira
Universidade Nova de Lisboa
abelha@nortenet.pt

Na tradição gramatical, simplesmente integra-se na categoria adverbial. No entanto, a multiplicidade de empregos e de valores hoje mais frequentes obriga a repensar essa classificação. Com efeito, e a título meramente ilustrativo, só em (1) e (5) pode em rigor ser considerado um advérbio constituinte da relação predicativa:

(1) Ela veste-se simplesmente

(2) Queria simplesmente perguntar se tencionam ir ao cinema esta noite

(3) Podes comprar o que quiseres, simplesmente tens de pagar do teu bolso

(4) Ela está muito magra porque come simplesmente uma sopa às refeições

(5) Numa altura em que contenção é a palavra de ordem, será correcto gastar tanto dinheiro na demolição de um prédio, simplesmente por razões políticas? (Alto Minho, 11.11.2004)

(6) Ricardo Quaresma marcou golo numa jogada simplesmente genial (RTP1,13.11. 2004)

(7) Ele é simplesmente um idiota

(8) Leclerc. Simplesmente o mais barato

Através destes e doutros exemplos procuraremos mostrar como o papel de simplesmente na construção da significação ultrapassa largamente e em vários planos o de modificador predicativo (1), já que é também operador de atenuação (2), marcador de um acto ameaçador de face (Brown & Levinson 1987), de oposição (3), de restrição (4), de focalização (5), metalinguístico (6), de intensificação (7), argumentativo (8).

Mas a verificação da existência de diferentes valores e modos de funcionamento de uma mesma unidade linguística não permite inferir que estamos perante homónimos. Procuraremos antes mostrar que a identidade de simplesmente está precisamente na sua variação semântica (cf. ‘polissemia’).

Realidade e providencialismo nas crónicas de Góis e Osório
Fernando Alberto Torres Moreira
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
fmoreira@utad.pt

Cronistas de D. Manuel I, Damião de Góis e Jerónimo Osório deram à estampa duas versões de uma crónica só. É conhecido o débito que o bispo de Silves tributa ao labor desenvolvido por Góis para a produção da crónica que o Cardeal Inquisidor lhe encomendara. Sabemos também que o cronista de Alenquer sustentou, no seu prólogo, o imperativo de verter para o seu texto a narração verídica dos factos acontecidos, única forma, no seu entender, de fazer história. Sem contradizer os princípios goisianos e conhecendo as circunstâncias que marcaram a publicação do texto do seu amigo, Jerónimo Osório não só declara o aproveitamento que faz da Crónica daquele, como reclama uma linha ideológica para o seu discurso narrativo que o diferencia de modo evidente (Também me movia com agudo estímulo ver que não só tomava nesta obra o peso a feitos de homens mas também a divinos), sem descartar a verdade histórica mas reclamando uma outra verdade introduzindo, por isso, elementos de um providencialismo que as suas convicções religiosas e crença num destino luso explicam.

É precisamente a diferença entre os dois textos, ao nível do que ideologicamente os suporta, que nos propomos analisar, prosseguindo, por isso, um trabalho de análise comparativa esperando poder demonstrar o que distingue a discursividade narrativa dos dois autores (aspecto já por outros estudiosos abordado) e, sobretudo, o enfoque ideológico que norteou o trabalho cronístico destes dois humanistas.

A Fénix Renascida, cancioneiro de poesia barroca portuguesa
Maria Micaela Dias Pereira Ramon Moreira
Américo António Lindeza Diogo
Universidade do Minho
micaelar@ilch.uminho.pt

A comunicação que propomos tem como principal fim apresentar a edição do primeiro volume da Fénix Renascida, por nós elaborada, e que a editora Angelus Novus publicará no início de 2005, sob o patrocínio do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas.

A Fénix Renascida constitui o mais rico e mais significativo cancioneiro de poesia barroca portuguesa recolhida de diversos manuscritos que hoje desconhecemos, mas que o editor Matias Pereira da Silva afiança ter visto e conferido cuidadosamente; por outro lado, os cinco volumes que a compõem tiveram apenas duas edições, ambas no século XVIII, sendo a que nos propomos apresentar a única de que actualmente a obra está a ser objecto.

Tratando-se de uma colectânea que reúne cerca de 45.000 versos, de lição muitas vezes incorrecta, nela incluídos de acordo com critérios algo periféricos a razões meramente estético-literárias, equacionaremos, em primeiro lugar, os problemas relativos à fixação e à organização genológica dos textos. Procuraremos também pôr em evidência, e exemplificar com referência a textos concretos, as correntes mais expressivas da poesia de seiscentos nela representadas. Paralela e cumulativamente, enquadraremos a obra no contexto ideológico, filosófico e literário do período em que se insere.

Elementos para uma análise semiótica do Tratado dos Estados Eclesiásticos e Seculares do humanista Diogo de Sá
José Augusto Mourão
Ana Cristina da Costa Gomes
Universidade Nova de Lisboa, Universidade de Lisboa
cristinacostagomes@hotmail.com

O Tratado dos Estados Eclesiásticos e Seculares escrito, no ano de 1557, pelo humanista Diogo de Sá conservou-se, até aos nossos dias, em manuscrito autógrafo, na Secção de Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa. Apesar de ter sido dedicado à rainha D. Catarina e ter como tema central a fé, inscrevendo-se no grande debate ideológico do concílio tridentino, este códice não escapou às setas da censura inquisitorial. O Tratado dos Estados Eclesiásticos e Seculares figurava no Index português de 1581, tendo a sua proibição sido alargada, posteriormente, ao Index espanhol e italiano.

A par de outras obras, tais como o Diálogo Evangélico Sobre os Artigos da Fé Contra o Talmud dos Judeus, do humanista João de Barros, ou o Espelho de Cristãos Novos e Convertidos de Francisco Machado, este texto não logrou conhecer a edição na época em que foi produzido, devido a enquadrar-se na literatura apologética anti-herética e, com especial relevo, anti-judaica censurada pelo Santo Ofício.

Com esta comunicação pretende-se trazer à luz, simultaneamente, este texto quinhentista, que será editado brevemente, e o seu autor: Diogo de Sá. Durante largo tempo pairaram inúmeras interrogações sobre a vida e a obra deste humanista quinhentista português, conhecido quase exclusivamente pela sua crítica feita a Pedro Nunes no tratado, impresso em Paris, no ano de 1549, intitulado De Navigatione Libri Tres. Homem das armas e das letras, o seu percurso multifacetado e ambivalente, como o de poucos, conjugou a espada e a pena, tendo ficado marcado pelas suas viagens a bordo das naus da Carreira da Índia e a sua destemida carreira militar no Oriente e pela sua passagem pelos grandes meios universitários europeus: Coimbra e Paris. A escrita preencheu, contudo, grande parte da vida deste intelectual polígrafo... Entre as obras que nos legou encontram-se, as duas já mencionadas, o tratado jurídico De Primogenitura, publicado em Paris, nos anos de 1551 e 1552 e o manuscrito intitulado Inquisição e Segredos da Fé.

Por outro lado, esta intervenção tem como principal objectivo avançar com elementos para uma análise semiótica do Tratado dos Estados Eclesiásticos e Seculares, centrando-se no epílogo desta obra, do humanismo português, intitulado “Da Fé”.

O bairro, a biblioteca e a máquina filológica.
Uma leitura parcial de Gonçalo M. Tavares
Luís Mourão
Escola Superior de Educação de Viana do Castelo
luis.mourao@mail.telepac.pt

Gonçalo M. Tavares é um dos casos mais singulares da novíssima literatura portuguesa contemporânea. Aos 34 anos, tem 14 livros publicados, entre romances, poesia, teatro e narrativas de género mais ou menos inclassificável. Mas sobretudo, tem um estilo e uma qualidade reconhecível, que urge interrogar.

A leitura que proponho de Gonçalo M. Tavares é duplamente parcial: 1) porque abrange apenas algumas das narrativas de género inclassificável (O Senhor Valéry, O Senhor Henri, O Senhor Brecht, O Senhor Juarroz, que se poderá dizer que pertencem a uma “série” em curso que se poderia denominar a “série do bairro”, e Biblioteca 1, que é a obra inicial de uma nova “série”, que talvez se possa chamar desde já a “série da biblioteca”); 2) e porque, dada a brevidade de uma comunicação, procura apenas seguir um único fio interpretativo: a escrita de Gonçalo M. Tavares é uma forma peculiar de ler segundo a máquina filológica.

A breve nota que abre Biblioteca, diz no seu projecto minimal aquilo que também estrutura os outros livros aqui em causa: “O ponto de partida deste livro é a obra dos autores — nunca aspectos biográficos. Uma ideia ou apenas uma palavra mais usada pelo escritor (por vezes, mesmo associações inconscientes e puramente individuais) estão na origem do texto. Mas cada fragmento segue o seu ritmo próprio”. Nos livros da “série do bairro”, a obra dos autores começa por aquilo que é o seu ponto máximo de condensação, o próprio nome de autor. A leitura, tornando-se escrita, segue assim um itinerário alegórico que tem no seu cerne a ironia, é uma máquina filológica, como Paul De Man a intuiu no andamento da modernidade e como Nietzsche a quis como prática não teológica da interpretação. Proponho explicitar este itinerário e interrogar não tanto os seus pontos de chegada – esta é uma obra claramente em construção — mas as suas energias de passagem: em que é que a escrita de Gonçalo M. Tavares é elucidativa da nossa contemporaneidade mais extrema?

A homonímia na lexicografia portuguesa de setecentos: Bluteau e Morais
Clotilde de Almeida Azevedo Murakawa
Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho – Brasil
murakawa.jau@netsite.com.br

Tomando como ponto de partida de nosso estudo a definição do adjetivo “homônimo” registrada por Raphael Bluteau (1638/1734) em seu Vocabulario Portuguez e Latino (1712/1728):

HOMÓNYMO – Deriva-se do Grego Omos, semelhante, & onyma, que segundo o dialecto Eolio se diz em lugar de Onoma, nome, val o mesmo q cousa, que tem o mesmo nome, ainda q com diferente significação, v.g. a palavra latina Canis significa cão, peixe & hum dos astros celestes. Homonymus, a, um. Quintilian. Os nomes Homonymos, são aquelles, que significão muitas cousas, como este nome Palma, que siginifica a arvore, a victoria, & a palma da mão. Barreto Ortograph. da ling. Portug. pag. 37. Homonymo , & equivoco são o mesmo.

Definição transposta, com alguma diferença, por António de Morais Silva (1755/1824) para as duas edições do seu Diccionario da Lingua Portugueza (1789 e 1813) como se pode ler abaixo:

HOMÒNYMO, adj. Equivoco; i. é, termo que debaixo do mesmo som, tem diverso significado: v.g. palma, que no f. significa victoria; a palma no proprio; e no f. a da mão, &c.

organizamos, a partir da 2ª edição do Diccionario de Morais Silva, um corpus de aproximadamente 300 unidades lexicais, escolhidas aleatoriamente nos dois volumes do dicionário, que consideramos homônimas em virtude do tratamento lexicográfico dado pelo dicionarista brasileiro a estas unidades. São elas unidades homógrafas e homófonas registradas em entradas separadas no Diccionario e pertencentes a classes gramaticais diferentes.

Numa segunda etapa de nosso estudo, confrontamos essas mesmas unidades no Vocabulario com o objetivo de analisar o procedimento lexicográfico de Bluteau em relação ao procedimento adotado por Morais Silva.

À luz de algumas teorias lexicográficas e semânticas a respeito da homonímia e da polissemia, podemos tecer algumas considerações sobre: 1) o critério adotado por ambos os dicionaristas para o registro de unidades homônimas em cada dicionário; 2) o pensamento lingüístico que tais autores tinham sobre o fato lingüístico denominado homonímia; 3) a contribuição de Morais Silva à lexicografia portuguesa pós-Bluteau.

Do latim vulgar ao português actual.
Os Appendix Probi da língua portuguesa
António da Costa Pereira
Universidade do Minho
acpereira@ilch.uminho.pt

Apesar da polémica que o termo latim vulgar tem gerado (Väänänen 1985: 29-34), ninguém põe em causa que é a esta “variante falada do latim” que temos de associar a origem da língua portuguesa. “Língua por definição não-escrita” (Castro 1991: 90), o latim vulgar emerge, no entanto, de textos latinos do período clássico e imperial cujos autores, deliberadamente ou não, se distanciam das regras do latim literário.

Muitas e diversas são as fontes utilizadas no estudo do latim vulgar. Eis alguns exemplos: inscrições (lapidares, murais ou grafitti e tábuas execratórias ou defixionum tabellae), cartas pessoais (escritas por militares e comerciantes), obras técnicas (tratados de medicina, de veterinária, de agricultura, etc.), obras literárias (alguns passos das obras de Catulo, Cícero, Fedro, Horácio, Petrónio e Plauto; e obras de carácter religioso como a Peregrinatio ad loca sancta da monja Etéria e a Biblia Itala ou Vetus Latina), glosas (na Península Ibérica, as emilianenses e as silenses) e obras gramaticais (que têm no Appendix Probi o seu principal representante).

O que é o Appendix Probi? Só os “motores de busca” da Internet registam 425 sítios (cf. Google) mas a resposta pode ser sintetizada do seguinte modo: é uma lista de 227 pares de palavras, sendo a primeira forma tida como correcta (literária) e a segunda, geralmente influenciada pela pronúncia do tempo, como erro (Ex.: calida non calda). Mais: esta lista surge no final de um manuscrito da Biblioteca Vaticana (a Ars Vaticana), saído das mãos de monges italianos de Bobbio, nos séculos VIII-IX e é erradamente atribuída a um gramático que terá vivido em meados do século I d. C. – Valério Probo. O autor do Appendix será antes algum proprietário de um manuscrito da Ars, que, antes do século VIII e na qualidade de professor de gramática, terá elaborado e acrescentado “no final do seu manuscrito uma lista de erros frequentes cometidos na língua falada do seu tempo” (Castro 1991: 91).

Reconhecendo nós o carácter impositivo da língua (cf. Aguiar e Silva 1988-89: 18), quem serão os Appendix Probi do português actual? Os utilizadores da língua, em geral, mas sobretudo as entidades tidas como defensoras e promotoras da Língua Portuguesa: o Ministério da Educação, a Escola, os Professores, os Linguistas e, principalmente, os Gramáticos/Normativistas. As formas de actuação de cada uma destas entidades é, todavia, bem diferente. Para as distinguir, centraremos a nossa atenção preferencialmente nas duas últimas: Linguistas e Gramáticos/Normativistas. Como representantes dos linguistas, socorrer-nos-emos de João Andrade Peres e Telmo Móia (in Áreas Críticas da Língua Portuguesa); de entre os gramáticos/normativistas, seleccionaremos principalmente Celso Cunha/Lindley Cintra (in Nova Gramática do Português Contemporâneo) e Edite Estrela/Maria Almira Soares/Maria José Leitão (in Saber Escrever. Saber Falar). Como lidam eles com a noção de norma e de variedades linguísticas? Como entendem o conceito de “língua como organismo vivo”? Como encaram as oscilações ortográficas e fonológicas de *rúbrica/rubrica, *púdica/pudica ou *carácteres/caracteres? Como respondem a realizações frásicas como “Vendem-se/Vende-se apartamentos”, “Houveram muitos alunos”, “O livro que mais gosta” ou “Cê tá qui é pa quê?”? Será a estas e a muitas outras questões que procuraremos responder no “Colóquio de Homenagem a Amadeu Torres”.

Sobre os demonstrativos anafóricos discursivos em português:
domínios de referência e perspectivas de enunciação
Iris Susana Pires Pereira
Universidade do Minho
iris@iec.uminho.pt

Com esta comunicação, apresento e discuto uma proposta de análise do funcionamento do sistema tripartido dos demonstrativos anafóricos nominais em português. Esta análise é de natureza essencialmente pragmática e foi desenvolvida com especial referência ao funcionamento destas unidades lexicais em texto narrativo.

A partir da análise que Maes (1996) desenvolve para o sistema demonstrativo anafórico nominal bipartido do holandês, e atendendo às reflexões de Oliveira (1988) sobre as propriedades do sistema demonstrativo em português, proponho uma análise do funcionamento anafórico de este, esse e aquele que se ancora em duas noções centrais: a noção de domínios de referência e a noção de perspectivas de enunciação.

Maes baseia a sua proposta na pressuposição de que o uso de um demonstrativo implica simplesmente a associação do referente acedido com um domínio referencial particular instituído pelo texto, e identifica dois tipos de domínios referenciais com que os referentes podem ser associados através dos demonstrativos em textos escritos: um domínio constituído pela enunciação do próprio texto – Domínio Referencial Deictico; outro(s), pelo(s) estado(s) de coisas “representado(s)” pelo conteúdo do próprio texto – Outros Domínios Referenciais. Proponho neste texto que cada um dos três demonstrativos anafóricos do português se associa naturalmente com um destes domínios de referência.

Num segundo momento, procuro mostrar que os demonstrativos esse e aquele, que partilham o mesmo domínio de referência, são unidades diferenciadas e diferenciáveis a partir da noção de perspectiva de enunciação. Com base em dados do seu funcionamento em discurso indirecto, discuto a ideia de que ambas unidades lexicais servem a obtenção de efeitos pragmáticos distintos, que se traduzem numa maior ou menor aproximação do discurso relatado relativamente às personagens responsáveis por esse conteúdo discursivo.

A consideração dos factores domínio de referência e perspectiva de enunciação oferece enfim uma primeira explicação para a natureza escalar que Oliveira (1988) atribui ao sistema demonstrativo anafórico discursivo do português.

Alguns dados que servirão de base a esta discussão são os seguintes:

(1) “Foi assim que à, sobremesa, se entabulou o cavaco indecente que transcrevo, embora com um tal ou qual afogueamento de faces, por me parecer indispensável à claridade deste meu trecho de memórias”;

(2) “Resolvi evitar intimidades e ater-me ao isolamento próprio de quem, pobre e sem valimento, se encontra em terra hostil. Nessa disposição de espírito larguei a hospedaria e passei muitos meses, fugido a convivências e albergado, por preço módico, em casa de um guarda florestal”;

(3) “Monsenhor mostrou-me a preciosíssima colecção de moedas e o álbum de estampilhas, franqueando-me ao mesmo tempo a sua biblioteca, herdada de um tio- naquela família tudo passava de tios a sobrinhos-...”

M. Teixeira Gomes, “Gente singular”. In Ficções. Revista de Contos de Comer. Lisboa: Tinta Permanente, negrito meu.

André de Resende e o ensino do Latim:
o De coniugatione uerborum e outros textos
Virgínia da Conceição Soares Pereira
Universidade do Minho
virginia@ilch.uminho.pt

De entre as diversas áreas de interesse e actividade da multifacetada figura de André de Resende, conhecido humanista português do século XVI, avulta a de mestre de Latim de membros da nobreza e da casa real. Do seu magistério ficou essencialmente um opúsculo in-octavo, de cerca de quarenta fólios, intitulado De uerborum coniugatione commentarius, e editado em Lisboa no ano de 1540. Dedicado a Paulo António, mestre de gramática a quem Resende atribui a insistência para a publicação, a obra destinava-se a proporcionar um instrumento de trabalho à juventude estudiosa.

Como o próprio título sugere, trata-se de uma gramática sectorial, dedicada apenas à conjugação verbal. Mas este trabalho alia, à vertente morfológica (com apresentação da conjugação de todos os tempos e modos das quatro conjugações canónicas, e respectiva tradução em português), desenvolvidas e argutas considerações sobre o valor dos tempos e modos, apoiadas em usos devidamente documentados por meio de sistemáticas citações de passos, extraídos quer da(s) obra(s) de poetas e prosadores clássicos, quer, menos regularmente, de autores recentes. Essas considerações são ainda alicerçadas na opinião de gramáticos antigos e modernos.

Mais do que uma gramática normativa, com as suas regras, estamos perante uma gramática descritiva de usos, isto é, perante um estudo gramatical que envolve reflexão filológica e exemplificação de procedência clássica. Note-se que a preocupação de Resende com a elegantia de certos usos está muito presente ao longo do opúsculo.

Chamando à colação outros textos do mesmo autor, o objectivo da comunicação é relevar a possível originalidade de Resende, comparando a sua exposição e as suas ideias com a de gramáticos antigos e humanistas que o precederam, como Prisciano, Valla ou Nebrija.

Os Memoráveis de Xenofonte.
Como é que uma Chreia se transforma em Apomnemoneuma
Ana Elias Pinheiro
Universidade Católica Portuguesa – Viseu
apiedade@crb.ucp.pt

Ia avançado já o século IV a.C., quando o historiador grego Xenofonte de Atenas terá resolvido coligir em livro as Recordações que guardava do seu tempo de convivência com Sócrates, o filósofo que algumas décadas atrás os Atenienses tinham condenado à morte, num processo a que a história, coeva ou posterior, não ficou indiferente. Empenhado em reabilitar a memória do Mestre, Xenofonte relembra aos seus contemporâneos as qualidades de alguém que teria merecido da cidade maiores honras do que a morte:

Mem. 1.1.1. Muitas vezes me perguntei, admirado, com que argumentos aqueles que acusavam Sócrates convenceram os Atenienses de que a sua morte era um bem para a cidade.[…]

1.3.1. Como de facto me parece que Sócrates era um homem útil àqueles que o acompanhavam, quer pelo testemunho do seu comportamento, quer pelo que dizia, vou registar tudo quanto dessas memórias conseguir recordar.

Algumas destas memórias, contudo, poderão ter resultado de alargamento de pequenos episódios moralizadores, as chamadas chreiai, em que o filósofo seria personagem, e que davam agora corpo a um novo género literário, que, aceitando o testemunho de Diógenes Laércio (2.48) o próprio Xenofonte designara como Apomnemoneumata, ‘Coisas Memoráveis’: E ele foi o primeiro que transmitiu conversas tal como elas tiveram lugar, e as publicou chamando-lhes Recordações.

O que propomos é a análise de alguns dos diálogos socráticos que constituem essas memórias, para tentar reconstruir versões iniciais que, expandidas, possam ter dado lugar aos episódios narrados na obra do historiador.

Sociedade, cultura e estilo epistolar em Cataldo
Américo da Costa Ramalho
Universidade de Coimbra

Foi publicado recentemente o livro Cataldo Parísio Sículo, Epístolas. II Parte. Fixação do texto latino, tradução, prefácio e notas de Américo da Costa Ramalho e Augusta Fernanda Oliveira e Silva. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005, 293 páginas. A presente comunicação ocupa-se da algumas das cartas deste livro, analisadas no âmbito dos temas enunciados no título.

Jerônimo Soares Barbosa:
sua contribuição ao estudo e ao ensino do português no Brasil
Hilma Ranauro
Universidade Federal Fluminense
hilma.ranauro@ig.com.br

A Gramática Filosófica de Jerônimo Soares Barbosa apresenta posicionamentos que a ciências lingüísticas vem privilegiando em nossos dias. Nela se encontram teorias, propostas ou enfoques que vieram a ser modernamente defendidos por estudiosos que passaram a ser tomados como referência.

Algumas das propostas de Mattoso Camara Jr., eminente representante do Estruturalismo no Brasil, já se encontravam na GFLP. Estão lá, por exemplo, a discussão sobre ser ou não o artigo o determinador básico do gênero, bem como a proposta de uma reinterpretação da noção de gênero gramatical, apontando para a confusão que se veio a estabelecer entre gênero gramatical e sexo.

Ao contrário do que se firmou em nossa tradição gramatical, Barbosa não relaciona a noção de grau a um processo de flexão (inflexão, para ele), e sim de derivação. Tal como Edward Sapir, dentre outros, Barbosa relaciona o grau à significação do nome,.

Em seu estudo do verbo, um dos capítulos que estão a cobrar um estudo minucioso, Barbosa fala, com riqueza de detalhes, dos vários tempos e modos (características, empregos e usos) e estabelece a correspondência dos tempos do Indicativo entre si e entre os tempos do Indicativo e os do Subjuntivo.

A proposta de Camara Jr. para um agrupamento dos verbos ditos irregulares em paradigmas também está lá, na GFLP. Para esse estudo Barbosa apresenta vários critérios de sistematização.

Quanto a ser o verbo pôr um verbo de 2.ª conjugação, e não de uma 4.ª, como acreditavam alguns, apresenta dois argumentos: um argumento diacrônico (presença do e na forma primitiva poer), que se manteve em nossas gramáticas tradicionais, e um argumento sincrônico (“restos” dessa vogal nos adjetivos verbais: poente, depoente, oppoente, num processo de comutação semelhante ao que veio a estabelecer Mattoso Câmara: presença da VT -e em várias formas do verbo).

A divisão e classificação das preposições do português, num tipo de abordagem vulgarizado modernamente por Bernard Pottier (preposições do francês) e Maria Luiza Lópes (preposições do espanhol), são nela apresentadas, com minúcias de análise, quanto às preposições do português.

A GFLP deixou marcas nos modelos de descrição do português, malgrado o desconhecimento a que foi relegada. Deixou também vestígios no ensino da língua, especialmente na chamada Análise Sintática, durante muito tempo cavalo-de-batalha das aulas de português, até mesmo no hábito de praticá-la em trechos de Os Lusíadas. Essa prática perdurou, durante décadas, no ensino da língua, em todos os níveis.

Pretendemos pontuar aspectos que apontem para a contribuição de Jerônimo Soares Barbosa para o estudo e o ensino do português no Brasil. Cabe resgatá-lo e dar-lhe o lugar que lhe compete na Gramaticologia do português, posto que a ele muito deve nossa gramática tradicional, como buscaremos demonstrar.

Trata-se de um estudo qualitativo, utilizando a análise de conteúdo como elemento de investigação na busca do estabelecimento de diálogo entre a GFLP e textos de estudiosos e gramáticos contemporâneos brasileiros, com destaque para os de Joaquim Mattoso Camara Jr. Com ele buscaremos divulgar parte das conclusões expostas em nossa análise crítica e comparativa da GFLP, ainda inédita.

A retórica literário-cultural e A Arte Retórica de J. Luís Vives (1532): comunicação e públicos emergentes nas instituições do século XVI ou a didáctica e cultura da língua imaginativa comum
José Esteves Rei
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
jrei@utad.pt


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Inclusão: 16/01/2006