CONTINUAÇÃO
Uma edição fac-similada d’Os Lusíadas, 1572: o caso das estrofes trocadas
K. David JACKSON
Yale University – USA
k.jackson@yale.edu
Uma observação a respeito da edição fac-similada de 1898, de Teófilo Braga, onde seis estrofes se encontram impressas, mas fora do lugar. Trata-se de um volume único, ou de outro erro de composição que nos remete a origem de algumas das variantes dos exemplares de 1572?
António José dos Reis, gramático pombalino
Rolf KEMMLER
Universidade de Bremen – Alemanha
r.kemmler@web.de
Dentro do ramo de investigação da história da linguística portuguesa, um dos desconhecidos mais ilustres é o gramático setecentista António José dos Reis Lobato cuja Arte da Grammatica da Lingua Portugueza (1770), um dos primeiros manuais do ensino público da língua portuguesa, que teve pelo menos quarenta edições ao longo de cerca de cem anos.
Ao passo que a obra gramatical permite estudos gramatológicos como os de Assunção (1997–2000) e Schäfer-Prieß (2000), a personagem histórica do gramático ficou até agora fora do alcance dos historiadores da linguística portuguesa, facto este que fez com que fossem vozeadas dúvidas quanto a uma verdadeira existência histórica de um autor deste nome.
Com base em novos elementos documentais, a presente comunicação visa fornecer algumas informações sobre o Lobato histórico, tentando fornecer umas primeiras noções sobre quem realmente foi António José dos Reis (Lobato).
Narciso, a Filáucia e Pigmalião: a arte, os seus limites e a crítica
Helena LANGROUVA
Universidade Nova de Lisba
Os mitos de Orfeu, Narciso e Pigmalião ficaram indissoluvelmente ligados desde as Metamorfoses de Ovídio e todos eles se reportam à arte, aos limites da relação entre a arte e a vida; ajudam a demarcar a consciência do artista, o distanciamento crítico dos destinatários ou receptores da arte. No reverso dos seus mitos, Orfeu é frustrado como amante e não como poeta; Pigmalião é frustrado como artista porque não consegue dar vida à estátua que fabrica: apenas Vénus pode dar vida à estátua. O excesso de auto-amor, um dos fulcros do mito e metamorfose de Narciso, constitui uma das preocupações dos humanistas. O termo Philautia (amor de si próprio) está implícito num emblema de André Alciato; a “Filáucia” é objecto de meditação de Camões em Os Lusíadas. A Filáucia como excesso de concentração sobre o pequeno ego, no plano cívico e artístico, está próxima da inveja que também tanto preocupou os humanistas – em particular Alciato e Camões. É o excesso de concentração sobre o pequeno ego , o excesso de auto-amor narcísico que muitas vezes se cultiva na arte, incluindo a literatura, em particular nos séculos XIX e XX. A ambiguidade consiste em misturar a aparência de autenticidade com os excessos do autor e das suas estratégias de sedução do leitor, provocando não raro nos destinatários uma adesão sem distanciamento crítico, impedindo-os de respirar e de deixar respirar a obra. Trata-se de uma subtil estratégia da literatura kitsh, termo alemão para designar a arte que não é autêntica. Urge discernir o que preside a todas as formas de literatura e arte kitsch. Há autores que manipulam o leitor e o obrigam a nunca parar. A arte que não é kitsch cria para os destinatários um espaço de liberdade, reflexão e distanciamento crítico. Falta quem dê vida à estátua passando pela grandeza de alma. Falta descobrir uma nova maneira de imitar os grandes de espírito. Falta abrir novos caminhos para a crítica – de arte, literária – que, na sua origem significa separar o trigo do joio. A própria crítica pode ser minada pela filáucia. Embora não sejam citadas obras de arte, de literatura dos séculos XIX e XX, fica o convite para o discernimento.
A edição de Naceo e Amperidónia: léxico, cultura e praxis amorosa como intertexto vital do século XVI
Aida Paula Sampaio Coelho LEMOS
Universidade do Minho
alemos@ilch.uminho.pt
Maria Paula Santos Soares da Silva LAGO
Universidade do Minho
alemos@ilch.uminho.pt
A presente comunicação visa essencialmente dar a conhecer uma edição de Naceo e Amperidónia, novela sentimental epistolar do século XVI a publicar no início de 2005 nos Clássicos da Literatura Portuguesa do IPLB; a essa edição presidiram propósitos e objectivos muito particulares que, conjuntamente com a importância que se atribui à obra no contexto de produção, a instituem como intertexto privilegiado no estudo da língua, cultura e literatura da época.
A comunicação será assim essencialmente dividida em duas partes, na primeira das quais se procurará demonstrar a mais-valia de uma edição conservadora e de um glossário que respeita o único exemplar conhecido da obra, manuscrito e integrado no códice miscelado 11.353 (conhecido como manuscrito Asensio) da Biblioteca Nacional de Lisboa. De facto, a integração da obra num códice miscelado do qual constam uma versão de Menina e Moça (entre outras obras de Bernardim, de Sá de Miranda e outros poetas do seu círculo, Boscán, Garcilaso de la Vega e Jorge Manrique, para além de textos de tipo transaccional e outros) configura a edição conservadora como inestimável intertexto para o estudo do estado da língua da época, nomeadamente no que concerne ao léxico.
Numa segunda parte da comunicação, procurará demonstrar-se, em paralelo com a utilidade de uma edição modernizadora que permite o acesso à obra por parte de um público mais vasto e não especializado – numa perspectiva lúdica de conhecimento da literatura da época como numa perspectiva de investigação – a centralidade de uma obra que reflecte a cultura e praxis amorosa verbal de corte, intertexto fundamental de toda uma literatura da época, quer no que se refere à literatura portuguesa, quer ainda no que mais particularmente toca à novela sentimental peninsular.
Os verbos em confronto: considerações sobre a tipologia verbal nas Artes gramaticais portuguesas setecentistas (1699–1758)
Rogelio Ponce de León Romeo
Universidade do Porto
rogelio.romeo@netcabo.pt
Na presente comunicação são analisadas e sistematizadas as propostas sobre a classificação dos verbos nas Artes portuguesas, impressas entre 1699 – ano da publicação do Promptuario de syntaxe do P.e António Franco – e 1758 – momento em que se imprime a Grammatica latina tratada por um metodo novo, claro e fácil de Luís António Verney –, balizas de um período extremamente rico no referente à produção gramaticográfica e à teoria linguística, e decisivo para a educação e a cultura portuguesas, porquanto nele aparecem os primeiros ataques à pedagogia jesuítica (Freire 1964; Lima 1981; Assunção 1997; Torres 1998: 11-37) e se propicia o Alvará régio de 28 de Junho de 1759, que reforma os Estudos Menores. Neste período se pretende delimitar os fundamentos teóricos subjacentes à descrição sintáctica dos verbos – questão já abordada parcialmente por outros autores (Barajas Sala 1985; Fávero 1996; Schäfer-Priess 2001; Moura 2002; Ponce de León 2004) –, que transcendem – como se pode deduzir das propostas de Manuel Coelho de Sousa e de António Monteiro – a tendência gramatical bipolar, manifestada pelos denominados alvaristas e sanchistas. Para isso, é necessário estudar os pressupostos dos gramáticos da época, como António Franco, Jerónimo Contador de Argote, Manuel Coelho de Sousa, João de Morais Madureira Feijó, José Caetano, António Monteiro, Francisco José Freire e António Pereira de Figueiredo, de cujas obras aparecem localizados exemplares nos repertórios bibliográficos especializados (Cardoso 1994; Assunção 2001).
Les variantes graphiques morpho-syntaxiques et lexicales chez les étudiants portugais dans l’apprentissage du FLE sous l’influence de leur langue native
Ha LO-CICERO
Universidade da Madeira
locicero@uma.pt
L’enseignement du français langue étrangère ne peut pas se détacher de celui de l’orthographe. On parle souvent de l’apprentissage des langues et non de celui de l’orthographe. Indubitablement, comme le confirment Lucci et Nazé (1989: 93), (…) l’apprentissage de l’orthographe est inséparable de celui de la langue; d’abord parce que l’orthographe ne constitue pas une fin en soi; elle n’est une nécessité que par référence à la communication écrite.
L’orthographe française (OF) est une discipline pas comme les autres. Pour bien la connaître et l’écrire, une multitude de règles grammaticales doivent être prises en compte. Les exceptions sont trop nombreuses. Et puis enfin, si on ne connaît pas le grec ni le latin, on ne saurait comprendre l’existence de lettres étymologiques et diacritiques telles que le «y», le «th», le «ph» ou encore certains accents, le circonflexe dans «fenêtre» par exemple. Pourquoi n’écrirait-on pas ortografe au lieu de orthographe? L’OF est compliquée et dénuée de sens, parfois, nous semble-t-il. Cependant, comme l’observe judicieusement Catach (1995), L’orthographe est importante certes, mais elle est une autre face de la langue, elle ne peut en être séparée. Toute l’attitude didactique dépendra de cette conception de complémentarité.
Enseigner l’OF aux apprenants portugais est une tâche laborieuse. Afin d’atteindre cet objectif, connaître la langue portugaise est un paramètre sine qua non…À cette fin doublement ardue, l’analyse linguistique «unilingue» – se référer à une seule et unique langue, le français – serait un handicap car les incidences graphiques chez les étudiants proviennent fondamentalement des interférences de leur langue native ou bien d’autres langues d’apprentissage, l’anglais notamment. Nous entendons par variantes, incidences les erreurs orthographiques que produisent les étudiants.
L’analyse contrastive français « portugais aide à découvrir les raisons pour lesquelles les étudiants commettent telle ou telle variante graphique. Comme le précise bien Vilela (1994: 10): A análise contrastiva consiste na aproximação de duas ou mais línguas para as confrontar entre si e verificar as semelhanças e as diferenças: (...). Les différences (ou les ressemblances) entre deux ou plusieurs langues feront surgir les interférences en question. Une grille typologique d’incidences graphiques doit être élaborée en conséquence à partir des copies d’étudiants, corpus de base.
À l’occasion du Colóquio de Homenagem a Amadeu Torres, nous proposons la communication Les variantes morpho-syntaxiques et lexicales chez les étudiants portugais dans l’apprentissage du FLE sous l’influence de leur langue native. Cette étude permet non seulement d’améliorer notre enseignement de la langue française aux apprenants portugais mais aussi de maîtriser les convergences et les divergences entre le français et le portugais, deux langues disposant d’un fonds au lieu de disposant un fonds commun, le latin.
A história do mui Nobre Vespasiano
José Barbosa Machado
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
jlmachado@mail.telepac.pt
A História do mui Nobre Vespasiano Imperador de Roma foi acabada de imprimir em Lisboa por Valentino de Morávia, ou Valentim Fernandes, em 20 de Abril de 1496. No ano anterior, com o patrocínio da rainha Dona Leonor, esposa do rei D. João II, Valentino de Morávia imprimia a Vita Chisti. É provável que o projecto da edição da História de Vespasiano estivesse já em curso, pois é uma espécie de continuação da Vita Chisti. Aliás a História de Vespasiano surge apensa no final da mesma obra numa versão francesa impressa em Ruen em 1488. Por outro lado, e face à similitude entre a doença de Vespasiano e a doença do rei D. João II, que faleceu em 1495, é possível que esse facto fosse o motivo impulsionador da impressão da obra.
Francisco M. E. Pereira (1905) supôs que a redacção portuguesa da História de Vespasiano fosse feita no período que decorreu de 1438 a 1496 e que o seu autor teria sido algum religioso de um convento de Lisboa, mais propriamente do Convento de Xabregas, dos Padres da Ordem de São Francisco da Observância. Esta suspeita baseava-se no facto de os frades deste convento terem feito a revisão da Vita Christi, impressa em 1495 por Valentino de Morávia. A nós parece-nos que o período sugerido para a redacção, ou, mais correctamente, tradução, está demasiado dilatado. As características linguísticas do texto apontam para uma data mais próxima da sua impressão, o que vem reforçar a ideia de que as motivações para a impressão da obra se prendem com a doença do rei D. João II. De facto, a linguagem, comparando-a com a de outras obras impressas na mesma década, é a de finais do século XV, estando bastante longe portanto da linguagem de Fernão Lopes ou da do rei D. Duarte.
Na pista do Prof. Amadeu Torres:
Gramática da Língua e Gramática da Comunicação
Maria João Marçalo
Universidade de Évora
mjoaomarcalo@clix.pt
Partindo de um artigo de 1986, da autoria do Prof. Amadeu Torres, intitulado Gramática da Língua e Gramática da Comunicação, pretende-se com esta comunicação reflectir sobre a gramática. Dos compêndios de Dionísio Trácio ou de Apolónio Díscolo, fonético e morfológico o primeiro e sintáctico o último, que ensinam a arte de bem escrever e falar segundo os bons autores, até às actuais gramáticas ditas da comunicação, procuraremos abordar semelhanças e dissonâncias de perspectiva e métodos, com vista a demonstrar que as gramáticas da língua sempre reconheceram o valor e funcionalidade dos contextos não só linguísticos, mas também extralinguísticos.
Socorrer-nos-emos, sobretudo, de textos gramaticais portugueses do passado século XX, tentando ainda aduzir algumas considerações sobre o ensino da gramática da língua no actual ensino universitário português.
Esferas pública e privada no discurso político parlamentar – a construção do locutor
Maria Aldina de Bessa Ferreira Rodrigues MARQUES
Universidade do Minho
mamarques@ilch.uminho.pt
Esta análise tem em conta, apenas, a construção do locutor num subtipo do discurso político parlamentar: o Debate da Interpelação ao Governo. O principal objectivo deste tipo de discurso é questionar o Governo sobre um tema político particular. A vigilância democrática e institucional do governo faz destes debates momentos marcantes do confronto político Num nível mais amplo, o objectivo é persuadir o povo, os votantes.
Sendo o estatuto do(s) locutor(es), o de membro(s) do parlamento/governo, a sua função neste tipo de relação discursiva é, em primeiro lugar, representar o povo, através dos partidos.
É assim previsível que os intervenientes neste tipo de debate construam identidades políticas colectivas, e mais especificamente, uma imagem de locutores colectivos.
Confirmando-se, é certo, esta hipótese, ela revela-se contudo insuficiente para a descrição cabal da figura do locutor. Desde logo, porque o papel de porta-voz é múltiplo e multifacetado e porque a dimensão individual é fundamental na construção discursiva, em correlação com a primeira, que vai «reenquadrar» pelas ligações e recontextualizações que permite estabelecer. Nomeadamente, na vertente de autonomia que caracteriza os intervenientes no debate.
A presença do locutor no seu discurso é recuperável, em parte, a partir da imagem que constrói de si próprio, no uso que faz de diferentes dispositivos linguísticos, de que a língua portuguesa dispõe, nomeadamente no uso da deixis nominal e verbal. São estruturas linguísticas que variam em função das características, dos papéis comunicacionais, interaccionais e sociais dos interlocutores.
A análise dos discursos produzidos em sede parlamentar permitirá pôr em relevo o facto de que o locutor, no Parlamento, não é apenas o porta-voz do seu partido ou governo. Ele fala por outras vozes: pelo povo e por si próprio. A despersonalização pretendida não ocorre a não ser como tópico discursivo.
O debate é um género híbrido, simultaneamente planeado e espontâneo. Favorece, portanto, a coexistência de processos enunciativos diversos, contrários mas não contraditórios. A junção destas duas dimensões da construção dos locutores cria a legitimidade do público pelo privado e vice-versa. Os líderes políticos são vozes de autoridade criadas pelo entrecruzar das duas vertentes, que afirmam as duplas relações de dependência/independência face ao(s) grupo(s).
Génese e conceito da epopeia camoniana na teorização literária de Fidelino de Figueiredo
J. Cândido Martins
Universidade Católica Portuguesa – Braga
jmartins@facfil.ucp.pt
As preocupações teórico-metodológicas de Fidelino de Figueiredo no domínio da Camonologia conduziram-no à equação de um duplo problema capital neste complexo e específico domínio dos Estudos Literários, propósito ousado e já devidamente realçado por vários autores: primeiro, a constituição de uma teoria da epopeia, capaz de explicar mais profundamente a criação camoniana; segundo, articuladamente, a gestação e o significado da obra camoniana como epopeia renascentista.
Partindo das reservas fundamentada aos limites metodológicos da crítica das fontes, emblematicamente representada por José Maria Rodrigues, o teorizador demonstra as limitações do velho método histórico-crítico, por um lado; e, por outro, alarga a sua indagação sobre a originalidade de Os Lusíadas através da noção de ambiência lendária, de natureza histórico-cultural, geradora do canto épico camoniano.